26 de maio de 2006

A canela de S. Torcato

Segundo uma das tradições que contam a vida e da morte de S. Torcato, o santo seria natural da cidade de Citânia, tendo recebido baptismo no famoso templo de Ceres, que terá existido na antiga Praça do Peixe de Guimarães e que depois foi capela dedicada a S. Tiago. Tendo acompanhado o Apóstolo S. Tiago na evangelização do Entre-Douro-e-Minho, seria nomeado bispo em Roma, regressando a Briteiros, onde prosseguiu com a evangelização. Certo dia, indo pregar para as terras de Vieira, os povos se juntem para o matarem. Seguiram-no e, vendo-o a descansar à sombra de uma árvore pegaram dele, e com sogas e tamoeiros com que prendiam os bois, o ataram de pés e mãos e com paus e pedras cruelmente o martirizaram, e ali o deixaram coberto de pedras. Esta é a história de S. Torcato contada por um homónimo, Torcato Peixoto de Azevedo (outra versão diz que terá sido martirizado em Granada, tendo os seus restos mortais sido trasladados para o Noroeste da Península, após a invasão muçulmana).

Com o tempo, o lugar em que ficou o corpo de S. Torcato ficou encoberto. Passados muitos anos, foram avistadas luzentes chamas no meio de entrelaçados matos. No sítio das chamas, apareceu um montão de pedras de que saía admirável cheiro, sob o qual se achou o cadáver com o distintivo episcopal, e tirado o corpo saiu da terra uma caudalosa fonte, cujas águas têm sarado várias enfermidades. O corpo foi levado para o mosteiro de Santa Maria (depois de S. Torcato) e depositado numa tumba de pedra. O corpo de S. Torcato passou a ser objecto de curiosidade e de devoção, mas também de cobiça, por causa das receitas da sua caixa de esmolas. No final de Fevereiro de 1501, D. Manuel I ordenou a trasladação do corpo de S. Torcato para a Colegiada de Guimarães. O povo opôs-se e não houve trasladação. O mesmo voltaria a suceder quando, em 1597, o arcebispo ordenou que fosse levado para Braga. Em Maio de 1538, um pregador espanhol afirmou na igreja da Colegiada que S. Torcato não estava sepultado em Guimarães. Para o desmentir, foi aberto o sepulcro, verificando-se que o corpo estava inteiro, com uma vestimenta branca franzida pelo pescoço como de estamenha, tinha uma mitra na cabeça de tabi branco, um báculo de pau ao pé, e uma cruz de pau sobre o peito.

No dia 14 de Julho de 1637, uma delegação da Colegiada foi à sepultura de S. Torcato; para colocar uma guarnição de pedraria, que de novo se quer plantar sobre ela, para mor segurança das relíquias. Os cónegos resolveram inspeccionar o túmulo, que mandaram abrir, verificando que o corpo estava inteiro, organizado e incorporado em carne e osso, mirrado, o rosto virado para a banda esquerda, com olhos, nariz, boca, barbai orelha, perfeitamente compostos de modo que bem mostrava as feições de homem. No auto que se fez da abertura da sepultura do glorioso S. Torcato ficou o registo detalhado do conteúdo do sepulcro.

Esta visita a S. Torcato iria dar que falar, estando na origem de uma causa envolvendo; alguns cónegos de Guimarães e o vigário de S. Torcato, sobre a qual o Cabido de Braga emitiria uma Provisão, em Outubro de 1641, ordenando que sobre o assunto se fizesse perpétuo silêncio.

O motivo se tal querela foi uma ocorrência bizarra, que teve lugar durante aquela inspecção: o mestre-escola da Colegiada, Dr. Rui Gomes Golias, fundador do morgado das Lamelas, arrancou, com os dentes, o osso de um dos tornozelos de S. Torcato, que levou para a capela da sua casa, na rua do Forno (que hoje acolhe o Arquivo Municipal). Após a morte do mestre-escola, o osso de S. Torcato ficou ao cuidado das suas três sobrinhas, que acabaram por a entregar à Colegiada. Nas vésperas do Natal de 1662, uma procissão solene fez a trasladação da relíquia da capela das Lamelas para a Colegiada, com o acompanhamento do D. Prior, D. Diogo Lobo da Silveira, do Cabido, da Câmara e mais autoridades da Vila, dos frades de S. Domingos e de S. Francisco, da nobreza, que tomou as varas do pálio, da música da Colegiada, de danças e de muita povo. A solenidade terminou com uma missa, no fim da qual a relíquia foi dada a beijar a todos os assistentes.

Os restos mortais de S. Torcato voltariam a ser examinados em meados de Junho de 1805, numa altura em que iam ser colocados em exposição pública. O exame foi feito por Miguel Rebelo, médico de Guimarães, que testemunhou que os ossos que formam a cabeça, todos se acham unidos por meio da sua sutura e músculos; no rosto as maxilas se acham unidas ou articuladas nas suas próprias articulações e os dentes da mesma sorte, à excepção do superior que se não acha no peito; as costelas estão unidas nas suas próprias cavidades; no pescoço se acham destruídas as partes musculosas e desarticuladas as vértebras cervicais, aonde se divisa uma rotura grande que se pode conjecturar, conforme a tradição, que seria a parte aonde sofreu o martírio; no braço direito o osso úmero se acha articulado e destruído de músculos e os dois ossos, cúbito e rádio, e toda a mão se acham articulados e todos os dedos com suas unhas à excepção do pólex que lhe falta; o mais corpo e pernas se acha em parte desorganizado e a perna direita se acha articulada e destituída de músculos; e todo o mais restante do esqueleto se acha sem músculos mas com todos os seus próprios ossos. O relatório não se refere ao osso roubado pelo mestre-escola que, afinal, não será uma canela, mas sim um calcanhar. Para o recolher, D. Diogo Lobo da Silveira tinha mandado fazer um magnífico relicário em prata dourada, que agora pode ser admirado no Museu de Alberto Sampaio.

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12 de maio de 2006

As Maias

Maias (ou giestas) em flor
Há, entre nós, tradições seculares que, aparentemente, o tempo e os costumes vão apagando. Uma delas é a das maias ou do maio, uma prática de esconjuro que mandava que, quando entrasse o mês de Maio, as casas fossem ornamentadas com giestas floridas, folhas de carvalho e outros verdes e flores silvestres. Ao cair da tarde do dia 30 de Abril, as maias eram colocadas em todas as portas, postigos, janelas, buracos das paredes e outras aberturas das casas para o exterior. Esta tradição, que em terras de Portugal se celebra de diferentes modos, é muito antiga, sendo já referida em documentos medievais, sendo geralmente associada a ritos ancestrais de carácter universal que tinham como finalidade contrariar as forças malfazejas e estéreis do Inverno e participar do renascimento da natureza, que ocorre todos os anos pela Primavera.

Acreditava-se que a lua de Maio produzia a esterilidade. É por isso que o espaço de intervenção das maias não se limita à protecção do espaço doméstico. Persiste a crença de que os pitos nascidos na lua de Maio endoidecem e morrem. Nas capoeiras e cortes de gado, os ramos de giestas protegem as crias pintos, leitões, cabritos, bezerros. Os bois, os jugos e os carros são engalanados com flores e ramagens. Nos campos de milho ainda por sachar, podiam ver-se coroas de maias, que afastavam pragas, preservavam as culturas e propiciavam boas colheitas. No tempo em que ainda se usavam chapéus, os homens engalanavam-nos com maias. As mulheres colocavam-nas ao peito. Há diversas explicações para esta prática, que variam conforme os lugares ou os informadores. Colocam-se maias contra o mau-olhado deitado por vizinhos, para que haja fartura, para afastar as bruxas. Há quem diga que as maias se põem para que a preguiça não entre em casa ao longo do ano, outros dizem que é para não entrar o burro que parte a louça toda; há ainda quem sustente que é para não entrar o Diabo em casa. Perto de Guimarães, há quem justifique esta prática como modo de prevenir que o demónio não entre nas casas e mije na louça toda. Há ainda quem refira que esta tradição tem como objectivo manter a casa ao abrigo dos bruxedos e afastar dela a fome. Deste modo, os ramos floridos funcionariam como amuletos eficazes para a protecção das casas das forças malignas ao longo de todo o ano.

A celebração das maias visa propósitos preventivos, servindo para livrar a casa dos males que atemorizam as gentes, em especial no nosso meio rural: a preguiça, a fome, os feitiços, o Diabo. E é interessante a identificação do burro que parte a louça com o Diabo, que mija nela, isto é, que a contamina com a ruindade demoníaca, uma vez que, tal como nota o antropólogo Ernesto Veiga de Oliveira, o burro do costume português mascara certamente a palavra que exprime a personificação do mal e da morte o Diabo, que é perigosa e não se deve proferir, substituindo-a por outro termo, expressivo mas inofensivo.

Aconteceu com este costume ancestral, de raízes claramente pagãs, um processo que se estendeu a muitos outros usos tradicionais: a sua apropriação pela religião dominante, que o passou a explicar com base numa lenda relacionada com a vida de Maria. Reza esta tradição que, quando a mãe de Jesus fugia dos judeus e se escondeu numa casa em que encontrou guarida, os perseguidores, sabendo qual era essa casa, terão marcado a sua porta com um ramo de giestas. Mas, ao amanhecer, havia giestas em todas as portas e os tais judeus ficaram baralhados e não conseguiram apanhar nem a Senhora, nem o Menino. Terá sido para evocar este facto que se passaram a colocar as maias nas portas. Há ainda uma outra interpretação para a origem deste costume, um pouco diferente, que recorda a fuga da Senhora com o Menino para o Egipto. Durante o percurso, terá deixado pelo caminho muitos ramos de giestas para não se enganar no regresso.

Em terras vizinhas de Guimarães encontra-se um ritual singular com o propósito de afastar das casas os parasitas que costumam infestar as casas. No primeiro dia de Maio, corresse com aqueles bichos, faz-se grande ruído com buzinas (trombetas improvisadas com cornos de boi), gritando: pulgas, carrapatos, percevejos, tudo para o fundo do lugar. Para irem e não voltarem.

O primeiro de Maio é um dia de celebração da Primavera, especialmente pelos mais jovens, assinalando o triunfo do novo sobre o velho, do fecundo sobre o estéril. Em alguns lugares, os namorados trocavam presentes floridos e mensagens de enamoramento. Os moços dirigiam-se às janelas das suas namoradas (ou pretendidas), onde colocavam coroas ou ramos de flores, a que juntavam escritos, geralmente em verso, com a expressão dos seus sentimentos amorosos. Os corações solitários aproveitavam esta manifestação para darem a conhecer os seus afectos às meninas dos seus olhos. Se o amor fosse sincero, os ramos oferecidos deveriam ser acompanhados por presentes (por exemplo, um pão-de-ló). Se à janela de uma rapariga apareciam giestas, esta dádiva era interpretada como uma manifestação de troça.

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