Decifração duma fotografia

Fotografia disponibilizada por José Abílio Coelho.

Há dias, quando vi pela primeira vez a fotografia que aqui vai, gentilmente disponibilizada por José Abílio Coelho, repetiu-se o que algumas vezes me acontece: uma sensação de já visto, mesclada com alguma estranheza. A construção que aparece por trás do homem da bicicleta (num tempo em que, entre nós, a bicicleta ainda era um meio de transporte) conheço-o bem: é um dos Passos da Paixão de Guimarães (faltava saber qual deles). As bicas florais do fontanário onde as rapariguinhas enchiam cântaros de água não me eram estranhas, mas a inscrição truncada que aparecia por cima não ajudava muito à identificação do local. Porém, o que me causava maior estranheza era o edifício que dominava o enquadramento: não o reconhecia na Guimarães que conheço, embora as curvaturas centrais da sua cornija não me fossem completamente estranhas.
Afinal, não havia grande mistério. Observando mais de perto os remates de pedra lavrada que encimam o espaldar de pedra da fonte, logo se percebe que se trata do tanque do Campo da Feira (o que mais perturbava a identificação era a inscrição incompleta, hoje desaparecida, onde, acrescentando letras que lhe faltam, se consegue ler 'Câmara Municipal' e o número '57', a que provavelmente faltavam os dois algarismos iniciais que dariam 1857, data em que o novo tanque do Campo da Feira terá começado a funcionar, já que a adjudicação da sua construção aconteceu no início de Setembro do ano anterior). O tanque está hoje no mesmo recanto do Campo da Feira para onde foi remetido o monumento do Conde de Arnoso, tendo o lavadouro público nas suas costas.
O Tanque do Campo da Feira, no seu local de implantação actual 

Assim sendo, o Passo da Paixão só pode ser o da Oliveira, transferido para o Campo da Feira em 1929, que se vê na fotografia seguinte, encostado à Capela de S. Brás, erecta no claustro da Colegiada, hoje Museu de Alberto Sampaio.
O Passo da Paixão da Oliveira, no seu local de implantação original.
O mesmo Passo, no local onde hoje se encontra (Campo da Feira).
E o edifício que causou maior estranheza é o antigo Colégio de Nossa Senhora da Conceição, antes das obras de alargamento que a Câmara Municipal autorizou em 13 de Outubro de 1955 a Câmara, quando aprovou a licença de obras requerida pela Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos, para completar o edifício em que funcionam as salas de aula anexas ao colégio de Nossa Senhora da Conceição, cedendo a Câmara quase quatrocentos metros quadrados de terreno para alinhamento daquele troço do largo da República do Brasil, conforme já estava previsto no Plano de Urbanização da cidade, ficando a Irmandade com a obrigação de construir o muro de vedação e de transferir a Capela dos Passos.
O edifício do Colégio de Nossa Senhora da Conceição.
Assim sendo, a fotografia que mostra o Colégio, o Tanque e o Passo do Campo da Feira foi tirada depois de 1929 (o Passo da Paixão da Oliveira foi demolido no final do Verão de 1929, aquando das obras de restauro da Colegiada e instalação do Museu de Alberto Sampaio) e antes do final de 1955, altura em que se procedeu ao realinhamento do Campo da Feira e ao alargamento do edifício do Colégio de Nossa Senhora da Conceição.
[com Nuno Saavedra]

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