11 de julho de 2017

Isto não é um sabonete



Sabonete República (fotografia colhida no Almanaque Republicano).

Aqui há uns anos, deu muito que falar a afirmação de Emídio Rangel de que uma televisão vende tudo — tanto um sabonete, como um Presidente da República. Uns vinte e cinco séculos antes, Confúcio terá dito que uma imagem vale mais que mil palavras. Um dia destes, numa visita de estudo, constatei uma alteração radical na razão de ter alunos que, sistematicamente, ficavam para trás. Há algum tempo, muito menos do que o que pode parecer, os alunos ficavam para trás a tirar fotografias àquilo que lhes tinha sido mostrado e explicado. Agora, atrasam-se porque perdem tempo a tirar fotografias a si próprios. Nunca como nos dias de hoje, em que todos trazemos no bolso uma máquina fotográfica, o poder da imagem foi tão avassalador. Passámos (em definitivo?) de uma cultura da palavra para uma cultura da imagem. Quanto a isto, não me parece que haja muito a fazer: é para onde o vento sopra. No entanto, impõe-se que o império da imagem não nos faça perder o pé em relação ao que é importante. É que, para além das imagens, ainda deve haver ideias que valham a pena ser discutidas.
Vem isto a propósito de algumas imagens que, nestas vésperas de campanha eleitoral, tenho visto por aí e que, olhadas com atenção, desafiam o bom gosto, atropelam o bom senso e arrasam os bons costumes. Dou dois exemplos.
O primeiro é uma imagem que encontrei na net. Mostra os cidadãos que foram medalhados pelo Município de Guimarães no último 24 de Junho. Os agraciados foram nove cidadãos cujos méritos foram reconhecidos, por unanimidade, pelos eleitos da Câmara de Guimarães. Porém, a imagem tem dez fotografias e está dividida a meio: a metade da direita está preenchida pelas fotografias dos medalhados; a outra metade é ocupada pela décima fotografia, com tamanho igual à soma de todas as outras, e nela sorri o actual Presidente da Câmara. Por baixo desta fotografia, lê-se: “Medalhados – 24 de Junho”. Esta montagem resulta de uma intervenção aplicada, para fins de simples propaganda política, sobre uma outra imagem, da Câmara Municipal de Guimarães, em que o lado direito era ocupado pela cruz que este ano foi usada no cartaz das comemorações da Batalha de S. Mamede. Não tenho dúvidas de que o Presidente da Câmara não se revê neste tipo de aproveitamentos, mas a verdade é que, sendo manifestamente abusivos, resultam da manipulação de documentos municipais para fins partidários e usam as imagens de cidadãos distintos para fins de promoção de uma candidatura eleitoral, que naturalmente não autorizaram.
E, neste caso, pode induzir uma de duas ideias, ambas falsas: ou que o Presidente da Câmara também foi medalhado, porventura com uma condecoração mais importante do que a foi entregue aos restantes nove; ou que as medalhas foram concedidas por decisão pessoal do Presidente da Câmara.
Será difícil de perceber que este tipo de aproveitamentos desacreditam as condecorações e desrespeitam os condecorados?
À esquerda, documento original, à direita versão manipulada que circula na net.

A segunda fotografia que me despertou atenção vi-a na capa da última edição da revista cor-de-rosa cá da terra, a Bigger Magazine, e mostra um grupo de 22 crianças, quase todas, se não todas, perfeitamente identificáveis, com o Presidente da Câmara no meio delas. Também encontrei esta imagem na internet, mas não a reproduzirei aqui por razões facilmente compreensíveis (uma delas é que a lei me impede de o fazer). O grupo, ao que se percebe, é constituído por crianças praticantes de ginástica, com excepção do autarca, que até pode praticar aquela modalidade desportiva, mas já há muito deixou de ser criança, não se entendendo bem qual possa ser a pertinência da sua presença dissonante em grupo tão homogéneo, a não ser passar a sua imagem, que é algo que, manifestamente, não lhe faz nenhuma falta.
Nos tempos que correm, com os meios de publicação que já estão ao dispor de qualquer um, este é um assunto que tem gerado ampla discussão, não faltando doutrina sobre os perigos que podem resultar da replicação de imagens de crianças, nomeadamente na internet e nas redes sociais. Os especialistas têm alertado para o perigo acrescido de publicar fotografias de menores, especialmente quando incorporam informações que possam permitir a sua localização (por exemplo, a identificação da escola que frequentam). Recentemente, uma deliberação da Comissão Nacional de Protecção de Dados, proibiu as escolas de publicarem na internet fotografias dos seus alunos “ainda que para o efeito exista consentimento dos pais ou encarregados de educação”. O que diz a CNPD não se aplica apenas às escolas, mas a todos os estabelecimentos frequentados por crianças, como será o caso da Academia de Ginástica de Guimarães. Mesmo acreditando que tenham sido cumpridas todas as regras para a publicação daquela fotografia — que mandam, nomeadamente, que tenham sido colhidas, previamente e por escrito, as autorizações de todos os pais das crianças fotografadas, em que estes consentissem expressamente (1) que os seus filhos fossem fotografados e que (2) a fotografia fosse publicada na revista e (3) na internet —, partilho da opinião dos que, em relação a situações semelhantes, defendem que mandaria o bom senso que a revista se tivesse abstido de a publicar e de a partilhar na net.
O admirável mundo novo em que vivemos apetrechou-nos com ferramentas que nos permitem fazer aquilo que ainda há pouco nem sequer imaginávamos. Trazem manuais de utilização, mas não os códigos de conduta que tanta falta nos fazem.

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