7 de fevereiro de 2008

As 24 horas (2)

Nas suas memórias, o Coronel António de Quadros Flores, recorda o dia em que o relógio da torre da Oliveira deu mais de 800 horas seguidas, no tempo em que, em vez de 12, duas vezes, se começaram a contar as 24.


Vou encaixar esta crónica no meio da série que ia levando para aproveitar uma oportunidade e também não falhar a menção de um acontecimento do qual já poucos se lembrarão, e poderia esquecer-me.

A oportunidade é a do aparecimento do relógio de S. Pedro com novo aspecto, remoçado por “cirurgia plástica”, como agora se pratica nas faces humanas, e apresentável e compreensível mesmo para o mais bronco analfabeto, faltando-lhe apenas a modificação dos quartos de hora que, sendo muito bairristas, são intraduzíveis para estranhos.

O que poderia esquecer foi o que sucedeu ao relógio da Oliveira há coisa de uns quarenta e tal anos na gerência da primeira vereação republicana, a do sr. Teixeira de Abreu, se não estou enganado.

Por altura de 1911 houve uma convenção internacional para a adopção da hora mundial, de modo que toda a contagem do tempo se referisse ao mesmo meridiano e as horas mencionadas desde Zero a 24, isto para uso oficial.

Portugal aderiu a essa convenção, meteu-se no “fuso” de 15 graus que lhe competia em relação ao de Greenwich, que era o Zero de origem da contagem, adiantou os relógios uns 30 minutos sobre a hora solar, e decretou o novo horário.

Foi uma confusão dos diabos e durante um certo período ninguém se entendia com a “hora nova”; as 14 horas eram as 4; às 7 da tarde, chamavam 17, dando em resultado algumas perdas de comboios ou chegarem à estação do C. F. com duas horas de avanço, só por não reflectirem em que tinham de acrescentar ou diminuir 12 horas às da tarde, e isto para o caminho de ferro, que então era o único meio de transporte acelerado e com horário já organizado pela nova designação.

Os relojoeiros apressaram-se a actualizar os mostradores dos relógios inscrevendo numa circunferência interior à das horas habituais as de 13 a 24, com números a vermelho; até aparecerem com os 24 seguidos, o que demandava novo maquinismo.

Ainda há-de haver quem possua desses relógios que dispensavam aborrecidos cálculos de – 21 menos 12 dá 9 da noite, ou 14 menos 12 dá 2 da tarde – enfim, uma barafunda que, nestes tempos cronometrados, sujeitos a horários cumpridos quase rigorosamente, dariam origem a tantas trapalhadas, que seria necessário um período de preparação, que agora se adopta para as inovações, e que naquele tempo, ou não se pôs em prática, ou o foi por espaço reduzido.

A verdade é que no trato comum e familiar continua a dizer-se – 4 da tarde e 9 da noite – e só oficialmente é que mencionam as “horas novas”, que toda a gente interpreta correctamente, depois de quarenta e tantos anos de exercício.

Ora a Câmara de Guimarães desejando ser útil aos seus concidadãos neste arreliento problema resolveu pôr o relógio da Oliveira, que era então o oficial, a dar as horas pela nova contagem e chamou um relojoeiro para modificar os maquinismos de modo a dar até 24 horas.

Foi um sucesso, principalmente na noite da inauguração e nas que se seguiram durante um certo período, em que havia quem esperasse pelas horas adiantadas da noite para contar 22, 23 e 24 badaladas.

Mas chegou-se à conclusão de que era muito mais maçador, no meio da noite, estar a contar além das 12 badaladas para se saber que hora era das que habitualmente se designavam.

A intenção era boa, mas a verdade é que a contagem anterior era mais simples, principalmente depois do pôr-do-sol.

Além de que o maquinismo de vez em quando se desarranjava e para isso havia o “Doutrinas”, relojoeiro, com oficina no Largo da Oliveira, que acudia prontamente para o pôr no seu lugar.

E sucedeu certa noite de verão que as molas do relógio não o travaram na altura precisa e o sino do relógio desatou a badalar, talvez pelas 22, a badalar além da marca, tanto que chamou a atenção da gente das redondezas que acudiu ao Largo da Oliveira, e o nosso grupo, cujo Quartel General era na loja do Barbosa, da rua da Rainha, também compareceu para presenciar o espectáculo.

A garotada das cercanias, do Campo da Feira, da Feira do Pão, de Santa Luzia, correu alvoroçada a juntar-se ao alarido da contagem em coro das horas que iam caindo da torre, já no número das centenas – quatrocentas... quinhentas... – tudo acompanhado de berros pelo relojoeiro – ò Doutrinas, ò Doutrinas!

O desgraçado do Doutrinas, que tinha a chave do relógio, tinha ido por azar dar um passeio, talvez para a Fonte Santa, e só chegou esbaforido quando a contagem, entre gritaria e gargalhadas, ia talvez nas oitocentas e tal badaladas, e foi recebido com uma verdadeira ovação, e correu à torre para pôr fim àquele gasto de tempo.

Assim, o Doutrinas nos fez passar, aos daquele tempo, essas 800 horas, que são 33 dias e tal, no espaço de uma, tempo que vivemos sem canseiras nem transtornos e na melhor disposição.

Mas esse acontecimento não ficou por aí e a Academia resolveu solenizá-lo.

Convidou então um grupo de “sábios russos” que viessem estudar o fenómeno, e foi esperá-lo à estação do C. F. com uma deputação de estudantes e a restante Academia, que lhes fizeram uma calorosa recepção, e num brilhante cortejo a pé, que os automóveis ainda eram raros, atravessou a cidade a caminho do Largo da Oliveira.

Ali montou um óculo de marinha, num tripé, dirigido para o relógio e, depois de várias observações, o Director da Missão, o “sábio dr. Doutrinoff”, que era o Aprígio Neves de Castro, proferiu um discurso tendo como tema o resultado dos “estudos” efectuados, elogiando o seu “colega” de Guimarães – o Doutrinas – pela perfeição dos maquinismos.

Não estava em Guimarães quando se realizou este memorável “Congresso Científico”, no tempo em que havia ainda espírito e graça, e cito-o por mo terem contado, mencionando-me como “sábios” componentes da Missão, além do Aprígio e outros, o Joaquim Novais Teixeira, dr. Mário Dias P, de Castro e o dr. Ferreira da Cunha, rapazes de então, e que certamente acolherão com um melancólico sorriso esta despretensiosa crónica.

[in Coronel António de Quadros Flores, Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XI, págs. 92-94]

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