11 de outubro de 2009

As relíquias de S. Gualter

Fotografia do jornal Público

Por estes dias, é notícia a descoberta das relíquias de S. Gualter. Desses despojos já tínhamos a informação de que, no dia 4 de Agosto de 1577, teriam sido trasladadas para "um sepulcro de pedra dourada, numa capela, levantada em colunas", edificada pela vila de Guimarães. Mais tarde, por volta de 1800, terão passado para uma das capelas da igreja de S. Francisco, onde permaneceram até à década de 1870, altura em que o altar em que estavam foi ocupado pela imagem da Senhora das Dores, esculpida por Soares dos Reis. No início da década de 1880, o Padre António Ferreira Caldas afirma que as relíquias de S. Gualter estavam depositadas sobre a banqueta do altar do Descendimento, na Igreja de S. Francisco. Nessa altura, estariam já tal como foram encontradas agora. Aliás, o local e a forma como estavam guardadas as relíquias de S. Gualter eram há muito conhecidas, como o demonstra o ensaio biográfico "S. Gualter de Guimarães", publicado na Revista de Guimarães, entre 1922 e 1929, por Aloísio Tomás Gonçalves, onde o autor escreveu que:

"É a imagem-relicário, onde se encerram as relíquias de S. Gualter, uma grosseira escultura de madeira, sem arte nem gosto executada, curta, atarracada, deploravelmente pintada. Está vestida de hábito, franciscano quanto à forma, mas de seda preta! A urna que a encerra poisa sobre a banqueta, ficando-lhe sobranceiro o retábulo do Descendimento." (Revista de Guimarães, n.º 35, 1925, pág. 282).

O relicário onde estavam guardados era a imagem de roca que representava o próprio santo, em postura jacente, num dos altares da igreja de S. Francisco de Guimarães. Trata-se de um conjunto de ossos, incluindo a caveira. Não parece que o achado inclua o esqueleto completo de um indivíduo. Visivelmente, alguns dos ossos foram serrados, possivelmente com a intenção de multiplicar as relíquias. O achado é curioso e o recurso às tecnologias de datação hoje disponíveis poderá fornecer-nos muitas informações acerca daquele achado, nomeadamente permitindo saber se aqueles ossos podem ou não ser mesmo de S. Gualter. A confirmar-se essa possibilidade, para a qual a tradição das relíquias aponta, o recurso às técnicas hoje disponíveis, como as utilizadas nas reconstituições faciais forenses, que permitiram a reconstituição do Menino do Lapedo, ou a digitalização em 3D, usada para nos mostrar a face do faraó Tutankamon, poderá permitir a reconstituição do rosto de S. Gualter.

Até que as perícias científicas se aproximem de informações mais seguras acerca do achado, há que usar de alguma prudência. O culto das relíquias (os restos da existência terrena de figuras a quem se presta culto), tão presente na religiosidade dos nossos antepassados, muitas vezes foi objecto de fraudes, de enganos e de furtos. Na Idade Média, as relíquias que operavam milagres eram essenciais para qualquer santuário, que não seria concebível se não possuísse despojos de Santos, da Virgem Maria ou do próprio Jesus Cristo. E, se as não havia, inventavam-se. Como sucedeu no seguinte episódio burlesco, ocorrido em Junho de 1867, tal como o descreveu João Lopes de Faria nas suas preciosas Efemérides Vimaranenses:

"Num dos últimos dias deste mês espalhou-se a notícia de que na ermida da Penha aparecera um cadáver, enterrado há muito tempo, em bom estado de conservação. O povo logo quis ver a relíquia de um santo e alguns afiançavam ter presenciado factos miraculosos; sabia-se que era um frade da Costa e o seu nome. O povo corria em multidões a admirar o prodígio e a untar-se com um fragmento da relíquia. Concorreram os zeladores da ermida, estando muito povo, os padres António Ferreira de Abreu e Domingos Ribeiro Dias, quando chegaram viram exaltados os ânimos por estar fechada a ermida, trataram de convencer o povo, de que os deixassem ir sós à ermida para averiguarem, por a ermida comportar pouca gente, o que conseguiram e trouxeram-lhe uma ossada descarnada dizendo que não havia razão para que a ossada fosse de santo porque tanto podia ser como a de qualquer indivíduos. O povo grita: Maroteira! Tarantada! Esconderam-no e mostram agora uns ossos que trouxeram para isto. Não o despersuadiram ainda, depois de lhe mostrarem todos os escaninhos da ermida e da casa, de que não havia ali um santo." Isto é o relato do jornal "Religião e Pátria", de cuja redacção faziam parte os ditos padres, que historiam a seu bel-prazer. Eles padres e outros zeladores estavam lá e bem sabiam o que haviam feito que era: uma pequena cova aberta à porta da sacristia com uns ossos humanos que o povo dizia queriam atribuir serem de frei Guilherme, iniciador e instalador da ermida, a quem chamavam santo, mas convencido que foi o 1.º dos padres que os trouxe da igreja de S. Francisco. Terminaram esta farsa eclesiástica, vindo o povo em selvajaria a jogar com pontapés os ossos pelo monte abaixo, desrespeitando-os, sendo a caveira achada, pelos anos 1928, pouco abaixo do 1º Passo subindo, debaixo de alguma terra, quando aí abriram covas para arvoredo.

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