Impressões duma noitada nicolina, pelo 'vimaranófilo' Manuel de Boaventura


Manuel de Boaventura (1885-1973)
O escritor Manuel de Boaventura nasceu em 1885, numa família abastada da freguesia de Vila Chã, do concelho de Esposende. Perdeu a mãe quando tinha sete anos e passou a viver com a família de um tio que foi professor no Magistério Primário de Leiria e na Escola Normal do Porto. Foi em Leiria que completou a instrução primária. Em 1899, por escolha do seu pai, também ele professor, ingressou no Seminário-Liceu de Guimarães, para iniciar os estudos do ensino secundário. Vinha para a “Meca da ciência haurir os primeiros sorvos da cultura, ministrado por mestres eminentes, com fama de sábios por toda a Região”. A sua permanência em Guimarães não se alongou por muito tempo (em ano de 1903 completou o curso do Magistério, em Leiria), mas a memória do tempo em que foi estudante em Guimarães perdurou por toda a sua vida, como o recordará 60 anos mais tarde, no ano em que o Liceu de Guimarães se despediu do velho convento de Santa Clara.
Em 1959, o programa das festas dos “velhos nicolinos” foi particularmente preenchido. Manuel de Boaventura, já então com 74 anos de idade, participou nos festejos. Na ceia que se realizou no restaurante Jordão, teve uma intervenção em que relembrou o Cónego José Maria Gomes.
Naquela mesma noite, Manuel de Boaventura escreveu um texto em que registou a memória da sua breve passagem por Guimarães, no tempo de estudante em que se fez nicolino, e as “impressões do momento” daquele ruidoso 29 de Novembro de 1959. Um texto que é uma declaração de amor a Guimarães, que iguala “os carinhos familiares” que dispensava “ao terrunho nativo” e se declara vimaranófilo.

Há sessenta anos — vai neles...
(impressões do momento)
Os “velhos de Guimarães” reuniram em assembleia magna, num simpósio barulhento, com azabumbantes ruídos de bombos e tambores, numa trovoada do dies irae —um pandemónio infernal!
Os “velhos” — não! Os antigos meninos, senhores de alma remoçada e jovial, que vieram aqui reviver a mocidade do há 60 e 70 anos, com entusiasmo igual — se não ultrapassar! — o dos novos e novíssimos de agora!
Eu sou dos do fim do século! Nos primeiros dias de Outubro de 1899 — como isso vai longe! — entrei os umbrais de Santa Clara — a desbravar a rusticidade do aldeão, que, dos “fins do mundo”, das “praias do mar salgado”, vinha à Meca da ciência haurir os primeiros sorvos da cultura, ministrado por mestres eminentes, com fama de sábios por toda a Região.
Sessenta anos a passar — vai neles!... e não se obliterou do meu espírito a sensação que então recebi, ao entrar nos segredos do “hora-horae” e do “qui-quae-quod”, no famoso estabelecimento de ensino, onda pontificavam os cónegos.
Dizia-se, in illo tempore, que os melhores Mestres, do quantos havia, eram os do Guimarães. E meu Pai deixou-se influenciar, pela voz que corria no povo, e aqui trouxe, a desbastar e a afeiçoar ao correntio quotidiano, o seu primogénito, que é este vosso criado.
Ter sido do velho Seminário-Liceu de Guimarães, era e ainda é, honraria disputada.
— “Sou da velha guarda! Frequentei Guimarães!”.
— “Ora! oral — diziam certos privados da honraria — um liceu de dois ciclos, apenas...”.
Prestes acodem os vimaranófilos;
— “Que valem pelos três, dos outros liceus...”
Bons eram os Mestres! Mas o educando nadava nas ondas deleitosas da cábula; e, como se vê' pelo presento documento, envergonha os Mestres eminentes, que só o puderam aquelar* a... pico-grosso.
Foi efémera a minha passagem por Guimarães; tuas a simpatia, estima e amor por tudo quanto diz respeito a esta vetusta e airosa cidade, são semelhantes e igualam os carinhos familiares, que dispenso ao terrunho nativo.
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Mercê das minhas andanças, por franças e araganças, é a primeira vez que assisto a este magno, ruidoso e acolhedor simpósio, de quase meio milhar de comparticipantes — a viver, em curtas horas, na auras alvissareiras da mocidade distante, que persistem em aflorar dos escaninhos da Alma, e a manifestarem, em alacres “olalás”, concordância com a trovoada ensurdecedora dos bombos e caixas de rufo.
O que eu perdi, no programa da alegria de viver! Acordei tarde, é o que é...
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Simpatiquíssimo e familiar o acolhimento no Liceu, por parto do ilustre Reitor e distintos Professores, quo continuam depositários do bom nome tradicional.
O prestigioso nicolino amarantino. Dr. Balbino de Carvalho, na sua palavra quente e aliciante, disse nos Mestres do nosso regozijo, por ali nos encontrarmos; e com palavras, não menos eloquentes, encorajou-nos para que todos cumprissem, com hombridade e boa disposição, o resto do programa simpósio, e, em especial, na catacumha do cenáculo…
Ruidosamente todos conclamaram:
— Amém! — com música wagneriana de bombos e tambores...
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A missa nocturna e u procissão de S. Nicolau dentro da colegiada, deixou-me agradabilíssima impressão, por inédita. Não perderei da memória o quadro de tintas vivas, de tão simpática cerimónia.
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E a ceia confraternizante, no amplo e acolhedor cenáculo do Jordão, com rapazes que vim já de século passado, o cavalgar o tempo — foi tão ruidosa, tão plena de alacridade, — enformou-a tal alegria de viver, que não serio os moços de hoje, capazes de ultrapassar, — em vivência, espírito de clã e humorismo, os velhos nicolinos, que numa trégua de vida séria, aqui se puseram a reviver o passado de alegrias e descuidos, ruflando tambores e azabumbando bombos até lhes rebentarem as peles!
Eia, Dionisos!... Viva a alegria!
E se a vida pudesse ser sempre assim, alegre e descuidada!...
As Festas Nicolinas são privilégio de Guimarães. A não ser a Queima das Fitas, pelas Universidades, nenhuma outra terra deste País de romarias sabe tirar partido tão original dos festivos académicos. A tradição das Nicolinas é centenária a perdurará.
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Pela primeira vez, marquei aqui a minha presença; não faltarei a outras que se realizem, porque — recordar é viver, e eu quero, ainda, viver!
Ser “dos de Guimarães” é honraria disputada e enobrecedora. Por isso:
— 29 de Novembro de 1960! — Presente! Aqui estarei...
Noitada Nicolina, em Guimarães, 29-11-59,
Manuel de Boaventura.
Notícias de Guimarães, 6 de Dezembro de 1959
*Aquelar: arranjar; atinar com.

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