19 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 7

...continuado daqui

Francisco Martins Sarmento prossegue, no jornal 28 de Novembro, com a análise das notícias publicadas nos jornais de Braga.


Revista das folhas de Braga (2)

As causas do crime. — A Folha de Braga diz:

“Lida a acta da sessão antecedente, o snr. conde de Margaride disse que nela se continha a aprovação de projectos que lhe eram inteiramente estranhos. Respondeu-lhe o snr. Luís do Vale, dizendo-lhe que esses projectos haviam sido votados na ocasião em que s. exc.ª, para fazer a sua propaganda contra a criação das novas cadeiras para o liceu, tinha saído da sala com alguns procuradores. O snr. conde barafustou, alegando que estava sendo insultado e em seguida levantou a questão de incompatibilidade para o caso do snr. Luís do Vale poder continuar na junta, visto ser parente do snr. Cunha Reis. O snr. Luís do Vale disse que estranhava a observação, por isso que tendo feito parte da junta há quatro anos com o snr. conde, só agora s. exc.ª viesse impugnar a legalidade do seu mandato. O snr. conde voltou à carga, dizendo que era necessário que saísse o snr. Luís do Vale ou o snr. Cunha Reis. Levantou-se este cavalheiro e prestou-se a sair, dizendo, porém, que o snr. conde estava incurso na mesma incompatibilidade, por isso que era parente do snr. Minotes. O snr. conde disse que era isso caso de dúvida. O snr. presidente impugnou a saída do snr. Cunha Reis, por isso que a junta ficava em minoria. E nisto não se entra na ordem do dia, que era a questão do liceu e resolve-se a suspensão da sessão.”

Lida esta narração, aliás falsificada sob muitos pontos de vista, como logo mostraremos, e da qual apenas se conclui que os procuradores vimaranenses “fizeram obstrucionismo “, segundo dirá logo o Constituinte, fica-se espantado que o obstrucionismo puro e simples levasse todas as classes e condições do povo de Braga a fazer a três homens as inauditas judiarias que os periódicos bragueses historiam com tão vivo regozijo.

Mas para a boa da Folha de Braga aquele obstrucionismo foi uma patifaria de tal ordem, que ela escreve estas ingénuas coisas:

“A insubordinação do povo, atento o acinte dos senhores de Guimarães, é justa, porque, quando -e traem os mandatos (?), a indignação é naturalíssima...

“ Nós estamos ao lado do povo, porque no que pode, e tem de pagar, assiste-lhe todo o direito e toda a justiça.”

Não se percebe bem esta filosofia do direito; o que se percebe porém perfeitamente é que, se os redactores da Folha de Braga não formaram a par dos fundibulários da pedra e da lama, foi porque outras ocupações os distraíram. Mas na fúria belicosa ninguém lhes levará as lampas. Eles querem que na próxima sessão se requeira “que a votação seja nominal, afim do público saber quem vota contra ou a favor.” Sim; os das batatas, da lama, das panelas velhas, ele., ainda não gastaram todas as munições e estão prontos à primeira voz. A Folha de Braga está tão segura da liberdade de movimentos destes gloriosos anarquistas, que só pensa no supremo magistrado do distrito para dizer-lhe que está para ver “se o snr. governador civil tem força (?) para fazer reunir o número de procuradores, independentemente dos de Guimarães.” Esses já levaram a sua conta.

Uma carga a fundo sobre um procurador de Braga, que tinha opiniões pouco favoráveis à questão das cadeiras, remata esta verrina quase fantástica. Ela, a Folha, chama-lhe “nojento”, “mais indigno que os procuradores de Guimarães”, “repelente”; festeja primeiro a deliberação da Associação Comercial que o vai expulsar do partido médico que lhe dera, mas volta logo atrás e alvitra que o melhor é “louvá-lo e erigir-lhe uma estátua feita... por Cambrone”.

O delírio que enfuria esta gazeta e a cegueira, que não lhe permite ver nas futilíssimas causas, com que pretende justificar um acto de selvajaria como nunca se viu em nossos tempos, a sua formal condenação, chegam a aventar dúvida se os seus redactores acabam de sair de algum hospital de doidos. Infelizmente as outras gazetas braguesas não se mostram mais assizadas. Que ao menos não caiam nas mãos de um estrangeiro.

A Voz do Distrito. — Saiu quatro dias depois dos acontecimentos e naturalmente lá reflectiu que, se as razões alegadas pelo seu colega podiam ser perfeitas para Braga, para fora de Braga já assim não seria, visto como por aquele andar se podia justificar o direito dos bragueses a comerem vivos os estrangeiros que lhes entrassem as barreiras. Pelo que pôs-se a procurar razões menos braguesas. Mas o dianho é que as boas razões não aparecem à flor da terra.

O título do seu artigo mostra a gravidade com que vai entrar na liça: Por honra de Braga. Vamos ver como o historiador explica a honra de Braga no momento em que se arrebanham “todas as classes e condições” da cidade, para correr à lama e à lapada os procuradores de Guimarães.

A tenacidade destes procuradores era indomável. Este procedimento indignou os assistentes e comunicou-se ao grande número de pessoas, que a notícia do encerramento da sessão chamou às imediações do governo civil. A indignação recolher-se-ia dentro da bílis braguesa, se à janela do edifício não aparecesse de quando em quando um dos companheiros do snr. conde de Margaride (vistos os autos, é o snr. Joaquim Meira), sorrindo desdenhosamente para a multidão. Já era muito; mas a indignação de Braga, que deve ter os movimentos pesados, ainda assim não sairia da concha a esta provocação. Imaginam porém que outro procurador, o snr. José Minotes, vem passear para entre os estudantes fitando-os provocantemente e agitando uma bengala que trazia. Há paciência que não espirre a tais provocações? E note-se que alguns “cavalheiros bracarenses, membros da junta geral, temendo que aquelas provocações tivessem qualquer consequência desagradável, dirigiram-se aos diversos grupos de estudantes pedindo-lhes que se retirassem. Era já tarde. A este tempo saía o snr. conde de Margaride. Ao avistarem-no, algumas crianças (já iam fazendo falta os anjinhos numa festa minhota) menos reflectidas dirigiram àquele senhor algumas palavras que nenhuma significação ou responsabilidade teriam, se as pessoas que acompanhavam o ilustre titular, ao entrarem na carruagem, não respondessem a essas crianças com gestos insultantes e desonestos, de todo o ponto impróprios de cavalheiros.”

Parece que, se as inocentes crianças de Braga não fossem ofendidas, toda a indignação daquela santa gente daria em droga. Mas vamos devagar. Já não é nova a ideia de querer que a história seja ensinada de trás para diante; a Voz do Distrito parece partidária desta opinião e não lho levamos a mal, contanto que previna disso os seus leitores. Não falando na provocação do snr. Meira, que é um invento sem tom nem som, é um facto certo que o snr. Meira foi apupado, logo que saiu do governo civil, enquanto que os seus dois companheiros ficavam conversando em cima. Não somos nós que lho afirmamos; é a autoridade insuspeita do Constituinte. O snr. José Minotes só podia aparecer no Passeio Público depois da apupada ao snr. Meira, e por isso dissemos que a grave Voz do Distrito parece trazer os óculos as avessas. Não se percebe também como “ era já tarde” para refrear as fúrias braguesas, antes do agravo feito às inocentes criancinhas, quando a verídica Voz do Distrito assevera que foi o atentado contra a pudicícia das pequerruchas que pegou fogo à mina das cóleras do povo. Demais entre tanta gente que assistiu à procissão ninguém viu os tais anjinhos, senão este cronista. Soma tudo que a sua defesa é tão inábil, que faria sorrir. Porque, se pode permitir-se ao santo amor do patriotismo meter os pés pelas mãos, quando não pode fazer outra coisa, tira-se-lhe sempre a condição de não descambar em cómico.

Em todo o caso, ao pé da Folha do Braga a Voz do Distrito parece uma pomba sem fel; pois não parece? Esperem o resto. A sisuda gazela compôs todo o seu repertório, para poder concluir que, além de serem os únicos causadores das arruaças de Braga, os procuradores vimaranenses vieram empulhar a sua terra, fazendo-lhe crer que ela era quinhoeira nos insultos, que lhes diziam particularmente respeito, e, ainda mais, forjando calúnias para exagerar aqueles insultos. Chegaram a inventar que se deram morras a Guimarães! “Isto não tem comentários possíveis! (exclama a Voz do Distrito num arrojo de nobre indignação);...Braga protesta energicamente contra a calúnia que lhe é assacada de que soltasse este povo uma só palavra de menos afecto e simpatia pela cidade de Guimarães”. Exactamente, como na sua linguagem rude, opinavam os ferreiros da rua da Ponte, segundo o atesta um correspondente da Província: “Com mil diabos! bradaram eles, se soubéssemos que eram os de Guimarães, nem a alma lhe deixávamos!”

Por isso Braga, pela Voz do Distrito, lamenta que os cavalheiros vimaranenses “sofressem aqui o desgosto que sofreram”. Esta Braga, que manda representantes de todas as classes e condições correr à pedra e à lama os cavalheiros vimaranenses, e lamenta depois o desgosto que eles sofreram, só se explica admitindo que os bragueses têm um modo seu próprio de fazer o bota-fora aos seus hospedes, e que os estrangeiros não estão ao facto de que a mais afectuosa despedida que lhes pôde ser feita por aquela gente é corrê-los à lapada, à batata, à panela velha, etc.

Que originais!

[28 de Novembro, n.º 1, Guimarães, 12 de Dezembro de 1885]

continua aqui...

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