20 de junho de 2008

Uns versos num papel


Estando a arrumar os papéis, terminados os trabalhos de preparação da exposição O Tempo Tão Suspirado, encontrei entre as páginas de um livro, uns gatafunhos curiosos, que, depois de decifrados, remetem para uma velha tradição muito nossa, a da poesia repentista. Não nos faltam exemplos de produções poéticas deste género, na sua maioria saídas das camadas populares e pouco letradas (o que está muito longe de ser é o mesmo que dizer "pouco cultas"). Mas também os encontramos entre gente erudita que, por puro divertimento, dá largas à admirável arte do improviso, oscilando do registo lírico à verrina estreme. Entre nós o mais destacado cultor deste género foi, sem dúvida, o grande João de Meira.

O anónimo autor dos versos que encontrei naquela folha solta filia-se na mesma linha:

O que ontem te falei vai em anexo
E desta forma cumpro o prometido,
Aproveito e junto-lhe um amplexo
Com o que fica o embrulho mais florido.

Aí tens o Rei, o tal do Reino Unido,
O Tarrafal e o Pomar da tela,
E se jorra um copo que possa ser enchido
Ia até uma ginjinha, e havia d'ir "com ela".

Ficas, pois, a seco no que toca à encomenda
E o que t'aprouver lhe juntarás a gosto
Que diferente é a ceia da merenda,
Como o Sol, que ao nascer não é como ele posto.

Posta a coisa assim nestes trejeitos
Explicada fica a magreza do presigo
Mas é com carinho e com os meus respeitos
Que é assim que se trata um Amigo.

Não sei que prenda embrulhava tal papel. Mas sei que ditoso deve ser quem tem amigos assim.
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