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Isto não é um conto de crianças

O Rapto da Europa (Rubens)
Hoje, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, é um bom dia para reflectirmos sobre o legado dos povos europeus na construção da identidade europeia. Dos gregos e dos alemães, por exemplo. Há 100 anos a Europa assistia, estupefacta, à mais brutal de todas as guerras, com o emprego de armamentos nunca antes usados em guerra. Eram os líderes da Alemanha, que a julgavam maior do que o seu território, que empurravam o seu povo para uma guerra de conquista de “espaço vital”. A ambição imperialista alemã seria derrotada, as pesadas sanções aplicadas pelos vencedores não passaram de letra morta e, em boa verdade, prevaleceu a tolerância europeia. Mas haveria de renascer, já na década de 1920, em muito pior. A Alemanha reergueu-se das cinzas e voltou a construir o exército mais poderoso do Mundo com que haveria de escrever algumas das páginas mais brutais e ignominiosas da história do Homem. Mais uma vez derrotada, seria tratada com generosidade e grandeza pelos vencedores. E em 1963 obteve o perdão de quase dois terços da sua dívida, o que evitou o seu estrangulamento financeiro, abrindo caminho à sua transformação numa potência económica de grande dimensão.
Em menos de meio século, a ambição alemã destruiu a Europa por duas vezes, deixando atrás de si um impressionante lastro de ruínas, sofrimento e morte. E nunca pagou por isso.
Tivessem os actuais dirigentes da Alemanha um mínimo de memória e de grandeza humana e política e teriam percebido que por estes anos tinha chegado o momento de mostrar um mínimo de gratidão pela tolerância dos europeus. Quando os gregos (logo os gregos, um dos povos que mais sofreu com o terror nazi) pedem a renegociação da dívida, ouvem dos responsáveis alemães e das suas marionetas uma resposta em uníssono. Nem pensar. Um conto de crianças, portanto.
E aos gregos, nós, europeus, devemos o quê?
Devemos-lhes a Europa. Devemos-lhes a democracia. Devemos-lhes boa parte das traves mestras da cultura e da civilização ocidental, democrática e tolerante.
Devemos-lhes respeito.
E a Alemanha deve-lhes muito mais.

Conheço alguns por aí que gostavam de ser alemães. Eu confesso que, em tempos como este, e mesmo não tendo culpa nenhuma, não me sentiria bem se vivesse debaixo da pele de um alemão, mesmo que fosse alto e loiro e rico.

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