23 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 10

...continuado daqui


Concluindo a sua primeira revista das publicações bracarenses, a propósito dos incidentes de 28 de Novembro de 1885, Francisco Martins Sarmento dá-nos a sua versão dos acontecimentos.


A verdade. — Os factos que vamos expor, desafiamos a quem quer que seja que os desminta com provas. Pelo que respeita aos actos do snr. presidente da junta, do snr. Vasco Avelar, do snr. Cunha Reis, etc, o desmentido só valerá, quando venha acompanhado da declaração daqueles cavalheiros, afirmando que não disseram as palavras, que não praticaram os actos que lhes atribuirmos. Pelo contrário, o seu silêncio, depois da publicação desta folha, que lhes será enviada, ficará tido como a confirmação das nossas asserções.

Dito isto, entremos na curiosa história, olhando-a pelos aspectos, que importa pôr em relevo, para mostrar ou a ignorância ou a má fé dos periódicos bracarenses.

Em primeiro lugar, é bem sabido pelo diz tu, direi eu das folhas daquela cidade, que não faltava em Braga quem hostilizasse a questão do liceu. Para os guelfos o melhoramento podia ser uma coisa muito vantajosa, mas vinha da mão dos gibelinos? deita abaixo. Não temos nada com estas discórdias intestinas, nem aludiríamos a elas, se não fosse conveniente ao nosso propósito estabelecer que a louvável efervescência, em que entrou a indignação dos bragueses a propósito das cadeiras novas do liceu, teve causas primarias muito outras, que as descobertas à ultima hora pelos periódicos da terra, que se uniram contra “o inimigo comum”, mas que não tardaremos a ver bulhar com o seu habitual encarniçamento, sendo de esperar que nos dêem curiosas revelações. Dêmos de barato que os três procuradores de Guimarães votavam sem reservas – o que é falso – contra a dotação das novas cadeiras. Estavam perfeitamente no seu direito. Mas queriam eles fazer algum obstrucionismo? Se não consta das actas das sessões (viu-se no dia 28 serem lavradas com um escrúpulo pouco louvável), devia constar, a declaração seguinte: – que os procuradores de Guimarães, acusados como inimigos de Braga na questão do liceu, não viriam à sessão, em que tal questão se agitasse.

É o primeiro ponto que precisa ser desmentido. Venha o desmentido.

O presidente da junta tratou de organizar uma sessão sem eles e não o pôde conseguir por falta de número; então escreveu-lhes, pedindo instantemente que comparecessem na sessão do dia 28, porque sem isso a junta continuaria a não poder funcionar.

Segundo ponto que precisa de desmentido. Venha ele.

Viu-se que as apreensões do presidente da Junta eram bem entendidas. Se os procuradores de Guimarães não comparecessem na sessão do dia 28, a sessão não se abriria ainda desta vez por falta de número.

É pois claro como o Sol que, se os procuradores vimaranenses quisessem fazer obstrucionismo, o excelente meio de o fazer, e sem incómodo algum, era deixarem-se ficar em suas casas. No entanto foram e com a certeza de que a maioria da sessão seria a favor da dotação das cadeiras.

Em vista disto, entra pelos olhos de toda a gente que não podia haver da parte dos nossos procuradores guerra mais franca e mais leal, e que os bracarenses nunca podiam acusá-los de embaraçar acintosamente o andamento da questão do liceu. Fazer-lhes tal acusação no dia, em que comparecem na junta, única e exclusivamente para que ela não deixe de funcionar por falta de número, é extraordinário.

Mas o que não é extraordinário nesta história do dia 28?

A primeira notícia, e já extraordinária, que receberam os vimaranenses depois de entrar no governo civil, é que se rosnava em querer apedrejá-los.

Pelos modos, era já roto e esfarrapado em Braga tudo o que depois se disse e redisse em letra redonda, mas que os procuradores de Guimarães não podiam adivinhar, a saber: que o governador civil, querendo dar rédea solta ao ódio que nutria contra o snr. conde de Margaride, e vendo-se servido admiravelmente pelo ódio dos bragueses contra Guimarães, se lhes fosse aliançada toda a liberdade de acção, fecharia à chave a forca pública, e desde esse momento Braga ficaria autorizada pelos delegados do governo a saciar à vontade os seus rancores e ao mesmo tempo os do supremo magistrado do distrito.

Abriu-se a sessão da Junta; leu-se, como de costume, a acta da sessão anterior, e o snr. conde de Margaride observou que a acta mencionava propostas, que não tinham sido apresentadas na sessão transacta. Toda a gente, que sabe que o snr. conde tinha de subscrever a acta, vê logo que a sua observação não é só justa, era indispensável. Ninguém vai legalizar com a sua assinatura uma acta, dando como tomadas numa sessão deliberações sobre propostas que não foram apresentadas. Pois já à observação do procurador vimaranense chamam as folhas de Braga obstrucionismo! Sê-lo-ia decerto, se o reparo fosse mal cabido; mas vai-se já ver se o foi. O snr. Luís do Vale cortou qualquer explicação séria e cordata, afirmando que as propostas tinham sido apresentadas na sessão, e que, se os procuradores de Guimarães se não lembravam delas, é porque na ocasião em que foram feitas, tinham eles saído da sessão, para fazer propaganda contra as cadeiras do liceu. E é ao snr. conde de Margaride que o Constituinte atribui as divagações irritantes !

Não esqueça que os arruaceiros estão a postos; carregada até à boca a sua indignação a priori, e que o bom do snr. Luís do Vale, o S. Sebastião do Comércio do Minho, sabe tudo isto nas pontas dos dedos.

Mas era verdadeira qualquer das afirmativas do snr. Luís do Vale? O snr. Vasco Avelar, que ninguém tratará de suspeito contra Braga, viu-se obrigado a desmenti-lo no primeiro ponto, declarando que efectivamente as propostas, a que se referia o snr. conde de Margaride, não tinham sido apresentadas na sessão anterior. Em vez de se encolher e pedir desculpa das suas inconveniências, o acusador achatado por um desmentido tão formal, replicou, como o lobo, que se as propostas em questão não tinham sido apresentadas na sessão anterior, tinham-no sido na imediatamente anterior, repisando na insinuação malévola. Se eles não tinham feito propaganda no intervalo da sessão anterior, foi então na sessão imediatamente anterior.

O lobo estava de uma infelicidade inexcedível.

Provou-se logo que os procuradores de Guimarães não tinham assistido à sessão a que o snr. Vale aludira. O snr. conde de Margaride acentuou então que tal era a boa vontade daquele senhor em malquistar os procuradores de Guimarães com Braga, que até os via a fazer em Braga propaganda contra o liceu num dia em que nem sequer estiveram em Braga; e acrescentou que as acusações de que ele e os seus colegas estavam sendo vítimas, talvez lhe não pudessem ser feitas pelo snr. Vale naquele lugar, porque, havendo incompatibilidade entre ele e o snr. Cunha Reis, seu cunhado, não estava averiguado se era o último ou o primeiro que podia falar naquela sala. Concluiu que, com esta observarão, tinha uma intenção muito diversa do que a de exigir que algum deles saísse, porque não fazia questão disso.

Parece que o dia estava mal agourado. O snr. Cunha Reis entendeu do seu dever sair da sala, depois de levantada a dúvida sobre a incompatibilidade dele e de seu cunhado e não houve quem o demovesse do seu propósito. O presidente teve de encerrar a sessão por falta de número.

Aqui estão os factos capitães da sessão de 28. Venha alguém desmenti-los.

Resumo: os procuradores de Guimarães notam que na acta da sessão do dia 24 são mencionadas propostas que não foram apresentadas naquela sessão e prova-se que a sua observação era exactíssima. Sem que, nem para que, um sicopanta, que sabe muito bem a impressão que fará a sua denúncia, aponta-os como hostis à questão do liceu, e aos interesses de Braga. Este incidente traz a propósito as dúvidas sobre a legalidade do diploma dum procurador, que aliás pelos seus actos mostra não ser digno de estar num tal lugar; o snr. Cunha Reis teima em sair, bem que seja instado pela presidência para ficar, e sem que ninguém se oponha, antes ao contrário; a sessão encerra-se por falta de número.

O leitor honesto vê que os procuradores de Guimarães não podiam andar mais correctamente do que andaram e que não foi por culpa sua que a questão do liceu se não tratou e resolveu ao sabor da maioria da junta.

Sim; mas a grande questão do dia era outra; a sessão solene era a da rua, nem para outra coisa se tinha peado a polícia de pés e mãos. Logo que o snr. Meira saiu, rebentou uma forte assuada. O snr. conde de Margaride e José Minotes, lembrados do aviso de que havia tenção de os apedrejar, inquietos pela sorte do seu companheiro, quiseram descer à rua; mas as pessoas que estavam com eles não lho permitiram. O Constituinte, se estivesse presente, faria uma léria “recheada de bom humor”, escarnecendo a “irritação de nervos” daqueles dois homens, que devem sentir cruelmente as amarguras dum companheiro e amigo. É uma coisa verdadeiramente ferina a maneira, porque as gazetas de Braga espreitam os movimentos das vítimas da inaudita selvajaria, para fazer chacota delas. Dir-se-ia que aquela gente perdeu todas as noções da dignidade humana e faz alarde do mais abrutalhado cinismo.

O snr. Cunha Reis e outros cavalheiros de Braga vieram abaixo e conseguiram que a assuada cessasse e a grande turba dispersou-se.

Para vexame já não fura pouco; mas supuseram os três vimaranenses que as coisas ficariam por ali e tanto mais de acreditar era isso, que todos três andaram passeando na rua. Foi nessa ocasião que o snr. José Minotes deu uma volta pelo Passeio Público. Levava uma badine na mão. As gazetas braguesas lá estão à espreita, e dizem: “de chicote em punho dirigindo-se para o passeio, sem contudo tirar desforço algum”. Pelo facto de levar um chicote na mão, é um provocador; pelo facto de não tirar desforço algum, é um pusilânime na intenção sempre venenosa do Constituinte. A verdade é que o snr. José Minotes não ia provocar ninguém, mas provavelmente não havia de ser muito impunemente que o haviam de insultar face a face.

Os procuradores de Guimarães recolheram-se depois à hospedaria e, chegada a hora de jantar, puseram-se à mesa em companhia do snr. Cunha Reis. A meio do jantar começaram a ouvir-se assobios e alguns apupos. Uma enorme massa de povo, trazida pelos motivos que o Constituinte e o Comércio do Minho nos revelaram, esperava a saída dos vimaranenses. Chegada a hora da partida, desceram e entraram para o carro, cuja portinhola o snr. Cunha Reis fechou, despedindo-se dos seus amigos. Os cavalos abalaram, e a um alarido selvagem a grande massa dos valentes começou também a mover-se e depois a correr atrás do carro. De certo ponto por diante, os morras e as maldições já não bastaram; começou a saraivada de pedras, de lama, de tudo o mais que sabemos. Um correspondente de Braga para a Província acrescenta que até os “excrementos de animais” serviram de armas naquele brilhante feito. Na confluência de duas ruas o carro viu-se cercado; mas o cocheiro teve o desembaraço de chicotear os cavalos e pôde romper por fortuna por entre a populaça. O correspondente da Província, a que já aludimos, afirma que o culpado de toda esta espantosa cena foi... o snr. José Minotes. Sem um gesto indecente que ele fez, os acontecimentos do dia 28 não passariam duma “inofensiva troça de estudantes “. É este cronista que se encarregou de tomar à sua conta o papel completo do triunfador do leão doente, que outros confrades seus se não tinham atrevido a estudar bem. Imagina-se já o que há a esperar dum escritor público que qualifica de “inofensiva troça” uma assuada, quando todos os códigos do mundo civilizado a qualificam como um crime. É que ele também é trocista... literário, uma raça já excomungada por Garrett, por Ortigão e não nos lembra quem mais.

Fazer troça de tudo, até dos últimos momentos da própria mãe, e ganhar assim a reputação de engraçado, é o único ideal destes desgraçados, que nem sabem o mal que fazem com o seu perpétuo cinismo. Na inaudita selvajaria do dia 28, nem mesmo a anarquia instigada pelas autoridades lhe merece um aceno de reprovação; tudo é bagatela. Há só um incidente que lhe fez secar o riso: é o gesto indecente empregado por um “gentleman conhecido e apreciado”. Dá a “sua palavra de honra” que não acreditaria que um cavalheiro tão distinto fosse capaz de “cometer tal grosseria”, e dará também a sua palavra de honra, supomos nós, que o desastrado gesto que tanto ofendeu aquele pudor virginal foi empregado antes da grande apupada e que ele pôde ser presenciado por toda a turba em delírio que corria por uma rua atrás dum carro, para lhe tirar o carácter de “troça inofensiva”. E sabem porque o gentleman fez aquele gesto? Foi porque se “pilhou dentro do trem” e se fiou “talvez em que a sua parelha gorda e folgada em breve o poria a salvo”.

O onagro da fábula, se pudesse escrever e pertencesse à escola trocista, devia escrever pouco mais ou menos assim, depois da sua vitória sobre o leão.

Qualquer croniqueiro menos malévolo deveria concluir que, se um gentleman cometeu uma grosseria, imprópria dele, e tal como o correspondente da Província descreve, acompanhando-a de longos comentários, é que a sua situação se aproximava um pouco à de Cambrone. É um facto certo que, quando a inferneira de morras, de uivos selvagens, que as folhas de Braga pintaram tão bem, estrugiu, e começou a feroz caça ao homem nas ruas de uma cidade que por descuido parece ter saltado do centro da África para a Europa, o gentleman, fora de si, ao espectáculo de tanta cobardia, gritou para os selvagens que lhe ficavam próximos: Selvagens! cobardes! e lhes fez o gesto, de que fala o trocista. Era certamente muito mais delicado folhear o código de civilidade, para estudar o caso novo de agradecer à populaça que o insultava, as suas gentis amabilidade, e é isso que faria o correspondente da Província, a julgar pela incomparável delicadeza, com que ele trata nos seus escritos coisas e pessoas, sobretudo o Marquês de Valada.

Mas enfim nem todos podem ser da sua têmpera e o que fez o snr. José Minotes fá-lo-ia todo o gentleman, que tem algum sangue nas veias e os brios por estanhar. Naquela ocasião o snr. José Minotes não pensava muito na sua parelha gorda e folgada. Os seus companheiros tiveram que sustentar com ele uma verdadeira luta, para evitar que ele se precipitasse para fora do carro. Imagina-se no que desfecharia aquela imprudência; mas faltaria tudo, menos um jornalista braguês e a sua musa trocista, para rir dum homem morto.

Os selvagens já esbofados perderam todo o fôlego ao fim da rua de Água, e voltaram triunfantes, com as mãos cheias de lama e de excrementos de animais, para receberem os parabéns da sua vitória e agradecer ao supremo magistrado do distrito as horas de deliciosa anarquia, que s. exc.ª decretara em ditadura, expressamente para aquilo, para a “troça inofensiva”.

Depois de transporem a ponte de S. João, os procuradores de Guimarães deviam supor-se livres da fúria dos canibais. Enganavam-se e valeu-lhes terem passado os célebres pinheiros da Gregória, antes que lá chegasse uma turma duns 100 homens, que saindo pelos Pelâmes planeavam cortar-lhes a passagem naquele ponto. É de crer que estes heróis não fossem atirar-lhes com formas de sapatos e panelas velhas.

[28 de Novembro, n.º 1, Guimarães, 12 de Dezembro de 1885]

continua aqui...

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