Por estes dias, têm-me chegado comentários curiosos: dizem-me que esta
história da nêspera é muito interessante, mas que não será ela que os levará a alterarem
a sua disponibilidade para levarem aquele fruto às suas mimosas bocas. São os
que, por comerem com os olhos, não se atrevem a provar um fruto que parece
podre. Por outro lado, para além do preconceito, o calendário também não é
muito propício para que a nêspera tenha um valor económico significativo, já
que a janela de tempo em que está em condições de ser consumido é muito
estreita, porque a distância que vai do estado de fruto sorvado, o único em que
é comestível, ao de fruta podre é muito curta, o que dificulta, nomeadamente, a
sua comercialização mais extensa.
No entanto, há processos de transformação e conservação deste
fruto tão arredio que lhe acrescentam procura e valor económico, nos países
onde tais artes se praticam, como é o caso da Inglaterra, onde há quem acredite
no comeback
da velha nêspera, como é o caso de Jane Steward da Eastgate Larder. Muito me
espantaria se por cá não houvesse quem lhe seguisse as pisadas.
Com nêsperas fazem-se licores, nomeadamente em Itália. Na Grã-Bretanha
é muito popular uma espécie de marmelada de nêspera a que os ingleses chamam de
medlar cheese, mas, provavelmente, é na forma de geleia que este fruto invernal
é mais apreciado. Os ingleses servem-na como acompanhamento de caça e de outras
carnes, usam-na como condimento, para enriquecer molhos e têm-na como
acompanhamento adequado para queijos suaves.
Para quem queira experimentar, aqui fica a receita da medlar jelly,
dada pelo nosso conhecido (da televisão) Nigel
Slater, que encontrei na página do jornal The Guardian.
Se ainda têm nêsperas à mão, atrevam-se. E, depois, contem como foi.
Geleia de Nêspera
Para que a geleia se possa definir, uma parte das nêsperas deverão
estar duras, não sorvadas. Maçãs pequenas, ácidas, ou mesmo maçãs bravas, também.
ajudam A geleia deve ficar brilhante e muito macia. Mantenha-a transparente e
bonita, não remexendo muito a fruta enquanto a coze.
Dá para 4 frascos de geleia, aproximadamente.
Nêsperas sorvadas
1,6 kg
Nêsperas firmes,
400g
Limões, 3
Maçãs, 2
pequenas, tão ácidas quanto possível
Água, 2
litros
Açúcar, aproximadamente
800g
Remova todas as folhas das nêsperas e procure sinais de
apodrecimento. Devem estar escuras e macias.
Corte os frutos ao meio e coloque-os numa panela muito grande e funda.
Corte também em metades os limões e as maçãs e junte-os às nêsperas. Cubra com água. Coloque
ao lume. Quando a água ferver, baixe a temperatura e cubra a panela parcialmente
com uma tampa. Deixe cozer durante uma hora.
Tome cuidado para que a água não evapore e mexa a fruta de
quando em vez com uma colher de pau. Procure não agitar ou esmagar a fruta em demasia,
a fim de evitar que a geleia fique turba.
Despeje a fruta e o líquido que se formou num saco próprio para geleia,
suspendendo-o sobre um jarro grande ou tigela. (eu penduro o meu numa das
torneiras do lava-louças.) Deixe o suco a gotejar no recipiente, dando-lhe um
aperto ocasiona, até que todo o suco tenha escorrido. Deve ficar com uma
quantidade de detritos secos de nêspera saco e um jarro cheio de suco claro,
laranja-avermelhado.
Despeje o suco de novo para a panela limpa e ferva a fogo solto
durante 6 minutos, adicionando, em seguida, a mesma quantidade de açúcar (cerca
de 800g ou 4 xícaras). Quando o açúcar se dissolver, ferva por mais 2 minutos. Em
seguida verta a geleia para frascos limpos, quentes e vedados. Deixe esfriar.
Se a sua geleia de nêspera ainda estiver líquida na manhã seguinte, volte
a despejá-la numa panela grande e coloque-a a ferver por 4-8 minutos, devolvendo-a
aos frascos, em seguida.
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