9 de abril de 2008

A Fonte de D. João

Fotografia de Eduardo Brito (pormenor)

Quando passámos por coisas que sempre nos habituámos a olhar, sabemos que as conhecemos, sem necessidade de as questionar. Basta olhar um pouco mais de perto: não raras vezes nos surpreendemos quando do olhar fazemos ver. As pedras, no seu silêncio, guardam, por vezes, segredos que o tempo já engoliu. São assim as pedras de Guimarães: um infinito manancial de memórias, umas já contadas, outras ainda por contar. Pedras há por aí que nos falam da história de Guimarães, de Portugal e mesmo do Império que este país construiu com a aventura das descobertas. Um bom exemplo desta ideia podemos encontrá-lo no Largo da Misericórdia, naquela fonte discreta que se encosta ao muro da antiga casa nobre dos Coutos, hoje Tribunal da Relação. Por baixo das armas nacionais, elas próprias com a sua originalidade, pode-se ler uma inscrição, à primeira vista, enigmática:

Ioão Primeiro Rei do Reino Unido

Menistro aqvi fes por a Estevão Ivsto,

o qval com esta Fonte Magestoza

Ornov a Patria do Primeiro Avgvsto

Anno de 1820

Como todas a fontes de Guimarães, a do Campo da Misericórdia foi criada com um propósito simples: levar a água potável onde ela escasseava, num tempo em que ainda não existia um sistema público de abastecimento doméstico. O Campo, ou Terreiro, da Misericórdia foi rasgado em meados do século XVII, à custa da demolição das velhas casas que então se erguiam no miolo edificado entre o lado nascente da rua da Ferraria (ou Ferreira) e a frente poente da rua das Flores, abrindo um espaço amplo, de planta rectangular, com a Misericórdia no topo voltado a sul e a casa de torre dos Carvalhos no lado do Norte.

Havia muito tempo que os moradores daquela zona requeriam à Câmara que lhes providenciasse um acesso condigno à água, quando, no dia 18 de Julho de 1818, o Senado Municipal registou na sua acta que “vista a utilidade que resulta ao bem comum desta vila, do estabelecimento de um novo tanque no Terreiro de nossa Senhora da Misericórdia, que há anos por isso se tem requerido a este Senado pela nobreza e povo dela, que o mesmo tanque se constituísse sem prejuízo de quaisquer outros tanques já feitos”.

A obra seria financiada com recurso a uma subscrição pública, de cuja organização ficou encarregue o bacharel António Ribeiro da Cunha. O trabalho de pedraria foi adjudicado a Bártolo Fontão, mestre-pedreiro de S. Cristóvão de Selho, que seguiu o risco que recebeu do Senado. O tanque seria alimentado com água do manancial da Penha. Para evitar a redução do caudal dos pontos de água que já recebiam água da mesma origem, foi mandada explorar uma nova mina na serra. Em Março de 1819, teve lugar uma segunda adjudicação de obra, relacionada com a empreitada de encanamento e condução da água desde a Praça da Oliveira até ao novo tanque. A canalização, que atravessou a rua dos Mercadores, seria instalada com recurso ao reaproveitamento de pedra do Castelo.

O que de mais interessante guarda aquela fonte esconde-se na inscrição acima transcrita e nas armas que a encimam. Ali se fala num “João Primeiro rei do Reino Unido” e no “primeiro augusto”. Quanto a este último, nenhuma dúvida pode existir: trata-se de Afonso Henriques, que teve Guimarães como primeira pátria. Já o rei do Reino Unido, João I, é D. João VI, que tem o seu nome ligado à história de Guimarães desde o ano de 1808, num tempo em que Portugal se encontrava sob domínio do invasor francês, com Junot rei e senhor em Lisboa.

No dia 7 de Junho daquele 1808, ao nascer do sol, com a bandeira real hasteada, entre foguetes, salvas de tiros e o repicar dos sinos, foi aclamado, no Castelo de S. João da Foz do Douro, no Porto, o príncipe regente, D. João. Aquele foi um acto de resistência e rebelião contra o domínio francês, de cuja repressão se encarregaria o cruel e sanguinário Louis Henri Loison, o célebre Maneta, cuja fama lhe reservaria lugar no vocabulário popular, por estar na origem da expressão “ir para o maneta”. Os franceses enviaram agentes para as comarcas do Norte, com o objectivo de recrutarem soldados para o Exército Imperial Francês, tendo em vista organizar a resposta aos que se levantavam contra o seu jugo.

Naquele ano, o 16 de Julho era dia de festa em Guimarães, com a celebração do Corpo de Deus. Nesse dia, alguns vimaranenses fizeram a sua primeira demonstração patriótica, tendo aparecido, segundo um relato que nos deixou o dominicano Frei António Pacheco, “muitas pessoas de elevada categoria com o laço da Nação Portuguesa no chapéu, festejando publicamente o Augusto nome de Sua Alteza Real, o nosso Príncipe”. A proclamação do Príncipe Regente, o futuro D. João VI, teria lugar às cinco da tarde do dia 18, entre vivas e repiques dos sinos da vila e das freguesias do seu termo.

Na manhã do dia seguinte, 19, as ruas de Guimarães seriam percorridas por uma procissão, que foi acompanhada por uma chuva de pétalas de flores, lançadas das janelas. Frei António Pacheco, que também lá estava, descreveria mais tarde aquela procissão de exaltação patriótica:

“Naus triunfantes puxadas por eclesiásticos e estudantes, em duas alas, vestidos de tritões, de golfinhos, de sereias e de vários peixes, cantando a música e instrumentos as canções mais festivas e análogas com letra e solfa, toda própria de tal objecto e de tais marítimos, tal e qual se pode isto fingir, indo adiante o Deus Neptuno com seu tridente todo alegre e risonho, vestido de gala, com um grande manto azul riquíssimo, rodeado de um cardume de peixes todos alegres. Nunca se viu procissão tão nobre e festiva, correndo todas as praças e ruas da vila, que estavam iluminadas com primor, indo em diversos lugares acompanhando outros concertos de música e infinito povo até de madrugada.”

As naus desta procissão pretendiam simbolizar o regresso próximo, do outro lado do mar, de D. João e da Família Real.

Ir-se-iam os franceses, ficariam os ingleses em seu lugar, sem que o Príncipe regressasse a Portugal, mesmo após a derrota definitiva de Napoleão e o Congresso de Viena, que, em 1815, procurou restabelecer a velha ordem na Europa, determinando a restauração das antigas monarquias europeias depostas por Napoleão.

Fotografia de Eduardo Brito (pormenor)

Em Março de 1816, após a morte de sua Mãe, a rainha D. Maria I, o príncipe regente foi proclamado como D. João VI, rei do Reino Unido de Portugal Brasil e Algarves, a nova denominação do reino que havia sido adoptada a partir do dia 16 de Dezembro de 1815, quando se elevou o Brasil à nova condição de reino. Menos de dois meses após a aclamação, D. João assinou uma carta régia através da qual alterava as armas nacionais, ajustando-as à nova denominação oficial dos seus domínios, com a introdução da esfera armilar de D. Manuel I, que, desde sempre, havia sido utilizada como símbolo do Brasil colonial. As armas nacionais ficaram assentes sobre uma esfera armilar em ouro, forrada a azul, com a coroa real sobreposta (abandonada n sequência da independência do Brasil, a esfera armilar regressaria às armas nacionais após a implantação da República em Portugal).

O Reino Unido teria uma duração efémera. No dia 24 de Agosto desse mesmo ano de 1820 que está gravado na inscrição da fonte do Campo da Misericórdia, estalava no Porto a Revolução Liberal que iria forçar o regresso a Portugal de D. João VI, efémero D. João I do Reino Unido de Portugal Brasil e Algarves, que assim se extinguia.

A inscrição comemorativa e as armas reais do Reino Unido, lavradas em granito, que a encimam, perpetuam, na fonte do Campo da Misericórdia de Guimarães, a memória de um tempo histórico singular, em que Portugal mudou de nome.

Entretanto, a fonte foi dando água ao Terreiro da Misericórdia. Em 1905 foi amputada, com a desmontagem do tanque. Desde então, a água das suas bicas passou a jorrar para duas pequenas taças de pedra.

[Texto publicado na revista Líquida, publição da Vimágua, E.I.M., SA, Abril de 2008]

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