9 de maio de 2017

O Castelo de Guimarães, por José Leite de Vasconcelos

O jovem José Leite de Vasconcelos e o Castelo (fotomontagem)

Em 1879, o jovem José Leite de Vasconcelos (1858-1941) esteve em Guimarães, a convite do Conde de Margaride. Era, à altura, um estudante que dava os primeiros passos nas coisas da etnografia e da arqueologia. Data desses dias o início das suas relações com o arqueólogo Francisco Martins Sarmento (1833-1899). Em 1933, aquando do centenário do nascimento de Sarmento, Vasconcelos registou as suas memórias do primeiro encontro com Sarmento:
As minhas relações com Martins Sarmento datam dos fins de 1879. Foi o meu prezado amigo, e seu primo, o snr. conde de Margaride quem me apresentou a ele, por ocasião de umas férias escolares que eu passava em Guimarães. A primeira vez que lhe falei, estava Martins Sarmento à banca, à noite, a trabalhar na primeira edição do seu estudo da Ora Marítima de Avieno. A mim prendeu-me imediatamente o modo lhano como me recebeu, tendo ele então já firmados os seus créditos de erudito, e sendo eu nas letras mero principiante. Recordo-me que logo nessa noite falámos muito. Depois disso não me faltou ensejo de estar com ele, porquanto, durante a época da minha formatura no Porto, eu ia a Guimarães frequentemente nas férias. Com Sarmento realizei mesmo algumas excursões arqueológicas, pelos arredores da sua cidade natal, à Citânia de Briteiros, a Soajo. Conquanto eu a esse tempo andasse na febre da colheita das tradições populares portuguesas, e no começo dos meus estudos filológicos, já sentia bastante inclinação para a arqueologia, à qual, por dever dos meus cargos oficiais, e para a execução do plano dos meus trabalhos, tive posteriormente também de consagrar-me: o contacto com Martins Sarmento não afrouxou, de certo, essa inclinação!
Naquelas férias do Verão de 1879, José leite de Vasconcelos escreveu e publicou no jornal vimaranense Religião e Pátria um poema que dedicou ao seu anfitrião, o Conde de Margaride, em que fala do Castelo de Guimarães. Aqui fica.


O Castelo de Guimarães

 (Ao Il.mo. e Ex.mo sr. Conde de Margaride)

Que foste tu, e que és, pobre castelo em ruínas?
Dantes eras o rei destas verdes campinas;
Desses velhos torreões e partidas ameias,
Hoje cobertas de hera, hoje de opróbrios cheias,
Ostentaram outrora os seus brios guerreiros
Junto do condoe Henrique, os valentes besteiros;
Aí campeou também, impávido, brilhante
Como um sol alumiando esse tempo distante
Como nuvem de luz, nobre escudo real:
E as trombetas da guerra, em hino triunfal
Levantaram febris este heróico pregão:
“—Combate aos infiéis! Sangue! Destruição!
E logo, como um mar colérico, endiabrado,
Vinham de toda a parte os servos do condado,
E em volta os barões poderosos, cruéis,
Marchavam por aí, de encontro aos infiéis!
E tu, sereno e rude, atlético, impassível,
Assistias então a uma peleja horrível,
Vendo de um lado e de outro as setas pelo ar,
As lanças dos peões além relampejar,
E o cavaleiro erguendo a espada para os céus…
Que foste tu e que és? Quais são os louros teus?

Das janelas onde hoje a hera seca se enleia,
Como uma secular, fortíssima cadeia,
Olharam muita vez para os largos horizontes,
Coroados de azul, recortados de montes,
E para a solidão das várzeas afastadas,
Pelo claro luar das noites consteladas,
Que é como que um sorriso ideal da Natureza,
—Olharam muita vez Trastâmara e Teresa,
Nessa união e amor das almas primitivas,
Límpidas como a lua e como a chama vivas.

Daí também outrora Afonso sonharia,
Seus sonhos, onde presa a alma lhe fugia
Por terras de infiéis, por castelos de Espanha,
A correr, a correr após de glória estranha...
Daí ele compôs a epopeia sagrada
Da Independência, — e o eco eterno dessa toada
Longínqua, sim, mas bela, escuta-se ainda agora
Em nossos corações, qual música sonora.
Daí lançou-se a um reino uma base feliz,
E acendeu-se o farol, guia deste país
Na conquista do mar buscando um reino novo,
E em tudo isso que faz que seja grande um povo!

Quantas vezes, ó noite, o teu manto lutuoso
Não surpreendeu o sonho a este rei glorioso?

Castelo! tu hoje és como um espectro, erguido
Nos abismos do tempo! O fantasma dorido!
Depósito fiel das lendas medievais,
Da fama dos barões, das vitórias feudais!
Coluna que se esvai ao vil sopro dos anos!
Baluarte talvez de sombrios tiranos!
Masmorra onde mais tarde a virtude penou
Sob os pés de um algoz!
Quem foi que te apagou?
Quem dessas triunfais ameias há riscado
O espírito que um dia as havia animado?
Que Filosofia ocultou tua glória,
Ó castelo esquecido e só vivo na História?

Ah! a Ideia é mais dura e firme que o granito!
Mais viril que o obelisco, onde o teu nome escrito
Campearia altivo, em sublime ovação!

Nada pode fugir à lei da Evolução.

Por isso a hera te envolve e uma nuvem pesada
Paira por sobre ti, muralha abandonada;
E tu és boje como um velho sem ventura,
Que tem um passo no ar e outro na sepultura!

Guimarães, 1 de Setembro de 1879,
J. Leite de Vasconcelos.
in Religião e Pátria, 13 de Setembro de 1879
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