18 de abril de 2011

Identidade



No âmbito da discussão que tem estado na ordem do dia a propósito do escasso envolvimento dos cidadãos de Guimarães na preparação da Capital Europeia da Cultura, não têm faltado referências à identidade vimaranense, o que pode levar a crer que os de Guimarães têm um modo de ser e de agir comum, com traços que os aproximam de um modelo de comportamento de natureza tribal.

Não estou seguro de que seja assim. A narrativa da identidade dos vimaranenses e dos seus "excessos" tem sido construída, em larga medida, com base num conjunto de lugares comuns que resultam de uma observação superficial da realidade, que uma análise mais fina desmonta facilmente.

Não será tarefa fácil identificar um conjunto de elementos que estejam presentes em todos os indivíduos e possam definir o perfil comum da identidade vimaranense, como o demonstra a observação de alguns elementos que geralmente se assumem como ingredientes incontornáveis do cimento identitário dos de Guimarães: o Vitória, as Nicolinas, as Gualterianas.

Costumamos ouvir dizer que uma das principais manifestações do sentimento de pertença comunitária das gentes de Guimarães resulta da sua relação com o futebol e com o principal clube da terra, o Vitória. É verdade que os adeptos do Vitória são especialmente entusiastas e dedicados ao seu clube. Mas também é verdade que não falta em Guimarães quem seja indiferente ao fenómeno futebolístico, nem sequer faltam por aí os que são fervorosos adeptos de outros clubes, sem que isso diminua a sua condição de vimaranenses.

As Nicolinas são tidas como manifestações que unem as gentes de Guimarães num vínculo comum. Mas nós sabemos que isso não corresponde à realidade, a não ser, provavelmente, para as gerações mais recentes, aquelas que frequentaram as escolas nas últimas décadas, num tempo de massificação e de generalização do ensino. Para muitas gerações, nomeadamente para aquela a que pertenço, as Nicolinas apenas diziam respeito a uma pequena parte da população de Guimarães, a minoria que frequentava o Liceu. Todos os outros jovens, os que estudavam na Escola Industrial ou os que não frequentavam o ensino secundário, que eram a maioria, eram excluídos. Como é que se podiam identificar com as Nicolinas?

Algo semelhante se pode dizer das Gualterianas. Para muitos, são estas festas as que penetram mais fundo no modo como as gentes de Guimarães se revêem na sua relação com a cidade. É certo que havia quem adiasse o início das suas férias de Verão para poder assistir e participar nas Gualterianas. Mas também não faltava (nem falta) quem antecipasse a saída para lhes fugir.

Não existe um modo único de viver a cidade. Existem diferentes maneiras das pessoas se identificarem com ela. É evidente que não faltam elementos com os quais os vimaranenses se identificam e que podem ser assinalados como marcas simbólicas de um certo espírito comunitário: a história e o simbolismo da Fundação, o Castelo, o Centro Histórico, Afonso Henriques. São elementos de que os vimaranenses se apropriam, em diferentes manifestações, com particular visibilidade no fenómeno do futebol, e que contribuem para compor a principal marca da sua identidade. E essa marca é Guimarães: os vimaranenses, cada qual à sua maneira, revêem-se na sua cidade. Quem melhor definiu este sentimento de pertença e de partilha de uma casa comum foi Jorge Sampaio, quando identificou a existência em Guimarães de um "patriotismo de cidade". Esse sentimento têm-no os vimaranenses, aqueles que aqui nasceram e aqueles que escolheram este lugar como a sua cidade, sejam eles, ou não, vitorianos, nicolinos ou "gualterianos".

O que as gentes de Guimarães não aceitam, e nisso não são diferentes das gentes das outras terras, é verem o afecto que dedicam à sua cidade tratado com sobranceria e menosprezo, e sentirem-se olhadas como aborígenes que vivem mergulhados nas trevas e que só têm que ficar agradecidos aos que imaginam que lhes trazem a luz e a civilização.

[Texto publicado em O Povo de Guimarães, 15 de Abril de 2011]
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