A cidade de Guimarães em 1859 - I



A obra do historiador e arqueólogo Inácio de Vilhena Barbosa, inicialmente dispersa em diversas publicações periódicas, é incontornável para quem pretenda conhecer a história local de Guimarães. Da longa série de textos sobre Guimarães, a sua história e os seus monumentos que dedicou a Guimarães, os mais antigos serão, provavelmente, os que saíram no final da década de 1850 na revista A Ilustração Luso-Brasileira.
Começamos agora a republicar o trabalho em que faz uma descrição geral da cidade e dos seus arrabaldes, que saiu em dois números daquela revista, datados de Setembro e Outubro de 1859, e em que retoma uma explicação para a origem do nome de Guimarães, que já conhecemos, pelo menos, desde o tempo do padre Torcato Peixoto de Azevedo, que escreveu que esse nome provinha de um letreiro que está na torre antiga do seu castelo, que diz Via Maris, que indicaria que esta terra ficava no caminho que levava até ao mar. Esta inscrição, nunca ninguém a encontrou.


A cidade de Guimarães
Se dermos crédito aos nossos antiquários à origem de Guimarães quase que se perde na escuridão dos tempos. Alguns dão-lhe por fundadores os galo-celtas, e como se isto não bastasse para sua nobreza, ainda há quem lhe atribua um princípio mais remoto. Deixando porém estas notícias meio fabulosas e destituídas de bons fundamentos, diremos contudo que a sua primeira fundação é anterior alguns séculos à monarquia, e que teve por assento à pequena eminência vizinha, onde vemos o castelo.
Começou a actual povoação junto a um mosteiro, que a condessa Mumadona, tia de D. Ramiro II, rei de Leão, edificou em o ano de 927.
Apenas concluída a fábrica do mosteiro, que em relação ao tempo era uma obra grandiosa, no qual se acomodaram monges e freiras, vivendo com bastante largueza pelas avultadas doações que a fundadora lhes fizera, foram-se construindo em torno do convento algumas casas para habitação de pessoas dependentes dele. Cresceram pouco a pouco estas edificações, mudando-se para este sítio os moradores da antiga vila Vimaranense, que assim veio a despovoar-se e a arruinar-se de todo, restando boje poucos vestígios dela.
Para defesa do mosteiro, onde Mumadona se recolhera depois de viúva, e do burgo, que já contava bom número de habitantes, mandou a condessa fundar a pouca distância do mosteiro, no sítio em que outrora se erguia a vila velha, um forte castelo, cercado de altas muralhas, e flanqueado de sele torres. Neste venerando castelo, que ainda se levanta majestosamente sobre trono de rochedos, veio no fim do século seguinte assentara sua corte D. Henrique de Borgonha, conde de Portugal pelo seu casamento com D. Tareja, filha de D. Afonso 6.º, rei de Leão e de Castela.
Aí, dentro do recinto dessas toscas muralhas, que seriam hoje estreito espaço para residência de um simples governador, nasceu e criou-se o vencedor de Ourique, o primeiro rei dos portugueses.
O mosteiro da condessa Mumadona, santuário consagrado à Virgem sob a invocação de Nossa Senhora da Oliveira, e venerado em todo o reino pelo milagre que deu origem à invocação, tornou-se mais tarde nessa real colegiada, que desfruta honras quase de sé.
Deu foral à nova vila o conde D. Henrique, conservando-lhe o mesmo nome da antiga, que se chamava Vimarães. Parece que a etimologia daquele nome eram as duas palavras latinas — Via maris, que se viam esculpidas numa pedra em uma torre da vila velha, que na edificação do castelo ficou no centro servindo de torre de menagem. Esta inscrição, sem dúvida do tempo da dominação romana, indicava que a estrada, que por ali passava, conduzia à Costa do mar. Da inscrição pois proveio à terra o nome de Vimaranes, ou Vimarães, que ao diante se corrompeu no de Guimarães. Pela mesma razão se denominava quinta de Vimarães a propriedade em que Mumadona erigiu o seu mosteiro.
Por morte do conde D. Henrique continuou seu filho, o príncipe D. Afonso Henriques, a residir em Guimarães, onde o veio cercar no ano de 1130 seu primo D. Afonso VII, rei de Leão Castela, por aquele se querer eximir de lhe render vassalagem. Foi este circo, que deu lugar à memorável acção de D. Egas Moniz, em que este tão esforçado cavaleiro, quão dedicado aio do jovem príncipe, tendo conseguido de D. Afonso VII o levantamento do sítio sob promessas, que ao depois se não cumpriram, apresentou-se em Toledo, perante o monarca castelhano, com sua mulher e filhos, todos vestidos de alva e com baraço ao pescoço, oferecendo assim a sua vida e a de sua família pela palavra não cumprida. Afonso VII soube corresponder com generoso perdão a tamanho rasgo de lealdade e nobreza de carácter, tanto mais digno de admiração por ser praticado em uma época, em que os próprios príncipes faziam ostentação de falta de cumprimento das suas mais solenes promessas.
As gloriosas empresas de D. Afonso Henriques contra os sarracenos, dilatando de ano para ano os limites da nascente monarquia, fizeram perder à vila de Guimarães a prerrogativa de corte, que se mudou com grande prejuízo seu para a cidade de Coimbra, mais central em relação às novas conquistas, que se tinham estendido pela Estremadura e Alentejo até ao Algarve. Porém do que a vila perdeu com a saída da corte não tardou a ser compensada com a grande afluência de peregrinos e romeiros, que, vendo-se desafrontados do maior perigo das correrias dos mouros, vinham de longes terras venerar a sagrada e milagrosa imagem de Nossa Senhora da Oliveira.
Nesses primeiros séculos da monarquia, em que as guerras absorviam todas as atenções, em que as armas constituíam, por assim dizer, o único exercício nobre e honroso, a vila de Guimarães engrandecia-se à sombra do santuário, cujos milagres ecoavam de um a outro extremo do reino, vindo aqui estabelecer-se muitas famílias nobres, e várias ordens religiosas. E quando Portugal, já grande e temido pelas suas vitórias e conquistas, começou a colher os frutos da paz, prosperou então Guimarães pelo poderoso impulso da indústria. Porém a separação do Brasil, para onde exportava a maior parte dos seus produtos fabris, ocasionou-lhe a progressiva decadência do seu comércio e da sua indústria manufactora.
Nas discórdias que rebentaram entre el-rei D. Dinis e seu filho, o príncipe D. Afonso, e na luta travada para a independência do país, entre o mestre de Avis e D. João I de Castela, padeceu Guimarães circos e combates. As pestes, que flagelaram Portugal no século XVI, dizimaram-lhe grande parte da sua população.
No antigo regime gozava de voto em cortes com assento no banco terceiro. A imagem da Virgem tendo nos braços o Menino Jesus, que empunha na mão esquerda um ramo de oliveira, em campo de prata, constitui o brasão de armas da antiga vila de Guimarães, há pouco elevada à categoria de cidade.
Está situada Guimarães na província do Minho, em terreno um tanto alto, próximo das faldas da serra de Santa Catarina. Dista do Porto oito léguas para o norte, e três de Braga para o nascente.
Tem as seguintes paróquias : a colegiada de Nossa Senhora da Oliveira; S. Miguel do Castelo; S. Sebastião; S. Paio; e Santiago. A primeira, cuja fundação primitiva pertence a condessa Mumadona, como acima dissemos, foi erigida em capela real pelo conde D. Henrique, deixando então de ser mosteiro. D. Afonso Henriques e os reis seus sucessores concederam-lhe muitas honras e bens, e alcançaram-lhe do papa grandes privilégios, com os quais veio a ser uma das mais ricas e insignes colegiadas do reino. Compõe-se o cabido de várias dignidades e cónegos, presididos por um prelado, que se intitula dom prior de Guimarães.


I. de Vilhena Barbosa.
A Ilustração Luso-Brasileira, n.º 38, vol III, 24 de Setembro de 1859, pp 298-299.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Via Maris ! Não conhecia esta versão da origem do nome da nossa cidade. Mas parece-me lógica. Quem sabe se um dia, por virtude dum tremor de terra, aparece uma”pedra”debaixo da Torre de Menagem, com a inscrição “Via Maris”.

Um pouco como a “Pedra de Rosette”, fragmento de estela, descoberta por um soldado de Napoleão, no Egipto, próximo de Alexandria, e que, graças às três versões do mesmo texto permitiu a Champolion, de decifrar os hieróglifos.

Antonio Amaro das Neves disse...

Faz sentido, mas, tanto quanto parece, apenas faz sentido, já que nada temos que confirme nem o teor da inscrição, nem sequer a existência, algum dia, da própria inscrição. o "letreiro", que estaria na torre de menagem, foi muito procurado e ninguém achou, nem sequer vestígios dele. Noto que o próprio Vilhena Barbosa, que a não viu, diz que se trataria de uma inscrição do tempo da dominação romana. Embora a hipótese "via maris" seja sedutora, até prova em contrário, vai prevalecendo a tese de que Guimarães deriva do gentílico Vimaranes.

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