19 de junho de 2005

Daqui nasceu Portugal

O 24 de Junho está envolvido pelo fascínio dos actos fundadores, como resultado da sua associação identitária com os fundamentos da independência de Portugal. É inegável que existe uma vinculação simbólica com a matriz original da nacionalidade portuguesa que, para o bem e para o mal, é sistematicamente convocada para explicar o presente.

A data e o local do acto fundador da nacionalidade portuguesa não são consensuais. A maior parte das opiniões dos especialistas distribuem-se por três momentos: 1128 (Batalha de São Mamede), 1139 (Batalha de Ourique e subsequente proclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal), 1179 (Bula Manifestis Probatum, que consagra o reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa).

Durante largo tempo, o 24 de Junho de 1128 foi ignorado na nossa historiografia, sendo atribuída a primazia à Batalha de Ourique, data mais conveniente à ideia da determinação divina da acção de Afonso Henriques, por força do milagre que a terá antecedido. Negada por Alexandre Herculano, a quem se deve a recusa da intervenção do sobrenatural na construção da nacionalidade portuguesa e o reconhecimento de São Mamede como o seu momento fundador, esta ideia presidiu ao espírito das Comemorações Centenárias de 1940, que evocaram, no quadro do ambiente ideológico de acentuado fervor nacionalista que caracterizou o Estado Novo, três momentos fundadores da nação: 1140, 1640 e 1940.

Situando-se a nossa fundação algures nos tempos obscuros da Idade Média, está envolvida por uma teia de interrogações que encontram resposta, mais do que no território das certezas rigorosamente documentadas pela investigação histórica, no quadro dos mitos e das representações simbólicas que emanam do imaginário colectivo. A memória popular e a tradição nacionalista de sacralização do passado, onde só há espaço para a gesta gloriosa e se omitem os reveses e as derrotas, contribuíram para dar foros de verdade a histórias que a História não acolhe. É assim com os diferentes retratos que se traçam da figura de Afonso Henriques, que é representado ora como um santo predestinado, ora como um herói guerreiro, ora quase como um facínora, ora como tudo isso ao mesmo tempo.

Está demonstrada a persistência de um perfil de Afonso Henriques construído pelos inimigos e detractores que granjeou, muitas vezes inadvertidamente transmitido pelos seus paladinos mais inflamados, que assenta num conjunto de supostos acontecimentos que nunca tiveram comprovação factual.

Eis alguns exemplos: Afonso Henriques teria sido derrotado na batalha de São Mamede (quem a teria ganho seria Soeiro Mendes, que lhe terá surgido ao caminho com auxílio, quando já fugia); teria mandado prender a própria mãe no Castelo de Lanhoso, calcando os seus deveres filiais mais sagrados; teria destituído D. Bernardo, Bispo de Coimbra, como represália pela excomunhão a que o teria condenado por se recusar a libertar D. Teresa, colocando no seu lugar o famigerado Bispo Negro, que nunca existiu; teria conduzido Egas Moniz ao acto de humilhação perante o rei de Leão, por ter faltado à sua palavra. A verdade é que não há nenhuma demonstração de que qualquer destes factos tenha mesmo acontecido.

Ao mesmo tempo, a marca do dedo de Deus na acção de Afonso Henriques, erigido em instrumento da vontade divina, largamente difundida pela historiografia oficial, que afirmava a santidade do nosso primeiro rei, foi também absorvida pelo nosso imaginário colectivo.

A batalha de São Mamede, com tudo o que representa para a afirmação da nacionalidade, é o resultado da reacção colectiva de grande parte da nobreza do Minho, que se sentiu lesada nos seus interesses pela retirada, por parte de D. Teresa, da confiança no exercício dos cargos administrativos do condado portucalense, que estavam nas suas mãos havia mais de um século, em favor de um estranho (o galego Fernando Peres de Trava), escolhendo para seu chefe aquele que melhor poderia assegurar a sua autonomia. Assim, se não foi instrumento de Deus, Afonso Henriques começou por ser o instrumento da vontade política da velha nobreza minhota.

São Mamede é, inegavelmente, o momento fundador da nacionalidade portuguesa, que se consolidou com o transcurso do tempo. Do ponto de vista da afirmação política e da representação simbólica, assinala a circunstância em que Portugal começa a afirmar a sua autonomia, iniciando um percurso que passará por muitos outros acontecimentos, em diferentes momentos e lugares e que se completará com a demarcação definitiva das suas fronteiras e a sua sustentação perante as pretensões hegemónicas do vizinho peninsular. 1140, 1179, 1385, 1640 são datas que também fazem parte da cronologia da afirmação da independência de Portugal, mas só aconteceram porque houve São Mamede.

Muito se tem discutido sobre a insígnia que Guimarães acrescentou ao seu nome: Aqui nasceu Portugal, que outras terras também reivindicam para si. Portugal nasceu em Portugal, mas nasceu a partir de Guimarães, em 24 de Junho de 1128.

Daqui nasceu Portugal.

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17 de junho de 2005

O Túmulo dos Pinheiros

A actual torre sineira da Igreja da Colegiada da Oliveira data dos primeiros anos do século XVI. Foi mandada construir pelo Dr. Pedro Esteves Cogominho, ouvidor do Duque de Bragança, em substituição da que tinha sido erigida a mando de D. João I. Mas não completou a obra. Quando a morte o levou, só um terço da torre estava levantado, pelo que foi o seu filho D. Diogo Pinheiro, Prior de Guimarães, comendatário de diversos mosteiros e futuro Bispo do Funchal, que se encarregou de a concluir. É dele o brasão de armas que encima a magnífica janela manuelina que foi rasgada na torre, representando um pinheiro e um leão associados ao chapéu e aos cordões característicos das insígnias eclesiásticas.

A torre reparte-se por três andares, cuja separação é marcada por frisos lavrados na fachada exterior, onde se destacam duas gárgulas zoomórficas, uma delas particularmente célebre em razão da sua disposição obscena.

É no piso inferior da torre que se abriga a capela dos Pinheiros onde, sob uma abóbada de nervuras, se encontram as sepulturas dos instituidores. São dois túmulos gémeos, talhados em pedra de Ançã e resguardados por grades, que suportam as estátuas jacentes de Pedro Esteves e da sua mulher Isabel Pinheiro. À cabeceira, foi posta uma representação da Senhora da Piedade. No interior da capela, sobressai também uma moldura de janela de excelente labor. Por ali terão andado, certamente, mãos de mestres franceses e ingleses.

Numa das paredes da capela, abrigados no interior de arcos góticos, estão depositados mais dois pequenos sarcófagos, provavelmente dos pais de Isabel Pinheiro. No chão, é também visível uma campa rasa. Todas as sepulturas da capela ostentam as insígnias dos Pinheiros que, segundo o Padre Carvalho da Costa, foram tronco ilustre das melhores casas deste reino.

Os túmulos dos pais de D. Diogo Pinheiro, notáveis a vários títulos, assumem particular relevância para o estudo da indumentária da época de transição do século XV para o XVI. As estátuas das sepulturas dos Pinheiros, em tamanho natural, estão revestidas com os trajos de gala que então se usavam. É este pormenor que as torna extraordinárias, já que, em Portugal, as estátuas tumulares, mesmo as de pessoas que não pertenciam ao clero, eram, por regra, representadas envergando hábitos eclesiásticos, que nada dizem sobre a moda do tempo.

Há muito que este monumento se encontra em estado de decomposição, num processo que resulta da natureza frágil da pedra calcária de que é feito conjugada com a exposição a condições de humidade nefastas. Recorde-se que, durante séculos, a torre da Colegiada serviu de encosto a um tanque fontanário de três bicas que oferecia água da Penha às gentes de Guimarães.

A preocupação com a sua conservação é antiga. No início de 1881, Francisco Martins Sarmento trouxe a Guimarães, a pedido de Cabido, três delegados do Centro Artístico Portuense (Tomás Soller, Soares dos Reis e Marques de Oliveira) para observarem a capela e o túmulos dos Pinheiros e para se pronunciarem acerca dos procedimentos mais adequados para estancar o processo de deterioração. Na altura, o grupo de especialistas também observou e deu opinião sobre a antiga imagem de Nossa Senhora da Oliveira (que tinha sido salva de destruição por João Lopes de Faria), os arcos do claustro de S. Domingos, a imagem de Santa Margarida encontrada numa parede da capela de S. Miguel do Castelo durante as operações de restauro que foram orientadas por Martins Sarmento e uma outra figura cravada na parede do adro da capela de S. Tiago.

Tanto quanto se sabe, as opiniões e conselhos dos homens do Centro Artístico do Porto não produziram qualquer resultado. Até hoje, não foi aplicada qualquer solução capaz de reverter o processo que está a consumir e a transformar em pó uma das memórias mais notáveis de Guimarães.
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