13 de janeiro de 2010

A Capital Europeia da Cultura e a comunicação



A principal conclusão do debate de dia 8, promovido por cinco associações culturais vimaranenses, sobre a participação dos cidadãos na Capital Europeia da Cultura, prende-se com a comunicação, ou a falta dela.

Compreende-se que o tempo não tem jogado a favor de quem tem a seu cargo a gestão do processo, mas é certo que ainda não se vêem resultados de um dos objectivos prioritários definidos no documento de candidatura, onde se lê que "uma vez que "um acontecimento que não se dá a conhecer é como se não existisse", considera-se prioritário, no processo de desenvolvimento do projecto, a realização de um projecto de comunicação". A menos de dois anos de 2012, não se conhece qual seja o projecto de comunicação para Guimarães, Capital Europeia da Cultura. E vão faltando elementos básicos no processo de comunicação, nomeadamente ao nível da imagem: o logótipo ainda não existe, a página na internet é escassa em informações, além de pouco dinâmica (a página já tem quase meio ano, mas continua com funcionalidades inactivas, como o espaço destinado à imprensa, central em qualquer estratégia de comunicação; no momento em que escrevo, a notícia mais recente que se pode ler no clipping de notícias data de 19 de Outubro de 2009; por mais que se procure, não se consegue aceder a qualquer dos documentos já produzidos, relacionados com a organização, mesmo aqueles que antes ali estiveram acessíveis). Temos que ser mais eficazes e mais exigentes no domínio da comunicação.

Uma breve passagem por Marselha e por Košice, que serão as capitais da cultura de 2013, deve suscitar alguma reflexão.

Para que se percebam os objectivos a que Guimarães se propõe com a CEC, nomeadamente quanto ao que se espera do envolvimento dos cidadãos no processo, parece-me que deveríamos começar pelo princípio: faz falta, por exemplo, uma maior divulgação do documento da candidatura, que poucos conhecem, tornando-o acessível através da internet.

Pela parte que me cabe, darei um modesto contributo para essa divulgação, deixando aqui o texto que me foi pedido para integrar o processo de candidatura:




Identidade/Memórias

Num dos panos da antiga muralha de Guimarães está inscrita uma frase que se transformou numa insígnia da cidade, Aqui nasceu Portugal, onde transparece a ideia de que foi a partir deste lugar que, desde os confins da Idade Média, o país começou a caminhar. Guimarães, capital histórica de Portugal, terra da Fundação, do Castelo, do primeiro rei, da primeira tarde portuguesa, está indelevelmente associada ao surgimento de uma das mais antigas nacionalidades da Europa. É por essa razão que aqui se preserva e se evoca, mais do que em qualquer outro lugar, a memória da identidade nacional.

Porque daqui nasceu Portugal, Guimarães desde sempre se afirmou como uma cidade histórica associada às raízes da nacionalidade, cujas gentes persistem em manter uma estreita e genuína vinculação à marcas da memória colectiva, que trazem carregada de afectos que, muitas vezes, vão para lá dos fundamentos do simples conhecimento histórica.

A simbólica do berço não se confina aos limites apertados dos muros do velho burgo vimaranense, antes se alarga ao universo da região onde se insere, o Minho. É neste território, criação da Natureza e do Homem, lavrado no granito e pintado de verde, que se encontram traços de identificação com as raízes da nacionalidade, cujas reminiscências mergulham em tempos muito anteriores ao acto fundador de 24 de Junho de 1128.

Este é um território onde o cimento da identidade colectiva também passa por um fundo cultural partilhado, onde se cruzam a história, a monumentalidade – da dispersão do românico ao fulgor do barroco –, as tradições, o trabalho, o artesanato, as manifestações religiosas e festivas, a gastronomia, a paisagem, as gentes. A construção do universo cultural e social comum a todo este território foi amassada na diversidade de permutas interculturais que acentuaram os elementos da sua originalidade e diversidade, no contexto da cultura europeia, por onde passam a herança castreja, a presença romana ou os sucessivos processos de aculturação de que por aqui tiveram lugar.

Este é o berço da nação, mas também é o berço da língua portuguesa, que cresceu mais do que o país, tornando-se comum a tantos milhões de homens e de mulheres que se espalham por todos os continentes. Por Guimarães e pela sua região passa também um pouco da memória da construção da Europa e da sua afirmação no Mundo, também feita de partilhas culturais.

Num tempo em que, por força da imparável torrente globalizadora que vai configurando o mundo em que vivemos, se vão esbatendo as referências colectivas que, desde sempre, marcaram as identidades locais e nacionais, Guimarães aspira a continuar a assumir-se como uma sólida reserva da memória. Por aqui, olha-se para a História com o fascínio de quem observa, em cada sulco talhado no granito, as marcas do fluir do tempo que resistem às vagas do esquecimento, sem sombra de compulsões passadistas, mas com a consciência de que o respeito pela memória histórica é indissociável da construção do seu futuro. Porque um povo, qualquer povo, tem mais clara noção da dimensão do seu futuro na medida em que é capaz de se rever no seu passado.

Enquanto Capital Europeia da Cultura, Guimarães, valorizando as suas especificidades identitárias no contexto da cultura da Europa, apostará na valorização da pertença a uma cidadania que vai para lá das portas da cidade e das fronteiras do país, a cidadania europeia. A concretização deste objectivo passará, necessariamente, pelo investimento no conhecimento da História e da cultura locais e regionais, contribuindo para que se continue a assumir a memória colectiva como um património que deve ser preservado e valorizado.

António Amaro das Neves, in "Candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura", pp. 62-63.

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12 de janeiro de 2010

A Comarca de Guimarães em 1739



A Comarca de Guimarães

A três léguas de distância da Cidade de Braga, nove, pouco menos, da Cidade do Porto, e sessenta da Cidade de Lisboa foi fundada a Capital desta Comarca pelos Galos Celtas mil e quinhentos anos antes da vinda de Cristo, e foi conhecida na antiguidade com muitos nomes, de que o principal foi Araduza. Conquistaram-na aos mouros os reis de Leão, e foi uma das terras principais do dote, que Afonso VI deu ao nosso Conde D. Henrique. Pôs nela este Príncipe a sua Corte dando-lhe foral pelos anos de 1090 e tem a prerrogativa de ser pátria do primeiro Rei de Portugal D. Afonso Henriques

Está situada em 41. gr. e 34. min. de latitude , e 10 e 26 min. de long. entre os rios Ave, Selho e Vizela, que por todas as partes a circundam e fertilizam. El-Rei D. Dinis a rodeou de vistosas e fortes muralhas com nove portas, e sete altas torres, que tudo se inclui na circunferência de três mil seiscentos e oitenta e cinco passos geométricos. Goza de voto em Cortes, com assento no banco terceiro.

Nela se venera a prodigiosa imagem de N. Senhora da Oliveira, que a tradição afirma a trouxera Santiago a Espanha, à qual é dedicada a insigne Colegiada fundação de Mumadona, tia de D. Ramiro II, Rei de Leão para Mosteiro de Religiosos e Freiras de S. Bento; porém El-Rei D. Afonso Henriques a fez Colegiada, e El-Rei D. João I a reedificou pelos anos de 1425.

O seu Cabido se compõe de um Prior data de Sua Majestade com perto de três contos de renda, Chantre com seiscentos mil réis, Arcediago de Vilacova com duzentos e vinte mil réis, Arcediago do Sobradelo com trezentos mil réis, Tesoureiro-mor com quatrocentos e quarenta mil réis, Mestre-Escola com quatrocentos e sessenta mil réis., e Arcipreste com quatrocentos e quarenta mil réis. As prebendas, que nos seus princípios não passavam de três mil réis, hoje são quinze e chegam a render cada uma duzentos e trinta mil réis. Tem mais a Colegiada oito meios Cónegos e seis Capelães, e quarenta e seis Clérigos para a assistência dos enterros, todos com consideráveis emolumentos.

Enobrecem muito esta vila os muitos edifícios públicos, a saber quatro Freguesias, em que se dividem os seus moradores, que são a Colegiada, S. Paio, S. Sebastião e S. Miguel do Castelo, em que foi baptizado o Senhor Rei D. Afonso Henriques, e duas mais nos arrabaldes, Casa de Misericórdia, e os hospitais de S. Lázaro, S. Paio, e S. Dâmaso e os Conventos de S. Francisco, de S. Domingos, de Capuchos de S. .António menir, o de S. Clara de Religiosas Franciscanas, de S. Rosa de Dominicas, o Colégio dos Padres Jesuítas e dois Recolhimentos, o de N. Senhora das Mercês e o de S. Isabel, e extramuros o Convento de S. Marinha da Costa de Religiosos de São Jerónimo.

Os edifícios particulares consistem nas casas de morada de muitas famílias nobres, que habitam nesta vila e são Administradores de cinquenta e quatro morgados, que se fundaram por pessoas naturais dela, com grandes rendimentos de fazendas, com que vivem opulenta, e luzidamente.

Reside nela o Corregedor da sua Comarca, Ministro de letras, cujo cargo teve princípio neste Reino pelos anos de 1372. À sua conta está a emenda e castigo dos malefícios que na Comarca se cometem, para cujo efeito a corre cada ano em correição, e andando nela pode conhecer de tudo: castiga, prende, guinde os juízes e mais oficiais, os quais são obrigados a dar-lhe conta dos casos mais graves, que sucedem nos seus distritos, para ele dar a S. Majestade: conhece por agravo, que se interpõem dos Juízes de fora, e provê, como lhe parece justo, porque dó por agravo pode tomar conhecimento dos defeitos, salvo no tempo da correição.

Também tem nela sua residência ordinária o Provedor da Comarca, lugar de letras, instituído para arrecadação das rendas reais, e para tratar dos bens dos órfãos, viúvas, Capelas, defuntos e ausentes, que vai todos os anos em correição para prover nestes particulares, e nos das Confrarias: conhece por agravo, que para ele de interpõe
dos Juízes dos órfãos, porque nestes casos não se intrometem os Corregedores. Toma conta aos testamenteiros, e tutores, provê a serventia dos ofícios das terras, e faz executar sem apelação, nem agravo o que cabe na sua alçada.

Tem mais Juiz de fora, cargo que teve princípio no tempo de El-Rei D. Manuel: é também lugar de letras para conhecimento das injúrias, e das devassas. Não pode sair do lugar do seu julgado durante o seu triénio. Tem mais juiz dos órfãs, Juiz ordinário, Vereadores, e Meirinhos, e Escrivães, e porque todas as Cidades, e Vilas capitais das Comarcas se governam com Ministros de semelhante jurisdição por não repetir em cada uma delas uma mesma coisa, para em todas fica aqui advertido com a singularidade de que nas terras que são de donatários, como Valença, Crato, etc. não usam os Ministros do nome de Corregedores, senão de Ouvidores, ainda que não há diferença na jurisdição.

Tem a Comarca, de que esta vila é capital, quatro vilas, vinte concelhos, catorze coutos e três honras com trezentas e trinta paróquias com mais de quarenta mil fogos e perto de cento e cinquenta mil almas (…).

António de Oliveira Freire, Descripçam corografica do Reyno de Portugal, Lisboa, 1739, pág. 23-26
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7 de janeiro de 2010

4 de janeiro de 2010

Francisco Martins Sarmento, sobre Guimarães e a Exposição Industrial de 1884


Retrato de Francisco Martins Sarmento, pelo pintor Abel Cardoso, 1923. 

"O grande merecimento da exposição de Guimarães será o de mostrar, sem disfarces nem charlatanice que este concelho possui forças industriais respeitáveis que, se bem disciplinadas, sustentariam o seu posto de honra na luta contra a invasão da indústria estrangeira que ameaça reduzir-nos á extrema pobreza.

Esta verdade há-de impor-se aos governos, que tomarem a sério o seu ofício, e forçá-los a reparar as flagrantes injustiças que têm feito a esta terra; e pela nossa parte aconselharíamos os nossos compatrícios a acabarem por uma vez com o papel de suplicantes. Quando os governantes, como o tiranete antigo, têm as orelhas nos pés, o pedido, ainda o mais justo, obriga a uma posição humilhante.

O que temos a fazer é coisa muito diferente."

Francisco Martins Sarmento, in A Indústria Vimaranense, n.º único, 15 de Junho de 1884
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2 de janeiro de 2010

Efemérides para o ano de 2010


Gravura da revista Maria Rita, a propósito do conflito entre Guimarães e Braga.

Ao longo do ano que agora se inicia, passam as seguintes efemérides relacionadas com Guimarães:

14 de Janeiro
Passam 15 anos sobre a inauguração da Escola Industrial Francisco de Holanda. Começou a funcionar na sede da Sociedade Martins Sarmento, que então estava no largo do Carmo (hoje Martins Sarmento), no edifício contíguo à casa de Francisco Martins Sarmento. Abriu com 104 alunos matriculados, dos quais 14 do sexo feminino (1885).

1 de Março
Assinala-se a passagem de 150 anos sobre a entrada em vigor em Guimarães do sistema métrico decimal, no que respeita às medidas lineares (1860).

16 de Junho
Centenário da designação como monumentos nacionais dos seguintes monumentos de Guimarães (1910): "Monumentos pré-históricos, antas e outros monumentos": Anta de Polvoreira*; "Monumentos lusitanos e lusitano-romanos": Castros: Citânia de Briteiros e "Citânia" de Sabroso; marcos miliários ("série Capela"): Braga e Guimarães (dois marcos, pertencentes à Sociedade Martins Sarmento); inscrições: Lápide das Taipas ("Ara de Trajano"); "Igrejas": Igrejas de S. Miguel do Castelo, de Nossa Senhora da Oliveira, de S. Domingos (Claustro) e de S. Martinho de Candoso; "Cruzeiros": Cruzeiro de Nossa Senhora da Guia; "Castelos": Castelo de Guimarães; "Padrões": Padrão de D. João I; "Monumentos civis": Paço dos Duques de Bragança; "Paços Municipais": Paços Municipais de Guimarães.

5 de Outubro
Centenário da implantação da República em Portugal, cuja notícia chegou a Guimarães nos jornais do Porto do dia 6 de Outubro de 1910. A proclamação da República foi lida nos Paços do Concelho (praça da Oliveira) ao meio-dia e vinte e dois minutos do dia 8, sendo a nova bandeira hasteada três minutos depois. A banda "Boa União" executou a Portuguesa.

28 de Novembro
Passam 125 anos sobre o dia em que os três procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito de Braga, Conde de Margaride, Joaquim José de Meira e José Martins de Queirós (Minotes), foram apedrejados e insultados nas ruas da cidade de Braga, dando-se início à célebre questão brácaro-vimaranense (1885).

6 de Dezembro
Assinalam-se 825 anos sobre a morte, em Coimbra, de D. Afonso Henriques (1185).

*A atribuição da condição de Monumento Nacional a este monumento é, ainda hoje, um mistério, uma vez que, tanto quanto se sabe, a "Anta de Polvoreira" nunca existiu...
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1 de janeiro de 2010

O fim do ano de 1884



E temos findo o ano pródigo de 1884.

Se esta crónica não fosse já chegando aos seus limites, eu faria aqui uma leve resenha do que nos deu e do que demos ao ano que expira; e, confrontando o activo com o passivo, dar-lhe-íamos uma coroa de louros ou uma figa.

Vamos por palpite.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal com o ano que finda?

A meu ver, o ano de 1884 foi o ano dos sustos… e da boa pinga.

Oxalá que o próximo ano não seja das realidades… e da zurrapa.

Morre em paz, ano de 1884, e que a terra te seja leve.

Requiescat in pace.

Extracto da "Crónica da Semana", do jornal o Comércio de Guimarães, 1.º ano, n.º 57, 29 de Dezembro de 1884.

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