7 de maio de 2017

Ruas antigas: Avenida Nova, do Comércio, Cândido dos Reis, Afonso Henriques (2)

A Avenida do Comércio no início do século XX.
A avenida que nasceu para fazer a ligação do Toural à estação do caminho-de-ferro só teve nome próprio alguns dias depois da sua inauguração, no final do ano de 1900. Até aí era conhecida como a Avenida Nova ou a ligação do Toural à Estação. No princípio de Janeiro de 1901, ponderava-se o nome que lhe deveria ser atribuído.

Terá chegado a cogitar-se chamar-lhe Avenida Mouzinho de Albuquerque, homenageando uma figura ainda viva, o prestigiado militar e administrador colonial português, conhecido pelas sua acção campanhas de África, em 1894-95, em que tinha aprisionado o célebre Gungunhana, o último imperador do Império de Gaza.

Num artigo que publicou a 6 de Janeiro, no jornal A Memória, Albano Belino propôs que o nome da artéria perpetuasse o momento em que foi inaugurada, no último domingo do século XIX, quando se abriam as portas para o novo século. Que se chamasse Avenida Século XX, alvitrou.

Mas a opção da Câmara seria diferente. Reunindo a vereação no dia 9 de Janeiro, apreciou uma proposta apresentada pelo vereador A. B. Leite de Faria, em que se lê:

Para celebrar o enorme desenvolvimento comercial e fabril de Guimarães, nos últimos tempos, desenvolvimento que não afrouxara, porque a alma vimaranense é de rija têmpera.Proponho que à Avenida Nova seja dado o nome de Avenida do Comércio, por ligar com a estação do Caminho-de-Ferro os dois centros mais importantes de comércio desta cidade – o Toural e a Praça de D. Afonso Henriques — e que à outra Avenida, a mais velha, ainda por baptizar, mas já ladeada de florescentes fábricas seja posto o nome de Avenida da Indústria.
A proposta de Leite de Fria foi aprovada. A Avenida do Comércio manteve esta designação até à chegada da República que, como costumam fazer as grandes mudanças políticas, republicanizou a toponímia vimaranense. Passou a designar-se Avenida Cândido dos Reis, em homenagem ao militar, republicano e carbonário que se suicidou no dia 4 de Outubro, convencido de que a revolução que derrubaria a monarquia tinha fracassado.

No dia 10 de Dezembro de 1943, a Câmara de Guimarães aprovou uma proposta de alteração da toponímia vimaranense, que afectou largo número de arruamentos e praças da cidade. A Avenida Cândido dos Reis figura em primeiro lugar na lista das ruas que então mudaram de nome, passando a chamar-se Avenida D. Afonso Henriques, o Fundador. Note-se que, na mesma deliberação, a Praça D. Afonso Henriques, de onde já saíra o monumento ao primeiro rei, trasladado para junto do Castelo, também mudou de nome, passando a chamar-se, oficialmente, Largo do Toural.

Hoje, sem que lhe conheça qualquer alteração toponímica posterior a 1943, chama-se, simplesmente, Avenida D. Afonso Henriques.

Pelo seu interesse, especialmente pela opinião que afirma a propósito de mudanças toponímicas em ruas e largos ao arrepio dos nomes históricos desses espaços, aqui fica o texto em que Albano Belino propôs que a Avenida Nova se chamasse Avenida do século XX:


Nova Avenida

Na sua carta do dia 2 do corrente, o ilustrado correspondente desta cidade para o “Primeiro de Janeiro”, do Porto, noticia a inauguração da avenida, que do Toural conduz à estação do caminho de ferro e acrescenta: “Segundo ouvi vai chamar-se Avenida Mouzinho de Albuquerque”.

O projectado baptismo sugere-me um alvitre que submeto à apreciação dos homens de bom senso, respeitadores das glorias desta terra.

Já temos a praça de D. Afonso Henriques, onde se erigiu a estátua do fundador da monarquia; as ruas de S. Dâmaso, Gil Vicente, Pão Galvão, Conde D. Henrique: e os largos do Trovador e de Martins Sarmento; mas ainda nos resta honrar, pelo menos, os nomes de Mumadona, fundadora do Castelo e da primitiva igreja de Santa Maria, hoje Colegiada; de Dona Ausenda, ama de D. Afonso Henriques e natural desta cidade, onde possuía propriedades; e o de Egas Moniz, o protótipo da honradez e da lealdade. Este nome e o primeiro, aplicados a praças, ruas ou avenidas, recordariam aos forasteiros a origem de Guimarães e o seu desenvolvimento por efeito de aqui ter estabelecido a sua residência o Conde D. Henrique, progenitor do nosso primeiro monarca.

A inauguração da avenida no primeiro dia do novo século (ali vai o alvitre) deveria ficar memorada com a denominação seguinte: — Avenida Século XX.

Reconheço que a lembrança pode ser considerada excêntrica, pois não estamos habituados a aceitar de pronto qualquer inovação isenta do carimbo estrangeiro; mas ninguém deixará de reconhecer que tal denominação era bem cabida por ficar a recordar aos vindouros a data inaugural do melhoramento que mais aformoseia a cidade.

O pedido dos bancos de pedra é de todo o ponto justíssimo. Exige-os o trajecto longo e a subida algo fatigante, e principalmente a comodidade dos passeantes.

Se a arborização não pode ser dispensada naquele lanço formoso, que de noite se percorre com agrado e de dia constitui o mais belo ponto de vista da cidade, prefiram-na de folhagem caduca. Evitam-se assim dois inconvenientes—a sombra no Inverno e a deterioração do pavimento pelas raízes que se desenvolvem muito, mormente nas austrálias e nas mimosas.

Não deixem, porém, de pensar se a arborização ali terá lugar. Eu sou de opinião oposta. porque entendo que há-de desfear a avenida.

Aí fica, pois, o modo de se honrar condignamente esses antigos nomes que dão glória à terra.

Aplicá-los a ruas ou largos que há séculos receberam o baptismo é quase um crime de lesa história e muitas vezes um prejuízo material. Os documentos antigos, como os prazos que interessam a todos, falam-nos de nomes de ruas que a moda mascarou, dificultando-se assim frequentes vezes a busca de esclarecimentos úteis. É por isso que não desconvém respeitar o que ainda conserva o nome da sua origem.

A nova avenida merece bem um nome especial e todos os cuidados de quem superintenda na sua conservação.

ALBANO BELINO.
A Memória, 1.º ano, n.º 17, Guimarães, 6 de Janeiro de 1901
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