9 de maio de 2016

O Paço dos Duques de Bragança em 1861

Paço dos Duques de Bragança em Guimarães, gravura de Pedroso a partir de 
desenho de Nogueira da Silva. Arquivo Pitoresco, vol. IV, 1861, p. 33
Continuámos a divulgar os textos dedicados aos monumentos de Guimarães que o historiador Inácio Vilhena Barbosa publicou na revista Arquivo Pitoresco, no início da década de 1860. Desta vez, trata do palácio que o primeiro duque de Bragança, D. Afonso, bastardo de D. João I, mandou erigir em Guimarães. Neste texto, Vilhena Barbosa fala das riquezas da Casa de Bragança, conta a história dos seu paço em Guimarães e faz uma descrição do seu estado no tempo em que o viu, no início da segunda metade do século XIX, altura em que a sua ala melhor conservada, voltada a sul, funcionava como quartel militar. A descrição das ruínas do paço está carregada de informações muito interessantes. No entanto, este texto deve ser lido com prevenção, já que o autor, quando o escreveu, baralhou o azimute, indicando as confrontações das quatro faces da fachada do edifício com orientações diferentes das reais. No texto que aqui se reproduz colocaram-se entre parênteses rectos as  correcções aos pontos cardeais incorrectamente indicados no original.

O Paço dos Duques de Bragança
Exceptuando as casas reinantes, nenhuma família da Península, nem talvez da Europa, gozou de tão grandes honras e privilégios e de tantas riquezas e poderio, como os duques de Bragança antes da sua exaltação ao trono.
Para lustre da sua nobreza, bastava-lhes, além de várias alianças reais, ter por progenitores um rei como foi D. João I, instrumento da liberdade de Portugal quando a sua independência mais perigava, e sempre favorecido da vitória e das simpatias populares; e um herói como D. Nuno Alvares Pereira, que logrou associar em si a glória das armas e a veneração de predestinado.
Entre os seus numerosos títulos honoríficos tiveram os de duques de Bragança, de Barcelos e de Guimarães; os de marqueses de Valença, de Vila Viçosa e de Montemor; e os de condes de Barcelos, de Ourém, de Arraiolos, de Faro, de Neiva e Faria, e de Penafiel.
Se especializássemos todos os seus privilégios, regalias e imunidades, formaríamos um longo catálogo. Bastará dizer, que conferiam às pessoas do seu serviço todos os graus de nobreza, como o rei; e que dispunham a seu bel-prazer de quarenta e uma comendas da ordem de Cristo, com total independência e separação dos mestres da dita ordem.
Eram imensas as suas riquezas em jóias e baixelas de oiro e prata, tão preciosas pelo seu valor intrínseco, como pelos primores de arte que ostentavam. Os seus rendimentos eram tais que não só chegavam para sustentar o fausto desta grande casa, em cujo serviço se empregavam uns quinhentos familiares, mas ainda sobravam para muitas acções generosas, para infinitos actos de caridade e de piedade, para numerosas fundações religiosas e para os importantes socorros militares, que os duques de Bragança por vezes prestaram a este reino nas guerras de África. Para se julgar da importância destes, socorros, diremos que o duque D. Fernando I, quando passou à África com el-rei D. Afonso V, levou dois mil infantes e setecentos homens de cavalo, todos vassalos seus, armados e sustentados à sua custa; e o duque D. Jaime, quando foi à conquista de Azamor, na África, em tempo de el-rei D. Manuel, que lhe cometeu o comando da armada, levou, igualmente à sua custa e tirados de entre os seus vassalos, quatro mil soldados de infantaria e quinhentos de cavalaria.
O seu poderio, enfim, estendia-se a mais de quinhentos ofícios rendosos, de justiça e de fazenda, que nomeavam; a cento e sessenta e tantos benefícios eclesiásticos, que apresentavam; a dezoito castelos, cujos alcaides-mores eram de sua nomeação; a muitas vilas das mais principais do reino e avultadíssimo número de aldeias e lugares, de que eram senhores e onde contavam, no reinado de D. João II, oitenta mil vassalos.
Não era pois sem razão que um nosso escritor dizia que os duques de Bragança possuíam um terço de Portugal. Um autor francês ao século XVII chama ao duque de Bragança o mais poderoso vassalo da Europa.
Quem conhecer o palácio ducal de Vila Viçosa; quem se lembrar dos paços arruinados da casa de Bragança em Lisboa, antes do incêndio que em 1841 acabou de destruir o que o terramoto de 1755 lhes havia poupado; quem, finalmente, tiver visto os restos do palácio bragantino de Guimarães, além de outros muitos que esta família possuía, poderá ajuizar com facilidade de toda essa grandeza e opulência de que apenas traçámos um ligeiro esboço.
Os paços de Guimarães estão situados quase no extremo ocidental [norte] da cidade, em terreno um pouco elevado e próximo do venerando castelo onde nasceu D. Afonso Henriques. Era um edifício de vastas e agigantadas proporções. Compunha-se de quatro grandes corpos, que formavam um quadrado, com uma extensa praça ou pátio no centro.
A frontaria principal olhava para o sul [oeste]. Apenas restam dela as paredes do pavimento térreo, actualmente cobertas de telhados, e tendo no meio o portal da entrada para o pátio, debaixo de um alpendre sustentado por duas colunas.
A fachada oposta, que está voltada para o norte [este], descansa sobre a antiga muralha da cidade. As paredes conservam-se de pé em quase toda a sua altura; não assim as da frente deste mesmo corpo para o lado do pátio. Toda esta parte do edifício está descoberta.
A frontaria do oeste [norte], que fica do lado do castelo, está desmoronada até meia altura, mas ainda tem muitas casas no pavimento inferior de que se faz uso. Pela parte de fora corre por todo o seu comprimento uma alpendrada bem conservada.
A fachada de leste [sul] e todo este corpo do palácio, acham-se inteiros. As duas extremidades levantam-se em dois pavilhões, ficando no meio deles um extenso corpo mais baixo. Apesar da grandeza desta fachada, não se contam nela mais de trinta janelas, de diversos tamanhos, dispostas em três e quatro andares e com grandes intervalos de parede entre si.
Este lado do palácio apresenta o vulto de um dos quarteirões da rua Augusta. Serve de aquartelamento e tem capacidade para acomodar um grande regimento. Tem vastas salas, sem vestígio algum de decorações, e, nas extremidades, duas escadas de caracol, bem fabricadas, que conduzem aos telhados e que outrora davam saída para espaçosos terrados.
A frontaria do norte [este], que na estampa junta se vê representada, cai sobre terreno montuoso e arborizado, que era uma pequena cerca do paço. Depois que este se arruinou, foram-se construindo em volta da cerca, por onde corria o seu muro, várias casas de mesquinha aparência, que na estampa ocupam o primeiro plano.
Compõe-se aquela frontaria de três coroas salientes, unidos por dois corpos reentrantes. Os das extremidades tinham por coroa uma larga varanda, sustentada por grandes cachorros de pedra. Destas varandas só existe uma, com as portas que davam saída para ela. Da outra não restam mais que os cachorros.
As paredes destes dois corpos e as dos dois reentrantes são abertas em janelas sem ornato algum. Porém, o corpo central é quase todo ocupado por duas formosíssimas janelas, de mais de sete metros de altura, as quais são um precioso exemplar do gótico puro. Estas janelas pertenciam à capela, cujo pórtico, formado de delgadas colunas e guarnecido de lindos silvados, deitava outrora para uma sala ou galeria do andar nobre e ao presente cai sobre o pátio, pois que a fachada deste lado se desmoronou quase de todo. Esta capela tinha dimensões como uma grande igreja.
O que parecem ser colunas, campeando sobre esta parte do edifício e dispostas simetricamente, são chaminés muito bem fabricadas de tijolo.
Encostam-se a esta fachada algumas árvores e, pelas paredes, trepam heras que vão engrinaldar as janelas, aumentando com os seus verdores o efeito pitoresco destas belas ruínas.
O fundador destes paços foi D. Afonso, primeiro duque de Bragança, filho legitimado de el-rei D. João I. Não chegou, porém, a concluí-los. Esta tarefa coube a seu filho o duque D. Fernando I.
Não ostentava este palácio espécie alguma de ornatos arquitectónicos, se exceptuarmos o pórtico e janelas da capela. Todavia, oferecia um aspecto grandioso pelas suas proporções colossais. O luxo da edificação, que também lhe faltava no interior, era substituído, sem dúvida, pela riqueza e profusão das tapeçarias e alfaias. Tal era o uso no antigo paço dos nossos reis e nas residências dos seus mais poderosos vassalos. Além disso, sabemos que a magnificência do palácio de Vila Viçosa, que causou admiração a vários príncipes e outros personagens estrangeiros, que nele foram hospedados, consistia nos brocados e veludos bordados e franjados de oiro e prata, e guadamecins doirados, que vestiam as paredes das salas, que ocultavam as portas, que ornavam os docéis, os leitos, e as mesas; nas alcatifas da Pérsia, que cobriam o pavimento; e enfim nos vasos e outras peças de oiro, prata, e porcelana da China, que pejavam os bufetes e copas ou aparadores.
Assistiram neste palácio muitos membros da família de Bragança. A duquesa D. Constança de Noronha, segunda mulher do primeiro duque de Bragança e neta, por seu pai, de D. Henrique II, rei e Castela, e, por sua mãe, de el-rei D. Fernando I de Portugal, assim que enviuvou, passou a residir nos paços de Guimarães, onde viveu bastantes anos, e neles faleceu a 26 de Janeiro de 1480.
O último príncipe que ali residiu foi D. Duarte, duque de Guimarães, irmão da duquesa de Bragança D. Catarina, e filho do infante D. Duarte, e da infanta D. Isabel; aquele filho de el-rei D. Manuel, e esta filha de D. Jaime, IV duque de Bragança.
I. DE VILHENA BARBOSA.

[in Arquivo Pitoresco, vol. IV, Lisboa, 1861, pp. 33-34.]
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