20 de outubro de 2009

Cónego José Maria Gomes, republicano

O Cónego José Meria Gomes, numa caricatura de José de Meyra de 1905. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Quando a República ainda dava os primeiros passos em Portugal, o Cónego José Maria Gomes escreveu ao jovem Administrador do Concelho de Guimarães, Eduardo de Almeida, uma carta em que dava conta da sua adesão à causa republicana, mais tarde publicada no jornal Alvorada:


Meu exm.º am.º

Após umas enormes férias (não falando em feriados) que oxalá o novo regime reduza, como já reduziu as galas, entro hoje em exercício de funções professorais, no Liceu desta cidade. Apraz-me vir declarar neste momento a v.ª ex.ª digníssima autoridade administrativa local, – que adiro franca e lealmente à República que a evolução nos trouxe no rápido carril dos desmandos e descrédito do regime extinto.

Adiro não com o simples acatamento da impotência, não com a mera obediência passiva, mas com a rasgada afirmação da minha simpatia e da firme crença, em que estou de que, com o advento da República, raiaram para a nossa Pátria melhores tempos. Do que tenho pena é se, quase a cinquentar, não logro ver toda essa pujante florescência que antevejo a nova seiva fará brotar da grande árvore secular, tão depauperada!

Adiro, sim, à República e creio que, sob o seu regime, o velho Portugal pode renascer para a realeza das máximas prosperidades e todos podem, se o quiserem, ascender até às culminâncias da santidade cristã.

Adiro e pergunto: "Porque hão-de apavorar-se os padres com a República?" Eu penso que só terão que recear dela aqueles de quem ela tiver que recear também.

Oxalá que eles saibam, salvaguardando crenças, não excrescências, receber sem esgares doentios a Jovem República triunfante e compreender que as hostilidades e intransigências criaram ao clero francês uma situação de desfavor e revindicta que pudera ter-se atenuado.

Este meu deslizar para a República, meu caro amigo, não é um gesto astucioso de adoração ao sol nascente, não é um passo calculado de maromba política; é o naturalíssimo pendor e suave declive de um homem que sempre buscou elevar-se pelo trabalho, que sempre pugnou por ideais de justiça e honestidade, e que, há mais de 20 anos, tem vivido alheio às agremiações e lutas partidárias.

Adiro, pois, sem encavacar porque, se é certo que nunca estive inscrito nas fileiras republicanas, não o é menos que, desde há muito, pairava nessa atmosfera o meu espírito liberal. Esta adesão, meu caro dr., faço-a agora com tanto mais prazer quanto é nas mãos de v. ex.ª que a deponho, de v. ex.ª, cujas qualidades de inteligência e carácter há muito admiro; e as de prudência, cordura e bondade ainda nos últimos dias se revelaram altíssimas como administrador de Guimarães.

Dizia-me ontem um amigo de alta posição no nosso meio: "Teve Guimarães a boa fortuna de dar-lhe a República para administrador aquele rapaz (perdoe v. ex.ª o aparente desprimor) que é inteligente e delicado e que, sem quebra dos seus princípios nem postergar ordens superiores, tem sabido dulcificar as agruras do momento."

Para findar, saúdo na pessoa de v. ex.ª a República Portuguesa!

Esta carta pode v. ex.ª torná-la pública e até o desejo, mas na sua integra.

Saúde e Fraternidade!

Guimarães, 17 de Outubro de 1910.

De v. ex.ª, amigo, atento e venerador.

Cónego José Maria Gomes.

in Alvorada, n.º 17, 1.º ano, Guimarães, 18 de Março de 1911

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