14 de dezembro de 2001

Celebrar o Património, com o olhar no futuro

De há alguns anos a esta parte, Guimarães tornou-se num caso de estudo internacional. Um adjectivo tem sido repetido vezes sem conta para classificar a intervenção urbanística no Centro Histórico de Guimarães: exemplar. O esforço desenvolvido foi agora consagrado com a integração do centro Histórico no roteiro da UNESCO dos sítios classificados como património da humanidade. Pelo cabedal de prestígio histórico e cultural de Guimarães, agora consolidado internacionalmente por um organismo da Organização das Nações Unidas, e pelo seu indiscutível vínculo às origens da nacionalidade portuguesa, esta terra tem o direito de assumir a condição simbólica de capital histórica de Portugal.

O nascimento da consciência patrimonial vimaranense remete-nos para o último quartel do século XIX, com as intervenções dos homens que viriam a criar a Sociedade Martins Sarmento. Data dessa época a primeira intervenção de restauro que encontrámos documentada em Guimarães: as obras de recuperação da igreja de S. Miguel do Castelo, dirigidas por Martins Sarmento, que seriam objecto de reconhecimento nacional. Ao longo do tempo, os modelos a que obedeceram os restauros de património sempre estiveram sujeitos a modas, algumas das quais responsáveis por soluções que hoje se consideram lastimáveis, de que são exemplo as intervenções no miolo urbano de Guimarães e na colina do Castelo quando, em meados do século XX, se procedeu à abertura de grandes espaços, através da demolição do velho casario: com entulho das casas arrasadas, foi sepultada uma boa parte da memória da cidade. Nas intervenções agora distinguidas, também não foi seguido o modelo adoptado, em tempos mais recentes, com a construção da Pousada de Santa Maria da Oliveira, de que resultou um edifício fingido, moderno mas a imitar a traça do casario do velho burgo.

A requalificação urbana do Centro Histórico de Guimarães conduziu à recuperação do património degradado, preservando as marcas do tempo e harmonizando o novo com o velho. Nunca houve a ilusão de se estar perante uma tentativa de recriação da feição urbana vimaranense dos finais da Idade Média, onde necessariamente haveriam de ressurgir as casas cobertas de colmo, expostas às agruras das intempéries, e ruas e vielas pestilentas, muitas vezes transformadas em chiqueiros por onde cirandavam cães, galinhas e porcos, num tempo em que não existia abastecimento público de água potável nem sistema de saneamento, onde os despejos de imundícies domésticas eram feitos directamente para a via pública, com recurso ao ritual matinal da água vai. Uma cidade onde hoje ninguém quereria viver.

Em boa verdade, aquilo que em Guimarães tem sido feito é muito mais do que uma operação de restauro: em muitas das intervenções, procedeu-se à construção de património novo, com respeito pelas rugas que o tempo tem acentuado nas velhas casas, sem se cair em propensões museológicas. Nas últimas décadas, as intervenções no Centro Histórico, coordenadas pelo GTL, obedeceram a conceitos diferentes e inovadores. O que se construiu de novo, surgiu com a intenção de preservar e valorizar o antigo. Os arranjos das velhas praças encontraram soluções que contribuíram para cimentar a ideia de unidade orgânica da estrutura urbana do velho burgo vimaranense, permitindo que o centro cívico da cidade fosse regressando para a velha Praça Maior e para a Praça de S. Tiago. Entretanto, as casas continuaram habitadas pelos seus moradores de sempre, e Guimarães não padeceu de um dos problemas que têm conduzido à agonia muitas das cidades contemporâneas: a desertificação dos centros.

Cada uma das pedras da velha vila de Guimarães é um repositório da memória da gente que por aqui passaram no transcurso do tempo. As casas, as praças, as ruas, as vielas ocultam as histórias de vida dos homens e das mulheres que as povoaram, e que, de geração em geração, foram erigindo o património que nós recebemos como herança: os edifícios, a estrutura urbana, mas também a história, as tradições, a gastronomia, (desde o pão até ao vinho, passando pelos doces manjares das freiras de Santa Clara), o artesanato, as festas populares, as manifestações da religiosidade.

Em tempos onde conceitos como globalização, mundialização e massificação cultural estão cada vez mais presentes no quotidiano, e onde é manifesta a tendência para o esmagamento dos traços de identidade locais e regionais, é ainda possível encontrar na cultura ancestral vimaranense respostas que poderão conduzir a soluções inovadoras, capazes de mobilizarem as gentes da terra, além de gerarem novas oportunidades de emprego e de se constituírem em factores de atracção turística. Para tal será necessário fazer, ao nível da cultura imaterial, algo de semelhante ao que se fez na recuperação arquitectónica do centro histórico (embora com custos económicos infinitamente menores): evitar que a erosão dos tempos continue a exercer o seu efeito de desgaste sobre a cultura tradicional, recuperando o que houver interesse em recuperar e introduzindo as adaptações que os tempos que correm justificarem. Festividades como as Nicolinas, a Santa Luzia das passarinhas e dos sardões, o Carnaval, os Santos Populares, com algum esforço de investigação histórica e etnográfica e o correspondente investimento organizativo e promocional, podem tornar-se em momentos em que a cidade, para lá do tempo das Gualterianas, salvaguarde a sua matriz cultural e se afirme como pólo de atracção de fluxos turísticos.

Não conheço nenhuma outra terra cujas gentes tenham uma relação tão especial com a sua história, que aqui é frequentemente motivo de paixões arrebatadas. Um dos reptos lançados pela nova condição de Guimarães constitui um chamamento para o investimento no estudo e divulgação, especialmente entre as gerações mais novas, das nossas raízes históricas e culturais. Já não nos deve bastar que a cidade viva à sombra das suas glórias passadas, da sua história. Guimarães tem hoje espaço e massa crítica para o lançamento de projectos de investigação inovadores em áreas como a História e a Antropologia, que contribuam para a valorização do património colectivo e para que se dê alimento ao crescente do interesse pelo conhecimento da realidade vimaranense, potenciado pela classificação da UNESCO. Olhando para o futuro, impõe-se assegurar que as nossas gentes não deixem quebrar os laços com a herança do seu passado.

Com o novo estatuto mundial, faz-se agora notar com maior nitidez a ausência de um Museu de História da Cidade em Guimarães. Ao contrário do projecto de criação do museu dedicado a D. Afonso Henriques, que cada vez mais se constitui como uma utopia, este Museu tem asseguradas as condições de exequibilidade. Antes de mais, porque não há falta de espólio e porque não exige grande investimento material. Há alguns anos, a Sociedade Martins Sarmento sugeriu à Câmara Municipal a sua instalação no Largo da Oliveira, na antiga casa da Câmara, dando conta da sua disponibilidade para a cedência do acervo relacionado com a história de Guimarães que tem à sua guarda. Tal Museu poderia funcionar como um centro explicativo da cidade património mundial. A passagem dos cento e cinquenta anos sobre a data da elevação de Guimarães a cidade (em 2003) seria um excelente momento para a concretização de um tal projecto.

O título de Património Cultural da Humanidade constitui um justo reconhecimento de um trabalho de recuperação e conservação modelar, que honra Guimarães e as suas gentes, e em particular os responsáveis técnicos e políticos que ao longo de mais de uma década deram corpo a uma ideia que alguns, demasiado cedo, classificaram quase como um devaneio delirante. Os obreiros deste triunfo já têm lugar reservado nos anais da história vimaranense. A hora é de júbilo e celebração, mas sempre com a consciência de que tamanha honra constitui um importante compromisso para o futuro, propiciando a concretização de novos projectos e a resposta a novos desafios.

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21 de outubro de 2001

Trinta anos de reconstituições de paróquias


Nos finais dos anos cinquenta do último século, a comunidade científica despertava o seu interesse para o conhecimento dos mecanismos de funcionamento das populações do passado, com a divulgação dos resultados das primeiras reconstituições de família francesas. Inspirada por esses trabalhos, por essa altura, Virgínia Rau propôs ao Centro de Estudos Históricos da Faculdade de Letras de Lisboa um programa para a investigação demográfica portuguesa, que tinha como objectivo a recolha sistemática dos elementos fornecidos pelos registos paroquiais de Lisboa durante o século XVIII, organizando um ficheiro dos assentos dos três tipos de registos: nascimentos casamentos e óbitos.
Maria de Lurdes Akola Neto, a primeira investigadora portuguesa a divulgar resultados de estudos de demografia histórica baseados no tratamento dos registos paroquiais, constituiu um ficheiro com quase dez mil fichas de actos vitais registados na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, cobrindo o primeiro quartel do século XVIII. Dos conclusões apresentadas, começa a alicerçar-se uma certeza inquietante: em Portugal, não era possível a reconstituição de famílias.
Nas outras Faculdades de Letras, ao longo dos anos sessenta e setenta, foram-se lançando projectos de pesquisa em Demografia Histórica que visavam a reconstituição de famílias, com base na metodologia criada por Fleury e Henry para o estudo da fecundidade legítima das populações francesas do passado. De milhares de horas de trabalho de arquivo, em grande parte realizado por jovens estudantes das licenciaturas em História, resultaram enormes acervos de fichas de actos de baptismos, casamentos e óbitos cujo cruzamento ninguém se revelava capaz de concretizar. Desses ficheiros, o mais que se produziram foram uns quantos estudos de natureza agregativa. Mas nada de famílias reconstituídas.
O principal entrave à concretização das intenções mais ambiciosas de tais projectos residia na natureza das fontes paroquiais portuguesas e no modo muito peculiar como entre nós eram transmitidos os sobrenomes familiares. A metodologia de Fleury-Henry alicerçava-se da regularidade da passagem dos nomes de família de geração para geração. Porém, em Portugal, a norma é a absoluta ausência de regras nesta matéria, como Norberta Amorim constatava, no início da década de 1970, ao escrever que um pai que assina Pires, pode ter um filho que se chame Fernandes e outro Esteves, por exemplo, herdando estes apelidos da mãe, avós e até padrinhos.
Encontrado o nó da meada, a autora iniciou um tentativa de reformulação das bases metodológicas da investigação em Demografia Histórica, adequando-as às especificidades das fontes portuguesas e introduzindo um conjunto de procedimentos simples, intuitivos e comprovadamente eficazes, que irão permitir a reconstituição de famílias em horizontes espaciais e temporais alargados. As famílias passaram a ser indexadas não pelo sobrenome do pai, mas pelo seu nome próprio (aquele que é imutável e que acompanhava os percursos de vida daqueles homens desde o baptismo até à sepultura). Uma outra inovação frutuosa resultou do abandono da recolha dos registos de baptismo em fichas individuais para posterior cruzamento, que resultava no registo de informação redundante sempre que um mesmo casal tinha mais do que um filho. Foi assim que surgiram os ficheiros constituídos por folhas de papel cavalinho unidas por argolas, que são a imagem de marca do método criado por Norberta Amorim. Neles, as famílias começavam a ser reconstituídas logo no processo de levantamento da informação no Arquivo, a partir dos registos de baptismo, com um significativo ganho de tempo, eficiência e rigor nos resultados finais.
Este conjunto de técnicas de pesquisa e de tratamento de informação, depois baptizado de Metodologia de Reconstituição de Paróquias, lançou as suas bases a partir do esforço inicial de uma investigadora isolada, foi ganhando aderentes (hoje contam-se por dezenas os investigadores que baseiam as suas pesquisas nesta metodologia), vencendo resistências, conquistando o reconhecimento e marcando presença sistemática em publicações e encontros científicos nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, esta metodologia revelou grande capacidade de adaptação ao acelerado processo de transformação que atinge a pesquisa científica nos tempos que correm, abrindo-se à inovação e aproveitando os recursos disponibilizados pelas novas tecnologias da informação, socorrendo-se das contribuições dos especialistas em informática da Universidade do Minho.
O Núcleo de Estudos de População e Sociedade, com as suas iniciativas, a produção dos seus investigadores e as suas linhas de publicações, insere-se num percurso cujos primeiros passos se deram nos idos de 1971, com o estudo demográfico de Norberta Amorim sobre Rebordãos e a sua população nos séculos XVII e XVIII. Passam agora trinta anos.
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29 de julho de 2001

A População de Guimarães no séc. XVI

O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, O Velho
A aproximação ao conhecimento do estado da população de Guimarães para períodos anteriores ao século XVII é um exercício complicado. As fontes primárias com que trabalha a Demografia Histórica para construir as suas estatísticas - os registos paroquiais de nascimentos, casamentos e óbitos - ou são muito lacunares ou, simplesmente, não existem. E é esta última situação a que mais ocorre, não sendo possível para tempos recuados, a não ser em situações muito concretas e localizadas, o emprego de qualquer metodologia que permita construção de bases estatísticas objectivas e credíveis.
Vale-nos D. João III que mandou fazer o primeiro levantamento sistemático da população portuguesa, o “Numeramento de 1527”. Pretendia o rei saber, em relação a cada povoação do território português, “quantos moradores há no corpo da cidade ou vila e arrabaldes e quantos no termo declarando quantas aldeias há no dito termo por seus nomes e quantos moradores há em cada uma delas e assim quantos vivem fora delas em quintas, casais e herdades” (FREIRE 1905:245). Em Guimarães, o processo de recolha de dados tropeçaria na extravagância arrogante de D. Jaime, Duque de Bragança, que, fazendo valer as suas prerrogativas senhoriais, desafiou a autoridade real e impediu que o escrivão enviado pelo Corregedor da Comarca procedesse ao arrolamento da população. Apenas quatro anos depois, entre Outubro e Novembro de 1531, se faria a contagem, da qual se incumbiram as autoridades locais.
Guimarães foi então descrita como uma vila “muito bem cercada de muros e torres fortes de cantaria”, com um castelo “muito forte” e “grandes arrabaldes” (FREIRE 1905:271). A população do núcleo urbano (incluindo os arrabaldes - rua de Gatos, Toural, rua Nova das Oliveiras, Molianas, rua de Couros, Campo da Feira, Salvador e Santa Luzia), distribuía-se por 1405 fogos, a que corresponderiam aproximadamente seis mil habitantes. Com esta dimensão, Guimarães era o segundo maior centro urbano da região de Entre Douro e Minho, dando razão a João de Barros que, por aquela época, descreveria a vila de Guimarães como uma “das quatro melhores do Reino” (BARROS 15_ _:70). Naquele tempo, a Norte do Rio Douro, o contingente populacional de Guimarães apenas era superado no Porto; até à linha do Tejo, só Santarém e Lisboa eram habitadas por mais gente. Na mesma altura, a população de Braga era pouco mais de metade da de Guimarães, que se destacava por uma vida urbana intensa e florescente.
O termo de Guimarães estendia-se por um pouco mais de uma centena de freguesias, uma boa parte das quais hoje extintas ou integradas nos concelhos limítrofes; parte das paróquias inventariadas no “Numeramento” revelam-se de identificação muito problemática. Da análise dos resultados deste censo resulta que a principal marca da ocupação humana do território vimaranense era a dispersão da população: no “Título do Numeramento” de 1527, dá-se conta de que “não há no termo desta vila nenhum lugar nem aldeia junta, somente por casais e quintas apartados uns dos outros vivem os moradores das freguesias”. Nenhuma das freguesias rurais de Guimarães albergava mais do que uma centena de fogos. Em média o número de habitantes de cada uma das paróquias do termo rondava a centena e meia de almas. Ao todo, contaram-se 3552 fogos disseminados pelo espaço rural vimaranense, o que permite calcular uma população rural de aproximadamente quinze mil habitantes (FREIRE 1905:271-2).
Só por aproximação será possível medir a densidade populacional de Guimarães no século XVI, uma vez que não estão claros quais seriam os exactos limites da sua circunscrição territorial no período quinhentista. A traço grosso, em presença dos dados disponíveis, parece seguro poder avançar-se que a zona urbana deveria albergar uma população que não andaria longe de 200 hab./km2, para o termo rural esse valor deveria aproximar-se dos 40 hab./km2, enquanto que, para todo o território concelhio, a ocupação do território deveria corresponder a um pouco mais de 55 hab./km2. Estes valores colocavam Guimarães como o concelho português com mais elevada densidade populacional aquando do “Numeramento” de D. João III.
No início do século XVI, Mestre António físico e cirurgião, de Guimarães, escreveu um “Tratado sobre a provincia dentre Douro y Minho e suas auondanças” (RIBEIRO 1959), onde descreveu a região onde se situa Guimarães como uma horta onde “nunca houve fome segundo perfeitamente vemos e ouvimos dizer que houve em outras muitas partes por que em outras partes falecendo o trigo não têm as gentes outras coisas a que se socorrer e nesta comarca posto que faleça o trigo, não falece o centeio, nem o milho, nem o painço, nem o orjo [cevada], nem os legumes [...] e todas maneiras de verduras que se possam nomear, e todas as maneiras de frutas” (RIBEIRO 1959:448). Com uma tal prodigalidade de meios de sustento à sua disposição, aqui encontravam os homens as condições mais propícias para se reproduzirem e alcançarem uma longevidade lendária. Nesta região, segundo o Mestre António (RIBEIRO 1959:457), as mulheres davam à luz até aos 50 anos de idade, parindo (e vingando) vinte criaturas, enquanto que, nos outros lugares, não nasceriam mais que dez...
É hoje claro que esta região do Minho revelava, ao longo do Antigo Regime, uma grande vitalidade demográfica, resultante das excepcionais condições de sobrevivência que oferecia às suas gentes. Todavia, a descrição que dela faz o cirurgião vimaranense (que será repetida por todos os monógrafos que escreveram sobre estas terras até ao século XIX) está carregada de exagero. Não é verdade, por exemplo, que aqui nunca houvesse fome.
Apesar da benignidade da terra, as gentes de Guimarães viveram, ao longo de todo o século XVI, atormentadas pelo medo de um flagelo aterrador, em relação ao qual não dispunham de quaisquer meios de defesa eficazes: a peste.
Entre os homens de quinhentos perdurou memória da peste que o Padre Torquato Peixoto de Azevedo situa no ano de 1489, e que esteve na origem da procissão da “Candeia” ou do “Rolo”: naquela ocasião, para tentar aplacar a peste, o Cabido e a Câmara fizeram uma cortejo que cercou a vila com um rolo de cera branca, depois conduzido em oferenda ao Espírito Santo. Esta procissão, que saía às ruas na véspera do domingo do Espírito Santo, durou até ao ano de 1866 (GUIMARÃES 1906:54).
A primeira grande epidemia de quinhentos, lavrou entre os anos de 1507 e 1509. Naquele momento, o único remédio foi a fuga das gentes: a vila ficou tão despovoada, “que dentro dela não ficou coisa vivente”. Uma grande parte da população da vila recolheu-se na encosta do monte de Santa Catarina, no terreno onde foi erigida a ermida a S. Roque (um dos santos protectores contra a peste), cujo espaço ficou pejado de sepulturas de vítimas da “pestelença”. Quando já não havia risco de contágio, e antes de regressarem a suas casas, os homens de Guimarães lançaram nas ruas da vila, por alguns dias, o gado que encontraram nos arredores, para que “com o seu bafo sanassem as partes infeccionadas” (AZEVEDO 1692:352).
No ano de 1531, pairou novamente sobre Guimarães a ameaça da peste, com a chegada de notícias que anunciavam que dizimava as gentes da Galiza, por onde entrava em Portugal. Fosse pelas medidas tomadas pelas autoridades locais, fosse por qualquer outra razão, este surto não terá alcançado terras de Guimarães (GUIMARÃES 1906:55).
Em 1574 grassou a fome em Guimarães, a qual se prolongou pelo ano seguinte, altura em que, entre Abril e Agosto, Guimarães terá sido atingida por uma peste particularmente virulenta, a qual, segundo o relato do jurisconsulto Manuel Barbosa (AZEVEDO 1692:353), terá fulminado sete mil pessoas do concelho de Guimarães.
Vinte anos depois, eclodiu um novo surto de peste. Nas casas dos empestados foram colocados guardas, que impediam qualquer contacto susceptível de propagar o contágio. O mesmo se fez nas portas da vila. Os que ficaram, vestiram-se de bocaxim e queimaram “muitos perfumes”, cuidando que assim se poderiam livrar da pestilência (AZEVEDO 1692:353). Por esta vez, a peste não terá causado grandes danos.
O século não terminaria sem que Guimarães fosse atingida por uma grande epidemia, a última crise de mortalidade catastrófica assinalada por estas terras. Por longo tempo, 1599 seria conhecido como “o ano da peste”. Atemorizada, toda a gente que pôde fugiu para fora de portas. No monte de Santa Catarina foi criada uma “Casa de Saúde”. Não há meios para contabilizar quantos terão sido os que morreram nesta peste. Com os registos disponíveis nas freguesias de S. Sebastião e Azurém, Norberta Amorim pôde contar mais de quatro centenas de mortos aquando desta epidemia, o que corresponderia a cerca de um terço do total da população de ambas as paróquias (AMORIM 1987:287).
Mais uma vez, era a inclemência da morte exercendo o seu ofício de regulador do equilíbrio da população.

BIBLIOGRAFIA
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1987 Guimarães de 1580 a 1819. Estudo Demográfico., Lisboa, INIC.
AZEVEDO, Padre Torquato Peixoto de
1692 Memórias ressuscitadas da Antiga Guimarães.
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15_ _ Geographia d’entre Douro e Minho e Trá-os-Montes, Colecção de Manuscritos Inéditos, Porto, Biblioteca Municipal do Porto, 1919.
BRAGA, Alberto Vieira
1927 Curiosidades de Guimarães. Mulheres, Jogo, Festas e Luxo. Separata da Revista de Guimarães, Guimarães, Tip. Minerva Vimaranense.
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1953 Administração Seiscentista do Município Vimaranense, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães.
COSTA, Padre António Carvalho da
1868 Corografia Portuguesa e Descripçam Topográfica. Braga: D. Gouveia (2ª ed.; I I ed. 1706-1712).
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1726 Memórias ressuscitadas da Provínciua de Entre Douro e Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda, Ponte de Lima, 1992.
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1990 “Guimarães”, in Atlas de Cidades Medievais Portuguesas, INIC, Lisboa.
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1905 “Povoação de Entre Doiro e Minho no XVI século”, Archivo Historico Portuguez, Vol. III, ano de 1905, Lisboa.
GUIMARÃES, João Gomes de Oliveira
1906/7 “As epidemias em Guimarães”, Revista de Guimarães, vols. 23 e 24, Guimarães.
LIMA, D. Luís Caetano de
1736 Geografia Histórica de Portugal, 1º volume, Lisboa.
LOBO, A. De Sousa Silva Costa,
1903 História da sociedade em Portugal no século XV, Imprensa Nacional, Lisboa
MEIRA, João Monteiro de
1907 O Concelho de Guimarães, Porto.
RIBEIRO, Luciano
1959 “Uma descrição de Entre Douro e Minho por Mestre António”, Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. XXII, Fascs. 3-4.
SERRÃO, José Vicente
1993 “O quadro humano”, História de Portugal, vol. IV. Lisboa: Circulo dos Leitores.
SILVA, L. A. Rebello da
1868 Memória Sobre a População e a Agricultura de Portugal. Lisboa.

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1 de janeiro de 2001

Memória descritiva da fonte do Toural


FONTE MONUMENTO

Memória descritiva do ante-projecto


O critério por nós seguido levou-nos à adopção de formas simples, ricas de expressão e valor decorativo, de modo a conseguir um simbolismo que a História de Guimarães aconselhava e o nosso respeito por essa História e tradição nos impunha.

Os elementos preponderantes, na sua composição, são:

Obelisco – como padrão comemorativo, sugerindo na sua forma um montante.

Estátua – como nota amável, simbolizando a vitória ou independência.

Estes elementos nascem de uma grande taça elevada, circundada pela forma forte e sóbria dos escudos. A este conjunto pretendeu dar-se um equilíbrio de composição tal, que exprima a riqueza de verdadeiro «Ex-libris» da cidade, o que julgámos ter conseguido. A água e o granito, como elementos primários, dão-nos a origem; os escudos, a evolução. Na face posterior do obelisco serão aplicadas as Armas da Cidade, em bronze, com a seguinte legenda: «Mil anos gloriosos se passaram».

Todos estes elementos ficam desligados do terreno por um espelho de água cujo nível lhe é levemente superior e com um diâmetro aproximado de 7 metros. Tem como defesa, uma colorida faixa de verdura perfazendo 10,40m, medida essa existente actualmente no canteiro central onde será implantada a Fonte. A sua altura perfaz aproximadamente, na sua totalidade, 7 metros, sendo esta aconselhada pelo corte transversal da Praça e pelo seu volume. Por se tratar de uma Praça aberta, pareceu-nos que isso nos impunha uma assimetria, e assim, descentrámos o Obelisco e colocámos à sua frente a figura decorativa, orientando este conjunto nesse sentido.

Os materiais naturalmente indicados na sua realização, são: o granito da região e o bronze na parte escultórica.

Na composição onde a sobriedade domina, teve-se em vista conseguir, não uma simples fonte decorativa, decerto aprazível em qualquer «Clima», mas sim, uma Fonte que simbolizasse Guimarães e para implantar num local que para os Vimaranenses é, em nosso entender, ponto de recepção e passeio. Assim, ela virá ajudar a determinar com clareza o carácter que essa Praça poderá vir a ter como Rossio da Cidade, quando forem considerados os problemas de estacionamento de táxis, arborização, etc.

Na construção da fonte utilizar-se-á as duas cores do granito da região, numa valorização de formas arquitectónicas, prevendo-se o granito de grão azul na construção das taças e obelisco e para os escudos, o granito de tom ocre. Assim teremos uma aplicação coerente com a densidade de tons.

Na primeira taça, ao nível do solo, será aplicado azulejo, permitindo à água maior transparência.

A figura deverá, na sua interpretação, concretizar totalmente o espírito que o autor do projecto lhe determinou dentro do conjunto por ele concebido.

Os jogos de água previstos para complemento decorativo serão compostos por jactos verticais na face posterior do obelisco, formando cortina, e, a ladear a figura, pequenos mas abundantes jactos formando cachoeira.

Jactos horizontais saindo da taça superior por bocais apropriados de latão, ao nível inferior dos escudos e nos seus intervalos, ligarão esta à inferior que fica ao nível do solo.

Além disto, a água esbordante da primeira taça tomará o caminho dos intervalos deixados pelos escudos no seu nível superior, humedecendo todo o seu fundo, pondo-os assim em destaque.

Todas as águas, quer as recebidas por escoamento, quer as brotantes dos jactos serão na taça inferior recolhidas totalmente e daí conduzidas para um depósito subterrâneo com a capacidade de 12m3.

Quanto à iluminação teremos: na primeira taça 8 focos luminosos e coloridos, permitindo à água não só efeitos de cor mas também maior transparência; na taça superior 3 projectores iluminarão os jactos verticais colocados na face posterior do obelisco e mais 4 incidem nas outras duas faces laterais do referido obelisco, de tal forma que, permita à figura recortar-se claramente sobre este elemento iluminado.

Acresce ainda que as características da fonte estão também de harmonia com a alegoria do mosaico aplicado no actual pavimento. Este mosaico com carácter nitidamente português é sempre belo, sendo absolutamente lógico o seu aproveitamento. E por isso o disco sobre o qual assenta o obelisco levará gravado como inscrição as datas das batalhas que se acham assinaladas nos passeios laterais da Praça. Assim, teremos ainda uma maior ligação com o ambiente envolvente.

Dado o simbolismo da fonte, parece-nos que a sua inauguração se integraria perfeitamente no programa das Festas Milenária e Centenária a celebrar em Junho pela Cidade, como Padrão Comemorativo.

Ficamos cientes de que esta descrição, assim como os elementos que a acompanham, são suficientes para elucidar a Ex.ma Câmara e o público.

O Arquitecto,

J. Sequeira Braga.
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