4 de agosto de 2008

Da informação e da falta que ela faz

Sir Bob Scott

Recentemente, foi lançada a partir do Minho uma petição originada na constatação do desequilíbrio de tratamento informativo dado pela RTP aos três clubes “grandes” em comparação com os outros. O assunto era o futebol, claro. Fosse ele outro, e as razões de queixa poderiam ser bem mais agudas. Estando fora de Guimarães há algum tempo, tenho-me deparado com dificuldades para aceder à informação acerca do que se vai passando na nossa cidade (com excepção do futebol local, que sempre vai tendo algum espaço nas televisões, nas rádios e nos jornais nacionais). Nada de novo, aliás: há muito tempo que é assim.

Poder-se-á sempre alegar, em defesa das opções editoriais da nossa comunicação social, a relação entre a dimensão local/nacional e o interesse (do) público. Um clube com maior dimensão, mais adeptos e mais distribuídos pelo todo do território nacional poderá justificar uma maior cobertura informativa do que a concedida a clubes de menor dimensão e com menos peso nacional. Parte-se do princípio de que aquilo que sucede, por exemplo, ao Benfica, tem interesse nacional, enquanto que o que acontece com clubes com a dimensão e a implantação do Vitória, por exemplo, terá um interesse mais local/regional. Argumentos desta natureza, sendo discutíveis, são sustentáveis. O problema é que a vida não se reduz ao futebol, havendo assuntos bem mais relevantes que não passam nos grandes órgãos de comunicação social nacionais (televisões, rádios, jornais). Um mesmo acontecimento, pode receber manifestas e incompreensíveis diferenças de tratamento caso ocorra Lisboa, no Porto ou em outro qualquer lugar do país.

Veja-se a cobertura que está a ser dada ao processo da Capital Europeia da Cultura de 2012 que ninguém duvidará que terá uma grandeza muito para além da dimensão local: será um acontecimento de repercussão europeia. Logo, seria natural que os focos informativos estivessem a incidir sobre Guimarães, a cidade portuguesa escolhida para acolher aquele evento. Infelizmente, tal não sucede, como se pode perceber pela cobertura que foi dada à recente visita de Robert Scott à nossa cidade.

Bob Scott não é um ilustre desconhecido: é o presidente do painel de selecção que examina as candidaturas de Guimarães e Maribor, da Eslovénia, a CEC2012. Liderou a candidatura de Liverpool a CEC2008, é um reconhecido e respeitado especialista em questões culturais, em especial no domínio do teatro, sendo actualmente o embaixador internacional da Liverpool Culture Company, a organização que está por trás do programa de Liverpool 2008. Esteve em Guimarães num momento em que as informações sobre os preparativos para 2012 são escassas, o que, a meu ver, deveria justificar uma cobertura noticiosa à altura da dimensão do acontecimento. Puro engano.

Para além de boa cobertura na comunicação social local e regional, a visita de Bob Scott à futura Capital Europeia da Cultura de 2012, com o propósito de tomar o pulso à cidade e aos projectos que estão na calha, teve escassíssima repercussão na informação nacional. Nas televisões e nas rádios, pura e simplesmente não existiu. Na internet, a divulgação foi maior: a notícia da conferência de imprensa final foi dada, pelo menos, nas versões online do Jornal de Notícias, do Público, do Expresso, do Sol e do Diário Digital. Em todos os casos, as peças jornalísticas foram exactamente iguais, uma vez que reproduziam, na íntegra e sem qualquer trabalho editorial, a informação da Agência Lusa. Na imprensa nacional, teve direito a um texto de menos de quatrocentas palavras no jornal Público, inserto na secção Local (Porto) que, como todos sabemos, apenas tem uma distribuição regional. Ou seja, a visita de um alto responsável da União Europeia, para tratar de assuntos relacionados com a futura Capital Europeia da Cultura, não mereceu mais destaque do que a arrumação num recanto da secção local de um jornal nacional de referência. E, nos outros, nem sequer isso.

Não fosse o assunto cultura, mas futebol; não fosse ele Robert Scott, mas, por exemplo, uma VIP do género de Carolina Salgado; não tivesse vindo a Guimarães, mas a Lisboa, e não tenho dúvidas de que teria direito a muito mais atenção, relevo e espaço.

Porque vivemos num país onde se discute a oportunidade de uma comunicação ao país do Presidente da República, mas não se estranha uma abertura dos noticiários em horário nobre com uma xaropada inenarrável e interminável em forma de conferência de imprensa protagonizada pelo Presidente da Federação Portuguesa de Futebol; um país onde uma cidade com a dimensão de Guimarães só pode aspirar a realce nas notícias da TV se houver um ou dois casos de alergia à bicha do pinheiro numa escola de Moreira de Cónegos, ou a destaque nos jornais nacionais se houver para contar histórias de faca e alguidar (de faca e alguidar de natureza política, no caso de um jornal como o Público), ainda temos pela frente muito trabalho para derrubar a muralha de silêncio informativo que teima em isolar o país do seu umbigo, que é Lisboa.

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4 comentários:

Anónimo disse...

Caro:

Percebo a frustração que pode gerar nas pessoas a falta que aponta neste texto, mas é necessário (já não digo compreender, mas tentar pelo menos) perceber as lógicas do jornalismo e juntar-lhe as especificidades do jornalismo indígena.

Ninguém pode pretender ler no jornal do dia seguinte que o "sir" Bob, seja ele quem for, veio a Guimarães reunir e, pelo meio, passear, fazer uma visita guiada. Isso é uma não-notícia nesta era em que o espaço no papel de jornal é mais caro que nunca. Isso seria notícia em 1641, ano em que nasceu o primeiro jornal português, no qual o espaço era tão barato que o título do periódico era "Gazeta, em que se relatam as novas todas, que houve nesta corte, e que vieram de várias partes no mês de novembro de 1641". Giro, não é? Eu também acho, sobretudo aquela notícia de primeira página que a referida gazeta publicou dizendo que suas majestades estavam a passar bem.

Se a conferência de "Sir" Bob não teve ou tem mais espaço num jornal, creio que foi (ou é) porque não há mais nada para dizer. Aliás, se reparar bem, "nada para dizer" tem sido a política oficial de comunicação dessa comissão organizadora da CEC 2012. Se o jornalismo hodierno fosse uma actividade 100 por cento saudável, a vontade de guardar segredo do lado do poder espoletaria na tribo jornalística a vontade de revelar o segredo. Mesmo que, depois do segredo revelado, o poder promovesse modernas corridas de caça à bruxa para tentar identificar a fonte (e as reuniões das comissões políticas do PS sabem do que é que eu estou a falar...).

Infelizmente, não é assim. O jornalismo não é saudável, e nisso tem toda a razão. O que se passa fora dos centrões Lisboa e Porto não existe. Mas para isso é que é preciso ter uma política de comunicação eficaz.

Resumindo: há quem contribua para a muralha de silêncio ao negar-se a abrir a porta e quem contribua ignorando (propositadamente?) que também há janelas.

Saudações, Victor Ferreira

aan disse...

Meu caro,

Percebo bem o que diz.

Apesar de se ter centrado na visita de Robert Scott, a razão de ser daquilo que aqui escrevi tem a ver fundamentalmente com algo bem simples: estou fora de Guimarães e, não fosse a net e o telemóvel, teria muita dificuldade em saber o que por lá se passa.

Tenho para mim que a visita a Guimarães daquele senhor apenas foi uma não-notícia porque os jornalistas, os que “fazem” as notícias, decidiram que assim seria. Acompanhei de perto parte da estadia do homem em Guimarães e percebi que, bem “espremido” na conferência de imprensa, poderia dar uns títulos magníficos, até para se compreender, no que vai bem e no que vai mal, o actual estado de coisas do processo de nomeação das CEC2012. Continuo convicto de que o tratamento jornalístico seria bem diferente, fosse outra cidade em questão (Lisboa ou Porto).

Ambos sabemos que dois acontecimentos com a mesma natureza e igual dimensão têm tratamento informativo diferente conforme o lugar onde ocorram. Aí, o que faz a diferença não é a relevância do acontecido, mas o critério do jornalista (mais propriamente, do jornalista que na redacção decide o que é notícia e o que não é). Ou seja, numa terra com a dimensão de Guimarães, muito dificilmente acontecerá algo que escape à simples dimensão local. Em contrapartida, um espirro de uma mula alfacinha pode ter importância nacional.

Julgo que perceberá que não me apetece, até por falta de inclinação para tal, fazer o discurso da lamúria bairrista. Mas que há aqui algo que me irrita, não o posso negar. E não tem só a ver com jornalismo (antes tivesse). Tem a ver com este centralismo que teima em olhar para o país assim como quem põe os olhos numa paisagem remota.

Pois é. Só lhe posso dar razão: o problema da informação ou da falta dela também tem muito a ver com o modo como do lado de cá se lida com a comunicação. Aí, ainda há um longo caminho a percorrer. E o tempo não corre do nosso lado.

aan disse...

PS1: Em 1641 o papel era muito mais caro (e de melhor qualidade, também) do que nos dias de hoje. A principal diferença estava no fluir do tempo, muito menos acelerado do que agora. Uma notícia com um mês estava no pico da actualidade. Em 1641, dizer que suas majestades estavam a passar bem, seria uma notícia do maior interesse para o país, que acabava de recuperar a independência, porque João IV, caso passasse mal o suficiente para se ir desta para melhor, não tendo ainda herdeiro em condições de lhe suceder, colocaria a independência de Portugal em situação periclitante. Outros tempos, certamente. Estou em crer que, no que toca a notícias, a cultura da irrelevância, de que anda a falar o Pacheco Pereira, é muito mais insidiosa nos dias de hoje do que em meados do XVII.

PS2: As histórias de caça às bruxas costumam ser de muito proveito e exemplo. Não raro, acabam por se virar contra os caçadores.

ZeVitor disse...

Concordo plenamente com o seu artigo e penso que um cidadão mais atento que resida fora dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto já deve ter reparado em todas as situações aqui referidas. Mas levanto uma questão que me parece pertinente. Quuando se fala do perço do papel do jornal e por inerencia vem o preço de 1 minunto na TV, concordo com o ponto de vista economicista das empresas que gerem os referidos serviços de comunicação social. E aqui se levanta algumas questões: nós não temos orgãos de serviço publico? Não deveria estar isto ao cabo do serviço publico de TV e rádio? Um acontecimento que irá pôr o nome de Portugal e de Guimarães nas bocas da Europa não será do interresse de todos?
Para que servem as delegações locais dos meios de comunicação social se não para estar mais proximo dos acontecimentos que estão espalhados pelo país?
É uma pena que ainda se pense assim e a pequenez de um país mede-se nestes pequenos pormenores!