17 de outubro de 2009

Jerónimo de Almeida, republicano

Jerónimo de Almeida, numa caricatura de José de Meyra de 1905. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

De Jerónimo de Almeida, poeta vimaranense, defensor da causa republicana, aqui fica um texto publicado na Alvorada, no início de 1911:


Propaganda rural

Vai iniciar-se uma série de conferências, para propaganda rural do novo regime republicano, pelas diversas povoações e subúrbios do nosso concelho.

Elas traduzirão um alto interesse para a consolidação da vasta obra da República, e, sem ela, dizer se que estamos numa nação de cidadãos republicanos – é um erro, pois que a verdadeira doutrina republicana não penetrou ainda na consciência das multidões da província. Longe, muito longe estamos ainda de que isso represente uma verdade consumada.

A República preparou-se e educou unicamente a população da capital e das grandes cidades, especializando o sul do país. Para o norte, e, sobretudo, na massa popular, ela consistia numa utopia, quando se não urdisse à volta da sua palavra uma ideia de revolução e anarquia. É um facto comezinho, que quando a uma criatura rústica se falasse em República, ela se aterrorizava julgando que República – era andar tudo sem rei vem roca.

Este era o juízo nítido que essa gente néscia formulava do regime democrata.

Realizou-se o seu advento, e, como fosse imprevisto, não houve tempo para antecipados terrores. Mas não se julgue que essa grande massa se desiludiu da falsa conjectura que formava das novas instituições, mas que ela vive inquietamente à espera de alguma coisa má que está para acontecer... – consequência inevitável da República se ter implantado. Se se cala não é confiante nos seus desígnios, esperançada na sua legislação, crente de que o governo lhe há-de reivindicar os lídimos direitos e liberdades: – cala-se porque teme que a levem para as goles, e crê aproximar-se o dia em que lhe lançarão pesados tributos, para a tornarem mais escrava ainda que nos tempos da monarquia!

Será isto para muitos a República ainda hoje, porque nós não desconhecemos a escura ignorância do nosso povo, cujo espírito atravessa uma constante noite cerrada. Levemos-lhe luz. Façamos dele não uma plebe ignara e inconsciente, com uma vida instintiva, – mas um povo de verdadeiros cidadãos e sinceros patriotas.

Ensinemos-lhe que a República é um regime de democracia e justiça, ao lado do qual devemos unir os nossos esforços, comungando nos mesmos ideais, defendendo nobres aspirações, lutando pelo progresso – livres de preconceitos e de feudalismos, – e fazendo com que esta pátria, durante séculos ludibriada pela tirania dos reis e dos governos, seja uma pátria gloriosa e feliz, em que as leis sejam as mesmas para os ricos e para os pobres.

Jerónimo de Almeida.

in Alvorada, n.º 7, 1.º ano, Guimarães, 7 de Janeiro de 1911

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