5 de julho de 2015

Considerações de Rodrigo Pimenta a propósito da visita do Presidente Loubet a Portugal



Mergulhado num par de projectos demasiado absorventes, faltava-me o tempo para vir aqui, assim como me tem faltado para poder acompanhar de um modo mais presente aquilo que os meus amigos andam a fazer. Uma notícia feliz fez-me voltar a estas memórias antes do tempo planeado: o ter encontrado por aí um amigo que há muito não encontrava e a quem dedico o que aqui deixo, que foi escrito por um rapazinho de 19 anos que é o avô dele.

~*~

No dia 27 de Outubro de 1904, o presidente da República francesa Émile Loubet chegou a Portugal para uma visita de Estado que faria correr muita tinta. Se, por esse tempo, visitas desta natureza eram pouco comuns, esta era ainda mais inusitada: em tempos em que as lutas entre monárquicos e republicanos se agudizavam, Portugal recebia o chefe de Estado da única República (além da Suíça) do continente europeu. Se é certo que a viagem de Estado de Loubet a Portugal aconteceu no contexto do estreitamento das relações entre as potências coloniais que partilhavam o continente africano, foi recebido como mensageiro da República que já se anunciava. Em Lisboa, o povo saiu à rua e aclamou o presidente francês como se aclamasse a República e, por todo o país, multiplicaram-se as demostrações republicanas que, em Guimarães, se consumaram com a publicação de um jornal com o título: Ao Presidente Loubet, um grupo de republicanos de Guimarães. Essa publicação, saída no mesmo dia em que Loubet chegou a Lisboa, tem oito páginas e insere textos de dez autores, que assinavam com pseudónimos. O último saiu da pena do jovem Rodrigo Pimenta, que assinava com pseudónimo Júlio de Morais. Aqui fica:

Considerações
A passagem de Mr. Loubet, presidente da República Francesa, por Lisboa, tem a meu ver uma importância relativamente grande, porque dá ensejo a todos os que pensam livremente de manifestarem as suas ideias às multidões que lêem.
Eu, não sei precisamente o que irão dizer os que juntos comigo colaboram neste número único, mas pelo que é de costume, na sua maioria, devem talvez encher os seus artigos de elogios, a pessoas e a instituições republicanas, de palavras encomiásticas enfim, para os republicanos e que agradem, claro, aos mesmos senhores. Eu, porém, que não professo credo político de espécie alguma, eu, que não sou republicano nem monárquico nem tão pouco socialista, eu, que passo todo o tempo dedicado ao intelecto, a estudar a melhor forma de ilustrar e educar as massas para que elas um dia, por suas mãos e conscientemente, façam a obra que é sonhada e discutida por uma pequena minoria (por enquanto, mas cada vez mais crescente) eu, meus senhores, não vos posso acompanhar no cortejo das aclamações e dos vivas. E sendo assim, eu vejo-me incapaz de ser digno neste lugar, que só deve inserir artigos de homenagem e de congratulações.
Mas eu também não venho insultar ninguém, não venho ferir personalidades, porque olhando as coisas geralmente e extensamente, não receio cair nessa falta.
É certo que conheço pouco a questão social, para me abalançar a entrar nela seriamente e com autoridade, mas quem como eu não saiu vez alguma deste meio burguês e acanhado, que torce as inteligências e faz autómatos em vez de homens, não é de esperar que produza obra de tomo. Reporto-me aos conhecimentos adquiridos pelo convívio íntimo com os homens livres, por meio dos seus livros, e, com um pouco de senso critico que esta sociedade moribunda me dá, pelo seu constante chafurdar na lama, eu declaro que não temo errar nem mentir nas afirmações que fizer.
Começando pelo atraso intelectual e moral do povo português, eu não temo afirmar que uma das causas, entre as muitas que existem, desse adormecimento lamentável dos cérebros, é, sem dúvida alguma, a forma odiosa, irracional e anti-humana com que os governantes inibem do ensino geral os homens que pensam livremente e que tem no cérebro faculdades tais, que os fariam educadores sinceros e humanos e que dessa educação, nós teríamos moços novos cheios de vida e capazes de arcarem com todos os sacrifícios para bem da outra parte da humanidade ainda na treva.
De forma que se não existissem, como já existem, homens que, desprezando regras e preconceitos, trabalham a vida inteira voluntariamente a estudarem a ciência experimental, a única verdadeira e humana, o que seria já da nossa raça?
Mas é que, felizmente, já os há; e é desses, pois, é desses indivíduos que se podem chamar sem receio — homens —, que sai a verdadeira educação, a verdadeira instrução.
Sempre combatidos pelos governantes, sempre odiados pelos burgueses e pelos aristocratas, estes mártires da humanidade não se importam de morrer heroicamente num presidio, numa guilhotina, para que o seu sangue germine, fecundante, essa planta grandiosa e sublime chamada Liberdade.
Já ficamos, portanto, convencidos de que os verdadeiros mestres do povo são os livres-pensadores e nunca os sábios oficiais. O que eu quero porém que se registe, agora que temos de visita Mr. Loubet, é que, enquanto aqui em Portugal os livres-pensadores, os homens honestos são vexados, esmagados e condenados à morte moral, em França, nesse país que tem sido incessantemente regado por sangue dos seus filhos, fecundo e sacrossanto, nesse país que encerra em si homens que em menos de um século reconhecem os algozes da véspera, para lhe chamarem criminosos e lhes derrubarem as estatuas, nesse país que, com a Rússia, há-de ser o precursor da redenção humana, o livre-pensamento tem mais expansão, o ensino humanitário e grandioso é permitido às multidões bebê-lo.
Haja em vista as produções literárias e sociais dos últimos tempos, que aí se espalham profusamente, haja em vista as revistas e jornais livres, como Les temps nouveaux e L’assiette au beurre e muitos mais, e os panfletos violentos que, com poucos francos se adquirem e se espalham com uma rapidez considerável.
Aqui, em Portugal, na véspera da visita dum presidente duma republica, apreende-se cinicamente uma obra que relatava um acontecimento republicano! Não julguem que quero dizer que na França exista já a liberdade absoluta e desejada pelo coração humano. Dizer isso seria uma loucura ou um contra-senso.
Mais liberdade, menos liberdade, eis o estado actual das sociedades modernas. O que Chateaubriand disse — Tout gouvernement est un mal, tout gouvernement est un joug —, ainda não foi, nem o será jamais desmentido.
É por isso que, podem mudar de regimes, podem decretar leis, opressivas ou mais libertarias, podem reformar códigos, podem revolver esta engrenagem d’Estados, como quiserem e conforme a astúcia dos legisladores, dos científicos oficiais e dos economistas burgueses, que existirão sempre males, existirão sempre crimes e tudo o que repugna ao espirito do verdadeiro homem.
Eduquem livremente os novos; deixem-nos pensar conforme os seus temperamentos, sempre diversos, sempre mutáveis; deixem que os homens livres digam nas praças, publicamente, a verdade que hoje é exclusivo de meia dúzia, e verão como em poucos anos a humanidade caminhará sensivelmente para a Luz, para a verdadeira Vida.
Por ora, enquanto existirem leis contra a liberdade individual, leis contra a liberdade de falar, de pensar e de amar, hão-de haver lutas, desalentos, misérias e desesperanças.
A todos os homens a quem o oiro não cegou e o atavismo não exerce já influências de espécie alguma, compete pôr mão à obra.
Júlio de Morais (aliás, Rodrigo Pimenta)
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