23 de junho de 2006

As ervas de S. João

Mais conhecido como arqueólogo, Francisco Martins Sarmento foi também um notável observador das nossas tradições populares. Nos seus cadernos de apontamentos etnográficos, que a Sociedade Martins Sarmento publicou há poucos anos, estão registadas as suas observações pessoais e as informações que obtinha dos mais diversos informantes, nomeadamente de familiares e amigos, com que construiu um imenso reportório de saberes de transmissão oral produzidos pela nossa cultura popular, onde se encontram inúmeras referências às tradições de S. João na região de Guimarães.

Coincidindo com o solstício de Verão, a noite (e a manhã) de S. João é o tempo de todos os sortilégios, esconjuros e adivinhações. De 23 para 24 de Junho têm lugar inúmeras práticas mágicas, profiláticas, propiciatórias e expurgatórias. Mas este é também um tempo de folia: pela calada do escuro, o rapazio vai pelas casas roubar vasos para enfeitar as fontes e arrancar cancelas e levá-las para longe ou pendurá-las nas árvores; levar carros, arados, cambões, etc., para sítios onde os donos lhes custa achá-los. Na noite de S. João cantava-se e dançava-se à roda de grandes fogueiras, cujas labaredas eram desafiadas pelos jovens, que as atravessavam com as suas correrias e saltos.

Na noite de S. João cuidava-se de garantir a abastança de frutos da terra, protegendo-os contra o mau-olhado ou desviando-os das terras dos vizinhos. Uma das práticas descritas por Sarmento é conhecida por andar de cambão. O cambão é um instrumento usado para calcar a palha no tempo em que era malhada, que, nesta prática, era montado por um lavrador que atravessava as terras dos vizinhos em direcção às suas, dizendo: Vai boi, vai vaca / Que esta terra é fraca / O renovo que ela der / Cairá na minha arca.

Mas havia meio para atalhar a tal roubalheira: na noite de S. João (aliás véspera) põem-se ramos nos campos, deitando ao mesmo tempo sal, e dizendo: Quem estes renovos me vier furtar / Os grãos deste sal há-de contar.

Com o mesmo fim se costumava atacar as medas de centeio do vizinho com um malho. Sarmento conta que na noite de S. João vai-se à eira dum tal que tem medas de centeio, que “se querem na nossa arca”, e bate-se nelas sete vezes com um malho. O centeio parece que cai logo na arca do malhador, porque uma vez que um tal foi fazer a operação, o dono do centeio, talvez para prevenir o enguiço guardara as medas. O malhador contentou-se de bater numa pereira com o malho, e chegando a casa disse-lhe a mulher: “Tu que fizeste, que em vez de centeio, a arca encheu-se de peras?”.

A noite de S. João era também o tempo de emendar, à força de pancada, as planta machuma, a que é preguiçosa em dar flor (roseira, por exemplo), ou fruta. Para a curar do mal, corta-se uma vara de castanheiro na noite de S. João, e ao nascer do Sol dão-se-lhe nove vergastadas.

Mas não só para os frutos da terra servem os rituais sanjoaninos. Sarmento registou, por exemplo, uma receita para fazer crescer o cabelo: corta-se uma pequena madeixa. À meia-noite (do dia) de S. João ata-se a madeixa ao rebento duma silva. O cabelo da cabeça, donde saiu a trança, crescerá na dita cabeça na proporção da crescença da silva, parece.

As ervas colhidas pelo S. João eram utilizadas em defumadouros e serviam para livrar a casa dos raios, em tempo de tempestade. Recolhia-se um ramo com sete (ou nove) ervas diferentes, ao mesmo tempo que se dizia: Toda a erva tem virtude / Na manhã de S. João / Menos o trevo de quatro folhas / Que tem em si maldição. Depois de várias operações, o ramo é queimado e às cinzas dele juntam algumas migalhas de pão, que na noite do Natal, ficaram na mesa e se têm guardadas; e quando há trovoada deita-se esta mistura sobre o lume, para livrar a casa dos raios.

Muitas das tradições de S. João estão associados ao amor, ao namoro e à procura de casamento. Sarmento recolheu um método para saber qual de dois namorados tem mais afeição ao outro, à meia-noite de S. João juntam-se dois pés de junco (sem os desenterrar) e aparam-se nas extremidades superiores, de modo que fiquem da mesma altura. Um fica representando um dos namorados, o outro, outro. De manhã, antes de nascer o Sol, vai ver-se e medir-se. O que tiver crescido é o que tem mais amor.

Um trevo de quatro folhas escondido na pedra do altar é feitiço eficaz para arranjar casamento. O trevo que se encontrou de dia há-de ser colhido à meia-noite, na noite de S. João; mas, para o marcar, não se lhe pode atar nada, porque neste caso o trevo desaparecerá (provavelmente não faz efeito). Colhido o trevo, mete-se debaixo da pedra de ara. Dita a missa, tira-se, e dá-se a comer, num bolo por exemplo, à pessoa com quem se quer casar. Outro método: conquista-se necessariamente uma mulher se na manhã de S. João se apanha um trevo de quatro folhas e se roça com ele pelo vestido, e ainda melhor, pela carne da conquistanda, dizendo três vezes, de cada vez que se passa o trevo (sem a mulher sentir): Todo o trevo tem virtude / Na manhã do S. João.

Além de casamenteiro, o trevo pode ser o portador de grande fortuna: à meia-noite do S. João nasce uma flor de trevo, que o diabo arde por apanhar. Homem que a apanhe, antes do diabo, tem nela um enorme tesouro. Contaram a Sarmento uma variante desta tradição, onde o trevo é substituído pela flor da arruda: à meia-noite do dia de S. João quem colher a flor da arruda que abrir àquela hora pode enriquecer e aqui está porquê. Esta flor deseja-a o diabo; mas, como foi logrado pelo que a apanhou, segue-o até à primeira encruzilhada, onde o ataca para lhe tirar a flor. Se o homem lutar com ele e o vencer, poderá pedir-lhe quantas riquezas quiser em troca da flor, que será servido.
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9 de junho de 2006

O Claustro de S. Domingos

No dia 12 de Agosto de 1270, o povo foi chamado à Igreja da Praça de S. Tiago para ouvir a pregação de Frei Álvaro, Prior de S. Domingos do Porto. No final da prédica, o frade anunciaria a razão da sua presença nesta terra: a Câmara solicitara à Ordem de S. Domingos a instituição de um mosteiro dominicano em Guimarães e Frei Álvaro pretendia auscultar a vontade do povo, já que a primeira ordem que trazia era não começar nada sem o seu beneplácito. Em resposta, levantou toda a igreja uma voz de alegria.
Os fundadores de S. Domingos de Guimarães, com as esmolas que recolheram, compraram algumas casas e quintas, da parte de fora dos muros da Vila, junto à Torre da Piedade (à Porta da Vila). O convento primitivo ergueu-se entre 1271 e 1278, mas teve curta existência.
Os últimos anos do reinado do rei poeta foram especialmente conturbados. O seu herdeiro, futuro D. Afonso IV, receando que D. Dinis favorecesse um filho bastardo, D. Afonso Sanches, levantou-se em armas contra o pai, exigindo que o trono lhe fosse entregue. Quis tomar a vila de Guimarães, cercando-a e provocando grandes danos aos que dentro dos muros defendiam o rei, atacando por cima do convento de S. Domingos, que se encostava à muralha. Restabelecida a paz, o rei ordenou, em 1323, que se derrubasse o convento e se voltasse a construir em local que não oferecesse perigo para a defesa da Vila. O novo convento seria erguido, no último quartel do século XIV, a uma distância de 130 passos a poente do lugar da sua fundação primitiva. Funcionaria como recolhimento de dominicanos até à extinção das ordens religiosas, em 1834.
O elemento mais singular da construção do século XIV é o claustro, implantado a Norte da igreja. De planta quadrangular, é suportado por arcos quebrados assentes em elegantes colunas duplas. Actualmente existem três naves do velho claustro, mantendo-se completo o quadrilátero da arcaria gótica, formado por 42 arcos e 48 pares de colunas com belos capitéis decorados com motivos vegetalistas, zoomórficos e antropomórficos, onde se vislumbram sobrevivências do românico. Todos diferentes.
Era em torno do claustro que se dispunham a sala do capítulo, o dormitório e o refeitório conventuais. É Monumento Nacional desde 1910.
No último dia de Maio de 1834, os frades de S. Domingos receberam uma intimação que os obrigava a entregarem as chaves do convento ao Corregedor da Comarca. Iniciou-se então a discussão acerca do destino a dar ao edifício, que se prolongaria por várias décadas. Em 1836, a Misericórdia de Guimarães propôs-se adquiri-lo para instalar o seu hospital, tendo mesmo obtido autorização do governo para o licitar. O negócio não se concretizaria.
No início de 1839, os oficiais de Infantaria 18, que estavam aquartelados no Convento dos Capuchos, mudaram-se para S. Domingos.
Dois anos depois, a Câmara pediu o convento às Cortes, para a construção do Paço Municipal e para a instalação de outras repartições públicas. Em 1842, um decreto régio concedeu S. Domingos ao município para a instalação do Tribunal Judicial. No ano seguinte, a Secretaria da Administração do concelho mudou-se de S. Francisco para S. Domingos. Quando, em 1861, foi inaugurada a linha telegráfica de ligação a Braga e ao Porto, a respectiva estação instalou-se em duas salas sobre o claustro de S. Domingos. Em 1865, S. Domingos estava em ruínas, tendo sido necessário transferir o tribunal para a Praça de S. Tiago, o que não impediu que, em 1869, aqui fosse inaugurada uma Biblioteca Pública.
Na segunda metade da década de 1840, parte do convento tinha sido arrasada, para a abertura da estrada de Braga. Em 1863 iniciaram-se novas demolições, do lado do Toural (actual rua de Paio Galvão) e do lado voltado para a Ordem Terceira. Em meados de Outubro de 1873, foi adjudicada a um pedreiro de Santa Luzia a demolição do convento, que incluiria o claustro e pouparia a escada principal, o dormitório e o chafariz. Ergueram-se vozes contra a destruição do claustro. Três anos depois, uma comunicação do governador civil do distrito dá conta de que o Ministro do Reino recomenda à Câmara que conserve no estado em que se acham aquelas preciosas ruínas que são monumento interessante para o estudo da nossa arquitectura. Em consequência, decidiu-se conservar a arcaria do claustro, do qual já tinha sido demolido o piso superior (cujas colunas foram adquiridas pela Comissão de Melhoramentos da Penha para a construção de um chalet).
Em Janeiro de 1881, Francisco Martins Sarmento solicitaria a intervenção de Possidónio da Silva para a conservação do claustro de S. Domingos. No ano seguinte, também a pedido de Sarmento, Tomás Soller, Soares dos Reis e Marques de Oliveira, delegados do Centro Artístico Portuense, pronunciaram-se sobre o destino a dar ao claustro dominicano.
Em 12 de Junho de 1888, seria publicado um decreto que concederia à Sociedade Martins Sarmento o edifício do extinto convento de S. Domingos com todos os seus anexos, que já ocupava provisoriamente, para nele estabelecer a sua biblioteca, museus, escolas e mais dependências, revertendo para a fazenda nacional se a mesma sociedade, no prazo de dois anos, deixar de aplicá-lo aos fins para que lhe é concedido, ou em se em qualquer tempo lhe der diversa aplicação. Às 18 horas do dia 10 de Julho de 1888, a Sociedade tomou posse do convento. No ano seguinte, foi reconstruída a galeria superior do claustro medieval, segundo traço do engenheiro Inácio Teixeira de Meneses.
Foi ali, no mais antigo claustro da cidade de Guimarães, que se instalou o Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento.
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