3 de maio de 2017

Do convento para o casamento (1)

Registo de casamento de Emília e Sebastião (montagem). Tocar na imagem para ampliar.

Começou frio aquele Janeiro de 1859, o que não impedia que os dias andassem festivos em terras de Guimarães. No dia 4, o jornal Tesoura de Guimarães abria a sua coluna com notícias locais que pareciam demonstrar que, com a agitação mundana que preenchia as noites de Guimarães, a cidade já se afigurava merecedora do título de segunda corte:

Jantares, bailes, saraus, teatros… Falta-lhe os touros e o divertimento favorito dos ingleses, e também das personagens deste país, para em tudo se assemelhar a Lisboa, como nossos leitores vão ver. É ordem do mundo. Quando uns choram, outros riem.

Corridas de cavalos, o divertimento preferido dos ingleses, não aconteceram por aqueles dias em Guimarães. Mas o visconde de Pindela tinha dado um lauto jantar, seguido de sarau, em homenagem a um tal Moutinho do Porto, que foi muito concorrido e que não terá sido inferior a um outro que o mesmo visconde tinha dedicado a António Maria Fontes Pereira de Melo. O Senhor José Pinto Coelho Guedes deu, “no seu lindo e espaçoso palacete do terreiro de Santa Clara, um bem servido e animado baile”, cujo motivo o colunista afirmava desconhecer. O conde da Azenha “deu um sarau mui concorrido, em que se dançou até depois da meia-noite”, e prometeu outro, para o dia de Reis. A Sociedade Terpsichore Vimaranense levou à cena, no Teatro D. Afonso Henriques, um drama, D. Filipa de Vilhena, e uma comédia, O Diabo a Quatro. Os actores foram “muito aplaudidos e vitoriados com bravos, palmas, coroas, pombos, etc”. Por aqueles dias, Guimarães era uma festa.
No entanto, por trás das grades do convento das domínicas havia um drama que se aproximava do seu desenlace. Uma tocante história de obstinação amorosa, protagonizada por uma mulher que muitos admiraram como heroína.
Comecemos pelo desfecho. Na madrugada daquele sábado, dia 9 de Janeiro de 1859, ainda a hora era de trevas, quatro homens atravessaram as Lajes do Toural e entraram na igreja paroquial de S. Sebastião, que então ainda se erguia junto à Alfândega. Eram eles Sebastião Augusto Magalhães Brandão, da rua Nova das Oliveiras, hoje rua de Camões, o seu irmão João Filipe, residente no Porto, na rua do Heroísmo, Bento Leite Peixoto, da rua da Fonte Nova, actual rua de Santo António, e Jerónimo José da Costa, morador às lajes do Toural.
Quem os visse, diria que iam assistir a uma missa inusitadamente matutina, se calhar em cumprimento de o voto qualquer. Mas longe estaria de imaginar que iam a um casamento. Porque aquela era uma hora altamente improvável para a celebração de matrimónios e porque… faltava a noiva.
Na igreja esperava-os o pároco, Filipe da Silva Lima, que usava o título de D. Prior e que celebraria um casamento não vulgar. Do registo que lavrou o padre celebrante, consta que Sebastião Augusto Magalhães Brandão recebeu em casamento Emília Augusta Ribeiro Gomes de Abreu, recolhida no Convento de Santa Rosa do Lima, das freiras domínicas, e representada no acto por Bento Leite Peixoto, titular de procuração que lhe dava poderes para contrair matrimónio em seu nome.
Esta é uma história que tem muito que contar. Lá iremos. Por ora, aqui fica a transcrição do registo de casamento, copiada do livro de registos de casamentos da freguesia de S. Sebastião:
Aos oito dias do mês de Janeiro de mil oitocentos e cinquenta e nove nesta paroquial igreja de S. Sebastião da Cidade de Guimarães guardada a forma do Sagrado Concílio Tridentino, obtida dispensa dos banhos, na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas se receberam por palavras de presente  Sebastião Augusto de Magalhães Brandão, filho legítimo de Francisco José Mendes Brandão e de Dona Teresa Alvim Vieira da Cruz, morador na rua Nova das Oliveiras desta freguesia de S. Sebastião com Dona Emília Augusta Ribeiro Gomes de Abreu, recolhida no Convento de Santa Rosa do Lima, sito nesta freguesia de S. Sebastião filha legítima de António José Ribeiro Gomes de Abreu  e Dona Albina Rosa Ribeiro, da rua da Torre Velha da mesma freguesia por procuração que ela fez a Bento Leite Peixoto, a quem concedeu especiais poderes para em seu nome contrair o Sacramento do Matrimónio, morador na rua da Fonte Nova, freguesia de S. Paio, de que foram testemunhas Jerónimo José da Costa, morador às Lajes do Toural, freguesia de S. Sebastião, João Filipe de Magalhães Brandão, da freguesia do Senhor do Bonfim, da Cidade do Porto, e para constar fiz este termo.
D. Prior Filipe da Silva Lima
Registos paroquiais, freguesia de S. Sebastião, livro de casamentos n.º 3 (1852 a 1886), fl 16v-17, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.
[CONTINUA]

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