8 de maio de 2017

Em defesa do Atalho da Caldeiroa

Atalho da Caldeiroa

Da revisitação que fizemos às ruas, vielas e largos que se situam entre a actual rua da Liberdade (Molianas) e o Campo da Feira, terá resultado a evidência da unidade que prevalece em todo esse espaço, quebrada pela construção da Avenida D. Afonso Henriques em finais do século XIX, cuja argamassa era a antiquíssima indústria dos couros de Guimarães. A Caldeiroa, por onde também corre o rio de Couros, era uma das ruas onde a indústria do tratamento das peles era mais activa, de que ainda são testemunhas os pelames, lagares e lagaretas de curtimenta que ainda por ali sobrevivem.

Quem visitou a celebrada Exposição Industrial que a Sociedade Martins Sarmento promoveu no ano mágico de 1884, começou por ver, logo no átrio no palacete de Vila Flor e na primeira sala da mostra, os expositores das artes dos couros curtidos e aparelhados (classe 42.ª do respectivo catálogo). Ao todo, eram dezassete os expositores deste sector. A Corredoura, o outro centro da produção de curtumes do concelho de Guimarães, era o mais representado, com cinco expositores. Logo a seguir, o maior contingente era o da rua Caldeiroa, com quatro expositores, o dobro das representações das ruas de Couros e de Vila Verde e do Largo do Cidade, cada um com dois expositores.

Como já por aqui vimos, a construção, em finais do século XIX, da Avenida D. Afonso Henriques ergueu um muro a separar a Caldeiroa do Relho, quebrando a perspectiva de unidade até aí evidente. Para assegurar a ligação, foi aberto um arco por baixo da avenida, que permitiria a passagem de peões e de carros. A construção, já no século XX, dos edifícios que se situam junto ao túnel, de ambos os lados da rua, estreitaram-lhe as entradas e descaracterizaram a perspectiva da dimensão do arco. Na sequência da recente requalificação do bairro de Couros, os portões de ferro colocados nos acessos ao arco passaram a estar fechados a cadeado, deixando o túnel de ter a serventia para que foi construído, ao impedir a circulação entre a Caldeiroa e a rua de Vila Verde. E assim ficou até hoje: de um lado, um espaço magnificamente reabilitado, do outro o parente pobre, esquecido e mal tratado, composto por uma sequência de vielas que vão acabar no actual recinto da feira.

No âmbito do processo de candidatura ao reconhecimento pela UNESCO da área dos Couros como Património Mundial, que se propõe cobrir o território que vai do Campo da Feira à Veiga de Creixomil, faz sentido tomar em mãos a requalificação do atalho da Caldeiroa, desde o seu início, no largo do Cidade, até ao ponto onde agora termina, na antes chamada viela das Freiras, já na antiga cerca do Convento de Santa Rosa do Lima. Um investimento bem mais módico, consensual e necessário do que um parque de estacionamento que vai matar o miolo da Caldeiroa, cuja necessidade ainda ninguém demonstrou e que, a fazer-se, delapidará irremediavelmente parte do património da arqueologia industrial dos couros de Guimarães.

Entrada do Arco da Caldeiroa, do lado da rua de Vila Verde.

(Percebo os que possam justificar a manutenção do impedimento de circulação pelo Arco da Avenida com o argumento da segurança. Mas lembro que o mesmo argumento era utilizado em relação ao espaço de Couros já requalificado. Depois das obras acabadas, esses receios deixaram de se colocar. Neste caso, bastará que, na requalificação a fazer, se use da mesma inteligência que se empregou no projecto do que já está feito.)

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