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Sobre a "praxe" do Chafariz


Praça do Toural, Guimarães, fim da tarde de 5 de Maio de 2016.
Este dia de Minerva é só p’rós filhos!
Respeito amanhã, olá casquilhos;
Mudos espectadores e mais nada,
Aliás toda a chorina é agarrada;
Malhais logo no tanque de mergulho
Em pena de altivez, de tanto orgulho.
Sem contemplação; lei, só lei valha,
Para punir o furor de tal canalha.


(Do Bando Escolástico dos festejos dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau do ano de 1838)

Quinta-feira, 5 de Maio, final da tarde. Céu de chumbo sobre Guimarães. Cai uma chuva esparsa que torna ainda mais desagradável a temperatura, que descera repentinamente, depois de uns dias de calor que apreciam anunciar que a Primavera estava firme. Há gritaria na praça do Toural e mais gente do que o costume em volta do chafariz quinhentista. Alguns turistas sorriem e tiram fotografias. Dentro do tanque, com a água até à cintura, homens e mulheres com idade para terem juízo envolviam-se numa coreografia esquisita. O grupo formava-se em dois círculos. O círculo exterior era composto por gente que envergava o traje académico da Universidade do Minho, com o seu muito característico tricórnio, de onde sobressaíam os gritos estridentes de uma rapariga que gritava “Academia!”, a que os que estavam no círculo interior, não fardados, respondiam “Minho! Minho!”. Cenas da “praxe”, portanto.

Filmei a quadro e fui à vida, antes que fechasse a loja para onde me dirigia. Enquanto esperei para ser atendido, partilhei o vídeo no Facebook, com um comentário (Se a estupidez pagasse imposto, talvez este país tivesse futuro), e não pensei mais no assunto. Até que percebi que o vídeo se tornara viral, à nossa medida, com milhares de visualizações (à hora a que escrevo já ultrapassou as 17.000) e inúmeras partilhas, tendo dado origem a uma discussão apaixonada entre defensores e opositores das praxes académicas, que deixei de seguir, por manifesta falta de tempo para acompanhar tanto chover no molhado. Não sem antes me terem ficado as orelhas arder, à força de censuras à minha falta de apego à “tradição”, logo eu!, ou de saudosismo em relação a tempos passados e de falta de adesão à modernidade, em resposta à minha afirmação de que, quando frequentei a universidade, tal “tradição” não existia.

No que li da discussão, encontrei raciocínios do género “fui à praxe e sobrevivi e depois praxei” ou “os meus filhos foram praxados e praxaram e correu tudo bem”. Que bom para eles! E para os outros? Para os seis do Meco, para os três do muro em Braga, para o estudante de Arquitectura da Lusíada de Famalicão, para todos os jovens que foram à praxe e lá ficaram? E para os que de lá saíram marcados negativamente para a vida, a ponto de muitos deles terem desistido da Universidade? E para os que se recusaram a participar e acabaram ostracizados ao longo de todo o seu percurso académico? Será que para esses correu tudo bem?

Que me desculpe quem pensa o contrário, mas não consigo encarar o que vejo fazer nas “praxes” como actividades beneméritas de acolhimento e integração dos novos estudantes na universidade. O que eu vejo, as mais das vezes, apenas posso classificar como atentados à dignidade humana. São seres humanos que se submetem, voluntariamente ou nem por isso, a abusos e que, um dia mais tarde, se poderão transformar eles próprios em autores de novos abusos infligidos a outros seres humanos. Se tal “tradição” tivesse um lema, bem poderia ser: “A praxe liberta o abusador que há em ti”.

A quem questiona os que condenam as “praxes” de que falo sugiro, por exemplo, o visionamento de uma reportagem televisiva sobre praxes na Universidade do Minho e a leitura do perturbante depoimento de um vimaranense que estudou na UTAD em Vila Real, Paulo César Gonçalves, sobre a sua experiência com as praxes.

Mas o mais insólito da cena a que assisti brevemente e que gravei para a posteridade, foi o local escolhido por aquela gente para se “refrescar”.

Quem chega de fora para estudar numa cidade que mal conhece deveria procurar conhecer a cultura e as tradições da terra onde se acolhe. A isso eu chamaria trabalhar para a integração. Ora, se os mandantes de tão inaudito baile molhado tivessem tido tal preocupação, saberiam que o chafariz do Toural está intimamente associado às festas que os estudantes de Guimarães consagram, há centenas de anos (tempo mais do que suficiente para entrarem na condição de tradição), ao seu padroeiro S. Nicolau. O chafariz funcionava como o pelourinho onde os estudantes vimaranenses castigavam os intrusos que tentavam introduzir-se nas festas sem serem estudantes. Como já aqui se escreveu antes, os banhos forçados na água do chafariz do Toural eram a pena para todo o casquilho, taful, caixeirinho ou ginja que, com a identidade oculta atrás de máscara, ousasse meter-se no meio dos festejos dos filhos da ciência, os estudantes.

O chafariz era local de humilhação e castigo para os que se intrometiam na tradição nicolina, que é foro dos estudantes de Guimarães. Quando eu ali vejo certa rapaziada vestida de preto, em collants e com tricórnio, sou capaz de pensar que, afinal, a tradição ainda é o que era.

Comentários

Bruna Ferreira disse…
Acho de muito mau tom estar a falar e mais grave ainda a publicar fotos e videos nao autorizados daquilo e daqueles que nao conhece! Tal como o senhor disse ja devia ter idade para ter juizo e deixar-se destes 5 minutos de fama. Tenho o direito e o dever de falar pois fui e sou praxada e nao sinto nada do que o senhor aqui descreve!!! Informe-se do que é a arte de BEM praxar !
Cumprimentos.
Candido Silva disse…
Boa tarde.
Em relação “aos que foram a praxe, e lá ficaram”, se isto é um argumento valido, não deveríamos fazer nada na vida, porque os acidentes acontecem, e não é só nas “praxes”.
Se há praxe abusiva, não digo que não, mas também não é justo meter tudo no mesmo saco.
Em relação ao que acontece na fonte não vejo nada de mal, se anda estivesse alguém a tentar trepar, ou algo do género, o que não se verifica. Lembro-me de partirem a espada da estatua de D. Afonso Henriques, não foi em ambiente de praxe. Ainda a pouco vandalizaram o Pio IX, não foi em ambiente de praxe. Se podiam castigar lá com se infiltrava nas festas Nicolinas, porque não se pode batizar caloiros lá? Ai e tal porque é “praxe”?
Contudo as opiniões são para serem respeitadas, e aqui fica a minha.
Boa continuação, e felicidades para a vida.
Pode-me explicar em que que é que se baseia para me acusar de algo tão grave como "publicar fotos e videos nao autorizados"? Qual é a lei que me impede de publicar fotografias tiradas em lugares públicos com figurantes adultos em situações como aquela?

Ao ler aquilo de que se queixa, parece-me que têm vergonha de o terem feito e que era para ficar secreto. Se assim não é, qual é o problema de eu ter fotografado e publicado imagens?

Se foi praxada e gostou, só tenho a dizer-lhe, sem ironia: ainda bem para si.
Bruna Ferreira disse…
Meu caro, tenho todo o direito de nao querer que fotos em que a minha pessoa aparece andem por ai nos seus sites e facebook. O senhor tem o direito de dar a sua opiniao como ja o fez e eu tenho o direito de dar a minha. Se nao gosta ou nao concorda com as praxes simplesmente continuava a andar e nao se dava ao trabalho de fazer videos e tirar fotografia. Eu nao gosto nem quero fotografias/videos meus no seu facebook ou no seu site e tenho esse direito. Tenho muito orgulho no meu batismo sim senhor!!!o problema de ter publicado as imagens é que nela estao pessoas, nao estao animais. O problema é que meteu tudo no mesmo saco e falou de um assunto que nao sabe. Sou caloira, pergunte-me se fui humilhada, envergonhada se fiz alguma coisa contra vontade... A resposta a essas questoes é nao! Pq a praxe foi a maior ajuda neste primeiro ano de universidade! Para mim e para mais 14 pessoas do meu curso! Tal como tem os seus idiais e luta por eles, nos comunidade praxistica temos os nossos e vamos lutar ate ao fim por eles tambem!!
Comecemos pelo fim. As opiniões são para ser respeitadas. E eu respeito a sua, assim como julgo que terei direito a ver a minha respeitada, o que não tem acontecido em alguns dos comentários que tenho lido (não é o caso do seu, note-se).
Cá por mim, faço parte de uma geração de universitários que fizeram o seu percurso sem tais praxes e que, enquanto docente na Universidade do Minho, participou na discussão para afastar muitos dos abusos que eram públicos e manifestos em pleno Campus, no início da primeira década deste século. Tenho, como se compreenderá, uma visão muito negativa de tais práticas onde, do meu ponto de vista, se treinam atitudes de submissão e obediência que têm muito pouco a ver com o que eu entendo ser o espírito académico. Mas, lá está, essa é a minha opinião.

Acidentes, acontecem, com certeza. Mas há muitos que se podiam evitar.

Quanto à utilização do chafariz nas festas a S. Nicolau para banhos forçados é algo que não se faz há muitos, muitos anos. Fez-se. Há muito que se não faz e eu acho muito bem assim.

Note que eu não falei em vandalismo nem apontei o dedo a ninguém por ter vandalizado o chafariz. Quanto aos actos de vandalismo que cita, estou de acordo consigo, nunca deviam ter acontecido, mas não têm a ver com o assunto que aqui nos traz.

Saudações cordiais.


Cara senhora, se acha que cometi algum delito, tem duas alternativas: ou mostra-me a lei que o prove e eu tratarei imediatamente de pedir desculpa e de corrigir o meu erro ou, então, faça o favor de me processar. Quanto a dizer que eu não sei do que falo, parece que está a incorrer no mesmo pecadilho de que me acusa: o que é que a senhora sabe do que eu sei sobre o assunto.

Quanto ao mais, se tem orgulho da figura que fez, ainda bem para si. Faz muito bem em lutar pelos seus "idiais".
Sr (professor?) António das Neves, quem nos dera ter 20 anos pra podermos ser invejados por transeuntes que preferem estar demasiado ocupados em parecer bem aos olhos da sociedade do que serem felizes en diversões que não prejudicam nada nem ninguém... Antes de abolir as praxes, que tal falarmos de abolir o porte de armas, guerras, fome no mundo, promoção do altruísmo, etc.
Não foi no dia da defesa Nacional que faleceu uma jovem num exercício militar? Devemos abolir isso também?
Tenha cuidado, o sal na comida é responsável por enumeras mortes... o Sr come ensosso?
Ó meu caro, eu cá dou-me bem com a idade que tenho e sinto-me bem por quando tinha 20 anos não ter sido obrigado a escolher entre a praxe e a anti-praxe. Se leu o que eu escrevi, eu nunca falei em abolir praxes. Apenas critiquei certas praxes. Tem razão: o Mundo tem problemas muito mais importantes para resolver do que uns mergulhos num chafariz.
Unknown disse…
Sem xenofobia, praxe...é uma "coisa" com raízes...(ancestral)...! O "resto", que agora prolifera, de Norte a Sul, são "invenções", algumas de muito mau gosto e eivadas de perigos, infelizmente bem concretos...! José Guimarães (no Face)