11 de janeiro de 2009

Guimarães antiga IV

Não sei porquê, mas ela chegou adiante de Nespereira e em vez de tomar a volta da estrada de Vizela, seguiu para Santo Tirso.

E quando foi da Maria da Fonte? Lembram-se?

– Andavam ali a passear em frente da casa onde hoje está o Bernardino, o capitão do 13, omandante do destacamento que estava aqui o alferes do mesmo e o major reformado Leite.

Ouviram-se uns tirozitos para os lados da Conceição.

O que será aquilo? Perguntou alguém ao capitão. Este tira um óculo do bolso assestou-o e disse: “são uns rapazitos que andam aos grilos…”

Despediu-se logo do major e foi o alferes pelo postigo em direito ao quartel.

Dali a pouco um corneta tocava a reunir à esquina do Campos, e depois à esquina das Molianas, e viam-se passar os soldados a correr uns pelo Postigo, outros pela porta da vila e ainda outros por Mata Diabos.

Decorrida que foi meia hora era o Toural invadido por centenares de homens armados com caçadeiras, chuços, bacamartes, foices roçadoiras, o diabo. Pediram no meio de um grande berreiro que tocassem a fogo nas torres das igrejas,

Um rapazote dos seus 18 anos, parece que estou a vê-lo, em mangas de camisa, calça arregaçada e em cabelo; dirigiu-se a loja do Baptista, e pede que lhe dêem pólvora e chumbo. Se lho dessem, que faria fogo com o bacamarte de boca do sino que trazia e que apontava contra o Baptista.

Deram-lhe pólvora e chumbo.

Dali foi ao chapeleiro a intimou-o a ir tocar a fogo à torro de S. Pedro.

O chapeleiro obedeceu.

O sino era enorme e o som ouvia-se a grande distância, juntou-se mais povo e lá foi tudo em direcção ao quartel.

Chegaram ali e encontraram a porta fechada, o capitão tinha dentro a companhia formada.

De repente abriu-se a porta.

A multidão grita fazendo grande algazarra.

Sai do quartel a companhia que forma em linha rapidamente cruzando as baionetas, o povo não cessa de gritar. O capitão manda dar uma descarga para o ar... e tudo fugiu.
Não morreu ninguém naquela ocasião. Depois não sei o que sucedeu.

* * *

Eram horas do meu jantar. Saí da farmácia Barbosa depois de me haver despedido dos alegres velhotes dizendo-lhes: agora vou jantar e depois voltarei para continuar a ouvi-los.

Creiam que não há nada que me entretenha, como ouvir a conversa interessantíssima dos velhotes. Gosto mais do que ouvir falar das vidas alheias.

Na farmácia Barbosa haverá de tudo como na botica, mas não há más línguas.

Guimarães, 5-11-904
António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 17, 7 de Dezembro de 1904
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