27 de janeiro de 2015

Isto não é um conto de crianças

O Rapto da Europa (Rubens)
Hoje, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, é um bom dia para reflectirmos sobre o legado dos povos europeus na construção da identidade europeia. Dos gregos e dos alemães, por exemplo. Há 100 anos a Europa assistia, estupefacta, à mais brutal de todas as guerras, com o emprego de armamentos nunca antes usados em guerra. Eram os líderes da Alemanha, que a julgavam maior do que o seu território, que empurravam o seu povo para uma guerra de conquista de “espaço vital”. A ambição imperialista alemã seria derrotada, as pesadas sanções aplicadas pelos vencedores não passaram de letra morta e, em boa verdade, prevaleceu a tolerância europeia. Mas haveria de renascer, já na década de 1920, em muito pior. A Alemanha reergueu-se das cinzas e voltou a construir o exército mais poderoso do Mundo com que haveria de escrever algumas das páginas mais brutais e ignominiosas da história do Homem. Mais uma vez derrotada, seria tratada com generosidade e grandeza pelos vencedores. E em 1963 obteve o perdão de quase dois terços da sua dívida, o que evitou o seu estrangulamento financeiro, abrindo caminho à sua transformação numa potência económica de grande dimensão.
Em menos de meio século, a ambição alemã destruiu a Europa por duas vezes, deixando atrás de si um impressionante lastro de ruínas, sofrimento e morte. E nunca pagou por isso.
Tivessem os actuais dirigentes da Alemanha um mínimo de memória e de grandeza humana e política e teriam percebido que por estes anos tinha chegado o momento de mostrar um mínimo de gratidão pela tolerância dos europeus. Quando os gregos (logo os gregos, um dos povos que mais sofreu com o terror nazi) pedem a renegociação da dívida, ouvem dos responsáveis alemães e das suas marionetas uma resposta em uníssono. Nem pensar. Um conto de crianças, portanto.
E aos gregos, nós, europeus, devemos o quê?
Devemos-lhes a Europa. Devemos-lhes a democracia. Devemos-lhes boa parte das traves mestras da cultura e da civilização ocidental, democrática e tolerante.
Devemos-lhes respeito.
E a Alemanha deve-lhes muito mais.

Conheço alguns por aí que gostavam de ser alemães. Eu confesso que, em tempos como este, e mesmo não tendo culpa nenhuma, não me sentiria bem se vivesse debaixo da pele de um alemão, mesmo que fosse alto e loiro e rico.
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25 de janeiro de 2015

Há petróleo no Toural?



                       És tu, Banco do Minho,
que nos levas a água e as minas de petróleo?
O petróleo, oh! sim!... e não bastava isto:
no cofre forte achaste — oh! grande, imensa sorte! —
do petróleo ao pé a água que, pelo visto,
não é água vulgar, mas antes... água forte...
Gaspar Roriz, Bando Escolástico de 1924


O excerto do pregão do pregão nicolino recitado no dia 5 Dezembro de 1924 que vai acima há muito que me intrigava. O é que o bom do padre Roriz quereria dizer com aquela imagem do petróleo achado no cofre forte do Banco do Minho? Na altura em que li o pregão pela primeira vez, depois de gastar algum tempo a tentar perceber qual o segundo sentido que se figurava naqueles versos, acabei por desistir, conformando-me a ficar sem perceber. Por estes dias, ao procurar notícias sobre a Escola Industrial, fiquei a perceber que, afinal, a referência a minas de petróleo não era figurada, mas sim literal.
No dia 13 de Agosto de 1924, quando os pedreiros trabalhavam na obra de rebaixamento do prédio onde anteriormente estivera de portas abertas o botequim do Fernandes, mais tarde rebaptizado como o Café da Porta da Vila, para aí ser instalada a agência do Banco do Minho, encontraram o que parecia ser “uma nascente de Petróleo em Guimarães”.
Transcrevo parte da notícia publicada no Comércio de Guimarães do dia 15 daquele mês:
Na quarta-feira passada, os pedreiros, pelas 9 horas da manhã, quebraram um enorme rochedo ali existente, brotando, acto contínuo, um líquido que pela sua cor, e cheiro, nos faz supor tratar-se duma nascente ou veia de petróleo!
Muitas pessoas envolveram trapos no líquido, chegando-lhe o fogo, ardendo esplendidamente.
Houve também quem o lançasse em candeeiros, e garantem-nos que arde bem.
Que será? Foi uma constante romaria para presenciar o caso, sendo o assunto obrigatório de todas as conversas.
Foram retiradas amostras para se proceder a análises, ficando suspensas as obras.
Correm várias versões, mas a todos nos cumpre aguardar o resultado das análises que se não devem fazer esperar.
Dos resultados de tais análises ainda nada descobri. Mas devem ter sido promissoras porque, dois meses mais tarde, houve notícia de que a direcção do Banco do Minho pediu autorização para “proceder a pesquisas na mina de petróleo que há tempos apareceu em Guimarães”.



Até ver, não encontrei mais referências a tal achado, mas estou certo de que haverá por aí quem guarde memória da existência de uma “nascente de petróleo” no local por onde passava a antiga muralha de Guimarães. Caso por estes dias se viesse a confirmar que há mesmo petróleo na Porta da Vila (o tal prédio está novamente em obras…), sou capaz de antever uma das mais palpitantes trocas de argumentos sobre economia e património...
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