8 de janeiro de 2009

Guimarães antiga III

– E quando a sr.ª D. Maria II visitou Guimarães?

Chegou aqui num sábado, 15 de Maio e foi hospedar-se na casa do Cavalinho.

Na quinta e na sexta-feira chegavam de momento a momento, grandes carroças conduzindo toldos, cozinhas, louças, colchões, enfim muita cangalhada pertencente à casa real.

Parece que a sr.ª D. Maria II, julgava que vinha para aqui acampar em algum monte e que não encontraria casa aonde pudesse ser recebida.

As carroças paravam todas à porta do Campos e então diziam aos cocheiros.
– “Levem isso para o paço.”

O paço era na casa do Cavalinho. Todos aqueles campos que a circundavam ficaram coalhados de carros que tinham vindo de Lisboa, do Porto, de Coimbra e de Braga.
Nunca vi tantos carros na minha vida.

– A rainha demorou-se aqui dois dias. Houve iluminações e música e ali junto do “Cruzeiro do fiado” que ficava em frente da casa do Sousa Júnior; levantou-se um rico pavilhão guarnecido a seda azul e branca.
A Senhora D. Maria II quando chegou dirigiu-se para o pavilhão e ali lhe foram entregues as chaves da cidade.

Depois meteu pela Porta da Vila o foi à Oliveira rezar.

O povo era muito e todos desejavam ver de perto a Senhora D. Maria II.

Morava na rua da Rainha um ourives chamado “Zé Frade”, aonde mora agora o Agostinho vidraceiro. Era um grande miguelista.

Eu para fugir aos encontrões do povo entrei para a loja do “Frade”, ele que não tinha deitado cobertores nas janelas e fechara uma das portada loja, apareceu-me lá de dentro com uma espada velha na mão gritando furiosamente voltado para mim: “aqui quem der vivas à Rainha mato-o”.

Eu tive-lhe medo e deitei a correr para a rua.

Em Vizela eslava preparada uma grande festa à Senhora D. Maria II e faziam tenção de lhe pedir para elevar aquela povoação a concelho.
(continua)

António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 16, 1 de Dezembro de 1904

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