27 de fevereiro de 2011

Rios e ribeiros de Guimarães


Moinho no Rio Ave. Fotografia de Mário Cardoso (década de 1930)
A descrição dos rios e ribeiros de Guimarães, em meados do século XVIII, pela pena do Padre João Baptista de Castro (note-se a ausência da Ribeira de Santa Catarina/Rio de Coutos):

 
Ave. Procede da serra de Agra, e de uma ribeira, a que chamam da Laje; e unindo-se com um regato ao pé da Serra de Cabreira, já com bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas de Barroso, e quatro léguas antes de entrar no Oceano, divide o Arcebispado de Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Vairão, e de S. Tirso, e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo de Guimarães o Vizela, ou Avizela, que passa por Pombeiro, caminha apressadamente por baixo de várias pontes muito boas, e finalmente vai sepultar-se no mar por entre a Vila do Conde e Azurara. O Padre Vasconcelos, como tradutor de Duarte Nunes , o faz erradamente, como ele, nascer junto de Guimarães, como bem repara Fr. Leão de Santo Tomás. Em algumas partes corre com tanta doçura e suavidade, que obrigou a cantar dele Manuel de Faria:

De donde ouvindo estava o som divino,
Que faz correndo o Ave cristalino.

 
Todas as terras, por onde este rio passa, e vai regando, são deliciosas, e ele abundante de barbos mui grandes e saborosíssimos. (págs. 108-109)
(...)
 
Caíde. É um ribeiro, que nasce no monte de Santo António perto da Vila de Guimarães, e se mete no Selho. (pág. 115)
(...)
 
Selhinho. Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com o Selho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de Serzedelo para se intrometer com o Ave. (pág. 116)
(...)
 
Selho. Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de Guimarães, e conduzido com o aumento de outros riachos, vai passando triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deus, a de Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vai esconder no rio Ave por baixo da ponte de Serves, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de Penouços deram as águas deste rio de beber às Tropas Portuguesas, e Castelhanas, que se acharam na batalha da Veiga das Favas. (pág. 116)
(...)
 
Herdeiro. Corre este rio chegado aos muros de Guimarães. Traz sua origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal que chamam de Entre-as-Vinhas, na Freguesia de S. Pedro de Azurém. Tem uma só ponte de pedra lavrada, que chamam de Santa Luzia, mais majestosa do que convinha à pobreza das suas águas. Vai acabar no rossio de S. Lázaro, aonde ajudando-o outro regato, vão ambos incorporar-se com o Selho no Lugar do Reboto. (pág. 124)

[João Baptista de Castro, Mappa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo I, 1762]

 
Partilhar:

6 comentários:

Cláudio Rodrigues disse...

A ponte de Santa Luzia ainda existe? Não consigo perceber onde fica...

aan disse...

Já não existe. Ficava ao fundo da rua de Santa Luzia, já na Quintã. Não a cheguei a conhecer, mas seria na zona onde hoje está o quartel dos Bombeiros. No livro "Guimarães do Passado e do Presente" há uma fotografia, salvo erro da década de 1950, que mostra um dos lados da ponte e em que até aparece um barco a remos na ribeira. Era pela festa de S. João, altura em que se fazia ali uma represa que, quando cheia, até dava para "navegar". Segundo diversos autores, ponte a mais para tão pouco rio...

aan disse...

A fotografia de que falei acima é esta´.

Cláudio Rodrigues disse...

Bem, pelo pouco que se consegue ver, altura ainda tem alguma, tendo em conta que a ribeira estava mais alta que o costume.

aan disse...

"Em Guimarães - Ponte sem rio. Sé sem Bispo, Palácio sem Rei e Roma sem Papa." A ponte onde faltava o rio era a ponte de Santa Luzia. ponte com uma altura apreciável, sob a qual corria, normalmente, um fio de água. Por ela se saía em direcção a Braga até meados do século XX.

Eu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.