5 de outubro de 2009

A proclamação da República em Guimarães

O largo da Oliveira, nos primeiros anos do século XX. Ao fundo, os antigos Paços do Concelho, local onde pela primeira vez foi hasteada a bandeira da República em Guimarães.

As repercussões em Guimarães da instauração da República, em 5 de Outubro de 1910, foram noticiadas do modo que se segue pelo jornal O Comércio de Guimarães, de orientação monárquica:


Proclamação da República

Como em quase todas as terras do país, em Guimarães também houve manifestações de regozijo pelos adeptos do novo regime.

Os republicanos têm sido correctos e bastante moderados nas suas manifestações, não havendo, no meio de tanto movimento, uma única nota discordante.

A não ser vivos comentários, discussões e manifestações, nada de anormal se tem passado em Guimarães.

Algumas casas religiosas têm estado policiadas, o que a nosso ver seria desnecessário, pois cremos que os vimaranenses as respeitariam, pois que todas estão no firme propósito de respeitar e fazer respeitar a lei.

No dia 8 foi solenemente proclamada a República nesta cidade.

Foi içada a bandeira na Câmara Municipal, no meio de vivas à República, ao exército, à Pátria, ao povo português, etc., etc.

O largo fronteiro àquele edifício achava-se repleto de povo, bem como estacionavam ali duas bandas de música e a banda regimental que fez a devida continência à bandeira.

Em seguida também foi içada a bandeira no quartel de Infantaria 20, repetindo-se as manifestações de regozijo.

Alguns dias e noites percorreu as ruas da cidade uma marcha “aux flambeaux”, vendo-se á sua frente alguns conhecidos republicanos que entusiasmados soltavam vivas e empunhavam bandeiras republicanas.

Em todo o percurso houve boa ordem, debandando tudo sem incidentes.

Alguns edifícios particulares hastearam bandeiras e iluminaram as suas fachadas.

In O Comércio de Guimarães, n.º 2495, 1.º ano, Guimarães, 8 de Outubro de 1910
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10 comentários:

Movimento 1128 disse...

Guimarães acordou a 5 de Outubro com a verdadeira Bandeira de Portugal hasteada no Palácio de Santa Clara, sede do Município de Guimarães.
99 anos depois, lembramos a Monarquia, o regime deposto por um crime e contra a vontade de um povo. O regime que a “democrática” Constituição da República Portuguesa não permite que seja reinstituído por referendo popular.
Lembramos a nossa História a partir da terra sagrada que viu nascer Portugal e o seu Primeiro Rei.

Veja o vídeo:
http://movimento1128.blogspot.com/ – Um blogue vimaranense por causas nacionais

aan disse...

Ora, ora. Então será que a monarquia permitiu que se realizasse um referendo popular à Carta Constitucional, imposta por um rei que ninguém elegeu?

A República é um regime imposto contra a vontade do povo? E o povo não fez nada para repor a sua vontade?

O «regime da "democrática" constituição» permite que os monárquicos se candidatem às eleições legislativas. Se o povo estivesse com eles, ganhavam as eleições e faziam a revisão da constituição, mudando o regime pela via democrática. Antes isso do que o circo das bandeiras hasteadas à sorrelfa, por "heróis" de pacotilha.

(Pois é, tinha-me esquecido: os monárquicos até concorrem às eleições, mas o povo, esse ingrato, muito "contra a vontade", não vota neles. Nas últimas legislativas, há dias, tiveram 0,27%. Ainda lhes falta "um bocadinho assim" para conseguirem mudar o regime).

Movimento 1128 disse...

Caro aan,
Talvez do nome nórdico, à sorrelfa, lhe permita ver as coisas transviadas. Será porventura da falta de sol.
Que democrata se diz o senhor quando pretende branquear a clarividência da impossibilidade referendária? Sem prosápias arrisvistas, esse é o facto: a Constituição não permite que o povo, se o entender (sublinho, se o entender), possa referendar o regime. É a chamada democracia imperfeita, ou incompleta, ou até, democracia até onde nos dá jeito.
Outro facto: todas as monarquias europeias ocidentais (esses povos atrasados mentais!) permitem que o regime seja posto em causa a todo o tempo.
Houvera referendo, podia o querido aan pronunciar-se, desfavoralvemente, e outros favoravelmente, mas pronunciávamo-nos. Assim funciona uma verdadeira democracia.
Seja à vontade contra a monarquia. Respeitamo-lo sem a soberba que manifesta.
Não tente é querer convencer os incautos. Por aí não. Siga outro caminho.

Movimento 1128 disse...

E faça-nos o favor de não confundir as (será que crê legítimas?) pretensões monárquicas com as políticas, os fados e os PPM's.
Deixe lá a malta defender coisa diferente de si. Também não tem mal nenhum.

aan disse...

Confesso que não percebo essa do nome nórdico, nem o que possa ter a ver com o assunto.

Quanto ao mais, dir-lhe-ei que a Constituição não é eterna e que nada impede que seja revista ou substituída por outra. Para tanto, é preciso que se adquira legitimidade para tal, o que, perdoe-me que lhe diga, não reconheço a quem não é capaz de dar a cara pela sua causa e actua encoberto, pela calada da noite, como se nesta nossa pobre República os cidadãos não fossem livres para expressarem o seu pensamento. Sintam-se livres para saírem do armário, porque, que eu saiba, até hoje, desde que temos a actual Constituição, ninguém foi preso por defender a monarquia.

A monarquia em Portugal é coisa do passado. Está morta e enterrada há quase um século. Pode ressuscitar? Pode, mas duvido que algum dia isso aconteça. Aqueles que colocam em causa o regime têm um peso residual na nossa sociedade. Mas hoje ninguém impede os monárquicos de defenderem as suas ideias e de tentarem captar para elas o povo português (que, como bem vemos, se está nas tintas para a monarquia). Organizem-se (se o PPM não é o vosso partido, façam outro, que não é assim tão difícil), candidatem-se, batam-se pelas vossas ideias, conquistem a adesão dos eleitores à vossa causa, ganhem as eleições, coloquem a questão do regime. Porque o limite material à revisão da Constituição que garante o sistema republicano de Governo, também tem, ele próprio, um limite, que está na natureza do regime: a soberania popular (art.º 2.º da CRP). O povo é soberano. Se o povo quiser mudar de regime, nada o impedirá. Porque, antes da república, está a democracia. Quando a maioria dos portugueses quiser mudar de regime (e para isso não será necessário nenhum referendo, já que os referendos não são um brinquedo para nos entretermos a brincar aos plebiscitos). E, entretanto, meu caro desconhecido, pode continuar a brincar ao jogo do clandestino.

Quanto a referendos, temos outros para fazer, muito mais relevantes. Por exemplo, o da regionalização.

Movimento 1128 disse...

Caro Amaro das Neves,
Perdoe-me a “bloguexclusão” mas não o identifiquei como sendo o autor do blogue. Julguei tratar-se de alguém estranho a este blogue que escolheu as primeiras letras que lhe apareceram.
Perdoe-me lá a frontalidade, mas nestas coisas das identidades escondidas, o do brincar ao jogo do clandestino, não sei se há muito quem possa atirar pedras. Uma vezes tacitamente assumido, outras nem por isso, já todos experimentaram falar sob a capa do anonimato, até de altaneiras e extintas torres.
Quanto ao nosso assunto. A Constituição pode ser sempre ser mudada, mais não seja por uma revolta armada. Não é do que se trata. Como seremos ambos democratas (eu pelo menos sou), certamente que ambos concordamos que o regime, para ser verdadeiramente democrático, deve permitir que seja colocada em causa. Só isso. O resto são lugares comuns de que não tenho como discordar. Evidentemente que quando (se) surgir um movimento verdadeiramente enraizado, altera-se a Constituição nem que seja à força. É esse o conceito que o vejo defender de soberania popular. Mas uma vez mais, não é isso que se discute. É a mesma Constituição que deveria ser suficientemente madura para não necessitar de se blindar a si própria. É um pouco ao estilo “sou democrata desde que todos concordem comigo”. Essa não é uma verdadeira democracia.
A partir daí, talvez até nem houvesse matéria para referendar. Talvez sim, talvez não. Mas pelo menos, os defensores de um regime monárquico (ainda que residuais como graciosamente os designa) poderiam, se o quisessem, brincar aos referendos. Curiosa forma de tolerância essa. Se se trata de referendo ao qual atribui importância (regionalização), é um referendo “relevante”, se se trata de matéria à qual não atribui, é “brincar aos referendos”. Belos e maduros conceitos de democracia esses…
Pois eu considero que o instituto plebiscitário existe para ser usado, ou melhor, para poder ser usado. Por quem entenda dever fazê-lo, ainda que porventura estupidamente, desde que em preenchimento dos requisitos. É isto que é a verdadeira democracia.
O resto são os supostos, e alegados, democratas, que se demonstram mais intolerantes do que a tolerância que pregam.
Estas coisas da monarquia é como tudo, há quem goste e há quem não goste.
Eu não acho que os republicanos sejam todos assassinos ou defensores de actuações criminosas, por se reverem no Buiça, nem que sejam todos maçons, apesar da Carbonária e da I República, como tenho a certeza que não acha que os monárquicos tenham todos sangue azul, bigodes enrolados e gostem de touradas e uns fadunchos.
Isso são os preconceitos. Algo que a esquerda em geral tanto combate, mas por vezes tanto pratica.

aan disse...

Meu caro e ignorado amigo,

Quanto ao brincar ao clandestino e às identidades (propositadamente mal) escondidas há que fazer a distinção da natureza das coisas: a natureza de um espaço com vocação satírica, é bem diferente da de um espaço que pretende reflectir um projecto político, com toda a seriedade que se reconhece a qualquer projecto político. Cá por mim, já estive muito envolvido politicamente, mas, felizmente, nunca tive necessidade de o fazer clandestinamente. Porque esta República já não é a do Estado Novo, não consigo perceber o que possa impedir alguém de defender as suas ideias. O regime pode ter blindado constitucionalmente a sua natureza, mas não blindou a liberdade de opinião, mesmo quando a opinião questiona a natureza do próprio regime. As ideias que defende, que considero respeitáveis, são discutíveis, mas ninguém está impedido de dar a cara em sua defesa (e não falta por aí quem o faça).

Quanto ao mais, olhe que o país não parou em 1910. Hoje ninguém se lembra do Buíça, a Carbonária está extinta há muito tempo e os maçons que eu vejo por aí estão longe de se poderem qualificar como criminosos ou assassinos.

Aliás, criminosos e assassinos havia-os, em 1910, de ambos os lados da trincheira. Como sempre os houve. Porém, hoje os tempos são outros. Pela minha parte, embora republicano, não sou capaz de olhar para a República ou para a Monarquia com os olhos de um republicano de 1910. Mas, ao que vejo, não faltam por aí monárquicos que parecem ter fé num regresso a antes de 1910, a um país que eles imaginam ter existido, mas que nunca existiu. Porém, por muito esforço que se faça, a História não volta para trás.

E o que nos mostra a História? É que a Monarquia portuguesa caiu de podre, mergulhada num imenso lodaçal de corrupção e de incompetência (que, como sabemos, não são exclusivos da Monarquia). A Monarquia caiu porque já não era capaz de governar o país. E ninguém acudiu por ela. A 1.ª República fez muito melhor? Não fez e, como consequência, tivemos 1926. Mas, desde então, a roda do tempo já deu muitas voltas e sempre no mesmo sentido, o dos ponteiros do relógio. O tempo não tem recuo. Porque, se recuasse para repor legitimidades que, ao longo da História, foram quebradas por rebeliões, revoltas ou revoluções, tinha que recuar até muito lá para trás. Até Afonso Henriques. E, aí, regressaríamos à Monarquia. Mas seríamos espanhóis.

Quanto ao instituto referendário, tem razão: existe para ser usado. Mas, acho que está enganado quando afirma que é para ser usado por quem entenda dever fazê-lo. Até porque tem custos significativos, é para ser usado com parcimónia, para questões que impliquem dilemas e que sejam sentidas como prementes por uma significativa maioria política e sociológica dos portugueses. Não me parece que seja esse o caso, no momento presente, da discussão acerca da natureza do regime. Querem referendar o regime? Ok. Mas, primeiro, cresçam e apareçam.

Quanto ao mais, a história que está na origem desta conversa, o desfraldar da bandeira da monarquia em Santa Clara, tem a dimensão de uma traquinada, ainda por cima de imitação. E um acto falhado. Até porque, aquele velho convento não encerra qualquer simbologia republicana, ao contrário do edifico da Câmara de Municipal de Lisboa.

(Já percebi que o PPM não é o vosso partido. Percebo porquê: aquilo é hoje um arremedo de partido, dominado por gente pouco recomendável. No entanto, tempos houve em que era dirigido por monárquicos respeitados e respeitáveis, como o Arqt.º Ribeiro Teles. Mas tinha as mesmas votações residuais de hoje e, mesmo então, só teve alguma visibilidade quando chegou à Assembleia da República às cavalitas de coligações com partidos republicanos.)

Anónimo disse...

Se Portugal está hoje como está, imagine-se ter que ainda manter uma casa real no poder; ainda que fosse representativa.
Já agora, caro professor, não quereria dizer "ignorante " ao invés de "ignorado" amigo, na anterior resposta? hihihihi. (Desculpem, não consegui resistir.)
Um bem haja professor e força na sua demanda.

Ass: Um "curioso"

Movimento 1128 disse...

Meu caro a ignorado Amaro das Neves,

Vejo e aprecio o recuo em alguns pontos de vista. Não nas convicções mas nos pontos de vista.
Acho curiosa a parcialidade da sua visão no que respeita aos espaços com vocação satírica (por si assim designados), como sendo permissivos da ocultação de identidade e os espaços que você entende deverem reflectir um projecto político, devendo nesses dar-se a cara. É a sua opinião, apenas isso. Certamente que nas torres muito havia quem gostasse de saber a identidade de quem escrevia sátira a coberto do anonimato. Sendo admissível que houvesse quem legitimamente achasse que a sátira ali produzida devia ter um nome. Mas ainda assim, é a opinião dos que assim pensam. Como esta distinção dos blogues tipo catálogo é sua.

No entanto, como disse, isto é só uma traquinada, não é um projecto político. Digamos que é uma maneira menos sanguinária de fazer lembrar que ainda há quem pense que devemos reflectir sobre a questão do regime. Apenas isso. Passar a mensagem de uma forma porventura até mais capaz do que outras formas igualmente legítimas de o fazer. Se quiser, mais com efeitos publicitários do que outros, como ensinam aqueles que apressadamente diz que imitamos (31 da Armada) sem cuidar de perspectivar se não haveria porventura concertação.

Quanto ao resto subscrevo praticamente tudo o que diz (surpreendido?) tirando a parte da História nunca andar para trás. Em Espanha andou, se entendermos o regresso à monarquia como um voltar atrás na História, e a isso deve a sua integralidade territorial, ainda hoje. Regressou por mão do Franco é certo, mas a verdade é que a Espanha pós-fascista (por razões que eles lá saberão) não quis regressar ao republicanismo instituído em período próximo do nosso.

Deixe-me terminar dizendo-lhe que respeito imenso ter referido que “As ideias que defende, que considero respeitáveis, são discutíveis” pois é esse o patamar que as pessoas verdadeiramente inteligentes (e não apenas aqueles que assim se consideram) olham para as questões, procurar perceber a razão que se esconde por trás de cada convicção, por mais estapafúrdia que nos possa parecer. Só assim nos podemos dizer verdadeiramente tolerante, e atingir uma dimensão superior de intelectualidade, compreendendo as razões de todos os espectros políticos, sociais e ideológicos. E elas existem de facto. Podemos é não as subscrever todas. Mas existem e nos mais diferentes programas e partidos.
Postura diferente desta besta pré-cúbica que classifica de “ignorante” quem pensa diferente de si. Como o próprio diz, não resistiu. É esse um dos males da humanidade, a verborreia intelectual, seguida normalmente da (mais grave) expressão oral da mesma. Para mais revelando a mesma condição de que acusa este escriba (para quem não tenha percebido: ignorância) pois fala em “manter uma casa real no poder” na absoluta ignorância dos dados ainda recentemente divulgados que a República Portuguesa fica mais cara ao erário público do que qualquer, sublinho, qualquer monarquia europeia. Custa a República Portuguesa, a Portugal, mais do dobro do que a Monarquia espanhola, a Espanha, país que só por acaso tem muitas vezes o nosso tamanho. Não é, obviamente, este o argumento a favor ou contra a monarquia, é apenas um dos falaciosos que por vezes é arremessado às monarquias, naturalmente, apenas por ignorantes como o que antecede.

aan disse...

Não, meu caro, a história não volta para trás. E o exemplo Espanhol, há que o notar, é especialmente infeliz para o seu argumento. Ali, a História não também voltou para trás. Houve uma República, a que se chegou por via das urnas, que foi derrotada por via das armas, substituindo-se a democracia pela ditadura. Depois, em 1975, com a morte de Franco, um Conselho de Regência assumiu, transitoriamente, a chefia do Estado, entronizando a seguir o rei Juan Carlos. Isto sem que o povo espanhol tivesse sido ouvido sobre fosse o que fosse, porque todo este processo decorre dentro da Ditadura. O rei, aliás, manteve em funções o governo franquista. Só mais tarde se iniciou a transição para a democracia, mas sem colocar em causa a natureza monárquica do regime, imposto pela Ditadura, é bom que se diga. Recordo, por exemplo, que o Partido Comunista só pôde ser legalizado depois de se comprometer a aceitar a monarquia. Não nego o papel do rei na construção da democracia espanhola, que soube perceber para que lado girava o Mundo naquela altura, mas também percebo a dificuldade que há em Espanha em relançar a discussão sobre a natureza do regime, por força das feridas ainda não cicatrizadas da Guerra Civil. Mas, ao contrário do que se pode ser levado a crer por aquilo que escreve,não me consta que tivesse sido dada aos espanhóis a oportunidade de referendarem democraticamente a monarquia.

Quanto à minha suposta parcialidade, nada a acrescentar. Se teima em fazer que não percebe o que me parece evidente, não há problema. Sei que entende bem o meu ponto de vista, porque, aliás, não é assim tão diferente do seu. Se, no final de contas, se assume que os actos e posições do tal Movimento 1128 não passam de traquinadas, estamos entendidos.