27 de maio de 2005

O Chafariz do Toural

Uma das maiores riquezas de Guimarães é a água que brota das encostas da Penha, com a qual se sustentou durante largos séculos. Indispensável para a alimentação e para a higiene (embora não tanto para o asseio corporal que, nos tempos antigos praticamente se reduzia a manter limpas as partes do corpo que se apresentavam à vista — as mãos e o rosto…), o abastecimento de água foi, desde sempre, sorvedouro de parte substancial do erário do Município.

Construído em finais de quinhentos, o encanamento da água para a vila foi pago por um imposto lançado sobre a venda de vinho verde, azeite, carne e peixe na vila de Guimarães, autorizado por uma provisão régia de 1585. A água seria conduzida desde as nascentes da Piolhosa e da Presa do Monte até ao Toural, onde foi erigido um belo chafariz de traça maneirista, obra do mestre pedreiro e imaginário Gonçalo Lopes, cujo nome também está ligado à construção da Igreja da Misericórdia.

É do Padre Torcato Peixoto de Azevedo a descrição que, no século XVII, nos foi dada do famoso chafariz que esteve no Toural durante trezentos anos e cuja memória se liga com a das festas Nicolinas:

“Tem esta Praça entre si e as casas que a cercam da parte do Sul, um chafariz de seis bicas, que correm de taças de pedra bem lavradas, e tem no alto uma esfera de bronze dourada, e ao pé dela um escudo com as armas de Portugal e, nas costas deste, outro com uma Águia negra coroada de ouro, com um letreiro aos pés que diz: Anno de 1588. É este chafariz todo cercado de assentos de pedra para se recrearem os que ali vão.”

Durante os meses de Verão, o chafariz do Toural era ponto de encontro e de convívio da gente nobre da vila. A Câmara ia zelando para que a sua água não fosse desviada e se mantivesse limpa. Em 1605, proibiu que se lavasse ali “sangue, hortaliça, panos, nem outra coisa, com pena de dois mil réis pagos da cadeia para acusador e cativos”. Em 1628, reforçou a proibição de se lavar ali roupa.

O chafariz do Toural tem por base um tanque circular, em cujo centro se ergue uma coluna ornamentada. Tem duas taças redondas. A primeira com seis bicas que brotam de carrancas; a segunda, mais pequena, com quatro bicas jorrando de cabeças de anjos. Acima da segunda taça, a coluna suporta uma esfera de pedra com quatro carrancas e outras tantas bicas. É encimada por duas águias de asas abertas, entre as quais se podem ver, de um dos lados, as armas reais de Portugal, e, do outro, as armas de Guimarães (uma representação da Virgem Maria segurando o Menino, com uma oliveira à sua direita). No remate, ostenta uma esfera armilar e uma cruz, em metal. Em 1809, no tempo das Invasões Francesas, os escudetes das armas reais do corpo superior do chafariz foram picados (os que lá se podem ver agora foram cravados posteriormente).

O chafariz do Toural começou a ser desmontado no silêncio da noite de 26 de Outubro de 1865, guardando-se na Praça do Mercado as suas pedras lavradas. A demolição só seria concluída em meados de Junho de 1874, no âmbito da renovação daquela praça que fez surgir um jardim cercado de grades, um coreto para a música e um marco fontanário em mármore branco.

Em 1891, o chafariz foi reimplantado em terreno fronteiro à Igreja do Carmo.

É ali, no topo do jardim do Largo Martins Sarmento, que espera pelo dia em que regressará ao Toural.
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13 de maio de 2005

A Oliveira

A oliveira faz parte da iconografia vimaranense, estando presente nas suas tradições e no seu imaginário. Está presente no brasão da cidade e dá o nome à sua praça mais emblemática, à Colegiada e à própria Santa Maria.

Conta-se que a oliveira de Guimarães teria vindo, no início do século XIV, do antigo mosteiro de S. Torcato, onde produzia azeite para a lâmpada do santo. Plantada na Praça Maior, junto à Colegiada, acabaria por secar. Aí se conservou várias décadas, sem sinais de vida. A tradição atribui-lhe inúmeros milagres, incluindo o do seu próprio renascimento.

Em 1342, o negociante Pero Esteves mandou colocar na praça uma cruz trazida da Normandia (a do Padrão de Nossa Senhora da Vitória), que foi implantada ao lado da oliveira ressequida. Não passariam três dias sem que a oliveira começasse a enverdecer e a deitar ramos. Era o primeiro milagre, dos muitos que se sucederiam nos meses seguintes: três mudos começaram a falar, um surdo voltou a ouvir, vinte e três cegos puderam ver, quatro paralíticos mexeram mãos e braços, onze endemoninhados viram-se livres das possessões que os atormentavam.

Aqueles eram tempos difíceis, frequentemente assolados pela fome, pela peste e pela guerra. Correu mundo a fama da oliveira através da qual Santa Maria operava milagres. A Senhora da Oliveira passou a ser objecto de devoção de gente humilde e de poderosos. Os próprios reis se fizeram seus devotos.

Não será hoje muito relevante o facto de, à luz da História e das tradições, subsistirem fundadas dúvidas acerca das memórias que envolvem a oliveira de Guimarães. Não é seguro que a Senhora tivesse tomado dela o nome, uma vez que também se conta que a imagem de madeira da Senhora da Oliveira teria sido, originalmente, uma representação de Ceres, deusa romana que teria um templo numa praça de Guimarães. S. Tiago cristianizou-a sob o nome de Santa Maria de Guimarães (a tal praça é a que hoje tem o nome daquele apóstolo). Quando, no século V, os suevos invadiram a Galiza, a imagem terá sido enterrada no Monte da Oliveira (ou das Oliveiras). Descoberta no tempo de Mumadona, passaria a ser conhecida pelo título de Senhora da Oliveira, que lhe veio do local onde esteve escondida.

Os documentos também não confirmam a sua velhice. Na década de 1820, secou, por obra dos vizinhos, que se queixavam dos incómodos causados por árvore tão frondosa nas imediações das suas casas. Tendo aparecido tombada no chão, foi novamente plantada. Desta vez, não houve milagre. Uma nova oliveira tomou o seu lugar em 1824.

No Outono de 1869, a Câmara Municipal decidiu que a Oliveira deveria ser removida para um ponto da praça onde não perturbasse o trânsito. O Cabido da Colegiada foi consultado sobre a ideia de a levar para o espaço entre o Passo do Postigo da Guia e a parede do claustro encostada à Capela de S. Brás. O assunto levantou acesa discussão na cidade. Na madrugada de 17 de Janeiro de 1872, a oliveira foi serrada e o polígono de pedra que a cercava foi demolido (o mestre pedreiro que dirigiu esta operação viria a falecer alguns dias depois, sendo a causa da morte atribuída pelo povo a castigo da Senhora da Oliveira).

Em finais de 1875, a Câmara levou a hasta pública o que restava da oliveira e da grade que a rodeara. O arrematante colocou-a no tanque que estava encostado à torre da Colegiada, na esperança de que reverdejasse. Mais uma vez, não houve milagre.

Durante mais de um século, faltaria a oliveira na praça que lhe tomou o nome. A requalificação da Praça da Oliveira, no âmbito do processo de recuperação do Centro Histórico, permitiu que a cidade se reencontrasse com um dos seus símbolos.

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