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Efeméride do dia: Quando o Conde de Vila Pouca sobreviveu a um naufrágio

Um dos primeiros vapores que atravessaram o Atlântico

11 de Julho de 1823
Naufraga um vapor na Ericeira, vindo de Lisboa para o Porto, e entre os muitos passageiros que morreram contavam-se os vimaranenses seguintes: o Prior de S. Domingos desta vila, "O Maneca"; o abade de S. Romão de Mesão-Frio; António de Melo, proprietário e seu irmão Francisco de Melo; um filho de Manuel Joaquim Areias, ourives e Anselmo José de Queiroz, tenente-coronel de caçadores 12, irmão do que depois foi conde de Santa Maria.- Foi publicada no "Vimaranense" com troca de nomes.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 30)

A navegação a vapor entre Lisboa e Porto teve o seu princípio no dia 9 de Junho de 1821. A iniciativa pertenceu à empresa João Baptista Ângelo da Costa & Cª, que, em 1820, havia adquirido em Liverpool o primeiro barco a vapor da marinha mercante portuguesa, o “Duque de Palmela”, inicialmente destinado a assegurar as ligações, pelo rio Tejo, entre Lisboa e Santarém. A mesma empresa compraria um segundo paquete, o Lusitano, com cerca de 250 toneladas, que iniciaria a carreira regular entre Lisboa e o Porto em Março de 1823, voltando o Duque de Palmela a assegurar a ligação fluvial com Santarém.
A introdução da navegação marítima a vapor entre as duas maiores cidades permitia que as viagens se fissessem com maior rapidez e comodidade, num tempo em que a introdução do comboio ainda nem sequer estava no horizonte.
Às 3 horas da madrugada no dia 10 de Julho de 1823, o Lusitano zarpou do Porto em direcção ao Lisboa. Fez escala na Figueira da Foz, para carregar passageiros, retomando a viagem pelas 17 horas. À noite, caiu um denso nevoeiro e uma corte corrente marítima arrasou o barco até ao Cabo Rendidos, próximo da praia de Cambelas, na Ericeira, concelho de Torres Vedras, onde naufragaria pelas às 3 horas e 30 minutos do dia 11.
O auxílio aos náufragos seria assegurado por Justino da Silva Pereira, da Vila da Ericeira, que de imediato se dirigiu para o local do acidente, levando consigo três mergulhadores, que então tinha ao seu serviço no resgate dos salvados de uma fragata francesa que se afundara ali perto. Apesar da eficácia com que o socorro, não foi possível evitar largo número de mortos (cerca de sessenta, a crer no que diziam as notícias). Entre eles, contam-se seis vimaranenses: o Prior de S. Domingos, o Abade de Mesão Frio, António de Melo e o seu irmão Francisco de Melo, um filho do ourives Manuel Joaquim Areias e Anselmo José de Queirós, oficial militar.
o Prior de S. Domingos desta vila, "O Maneca"; o abade de S. Romão de Mesão-Frio; António de Melo, proprietário e seu irmão Francisco de Melo; um filho de Manuel Joaquim Areias, ourives e Anselmo José de Queirós, tenente-coronel de caçadores 12. Entre os que sobreviveram à catástrofe, contava-se um outro vimaranense, Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado Teixeira, Conde de Vila Pouca.
Ao olhar para os nomes que se conhecem, dos que faleceram e dos que sobreviveram ao naufrágio do Lusitano, percebe-se que, naquele tempo, as viagens de barco a vapor apenas estariam ao alcance de pessoas com algo de seu. No entanto, este acidente, ocorrido num tempo em que a navegação a vapor dava os seus primeiros passos em Portugal, abalou o prestígio deste meio de transporte e fez crescer as dúvidas acerca da segurança da navegação naqueles barcos. Num livro em que se relatavam os acontecimentos ocorridos ao longo dos trinta e três meses que se seguiram à Revolução Liberal de 1820, percebe-se

O naufrágio do barco do vapor o paquete Lusitano que faria a carreira de Lisboa para o Porto, e que em consequência de uma cerração de névoa se perdeu nos cachopos de Cabo  Rendido próximo a Torres Vedras na madrugada do dia 10 de Julho causou um geral desgosto, porque se perdeu muita gente, roubou-se muito dinheiro e afrouxou o entusiasmo pela navegação por vapor. Este estabelecimento tão útil, e tão geralmente adoptado em França, Inglaterra, e em todos os mares e Rios principais da Europa e que deve a sua invenção aos americanos ingleses, foi há pouco mais de dois anos estabelecido em Portugal, e na falta de boas estradas, asseadas Estalagens, e cómodos transportes era além de um prazer, uma precisão para os viajantes em Portugal para a comunicação entre as duas principais cidades do Reino, para o comércio e governo, pela facilidade e prontidão da correspondência. Se a perda de um Navio devesse obstar à Navegação, ela não teria continuado, nem se teria aperfeiçoado tanto.
José Sebastião de Saldanha Oliveira Daun (Senhor de Pancas), Diorama de portugal nos 33 mezes constitucionaes ou golpe de vista, Impressão Régia, Lisboa, 1823, p. 190

Foi com o propósito de limitar os danos que a catástrofe do paquete Lusitano poderia causar ao seu negócio, que os Sócios Empresários da Navegação por Vapor para os Portos deste Reino, fizeram publicar, menos de uma semana após o naufrágiuo, na Gazeta de Lisboa, um anúncio em que davam conta de que entendiam que
não haverá pessoa alguma, assim das que se têm transportado neste navio, como quaisquer outras, ainda das de menos instrução, que não esteja convencida das comodidades que ofelrece a todos os respeitos este método de navegar, eaeque, por maneira alguma atribua esta catástrofe a este sistema de navegação da íntima convicção do que fica exposto, têm os Proprietários mandado acelerar a construção da outra destas embarcações, que já haviam mandado construir, com o destino de navegar para portos do Sul; a qual ficará destinada para substituir aquela que se perdeu, por serem muito mais interessantes as relações entre as duas Cidades principais do Reino do que com as outras.
Gazeta de Lisboa, n.º 167, 17 de Julho de 1823, p. 1242

Note-se que, neste anúncio, não há qualquer nota de pesar e condolência em relação às vítimas do naufrágio. Falar delas não seria, provavelmente, bom para o negócio.
Na mesma página daquela edição da Gazeta de Lisboa, publicava-se uma declaração assinada por 15 sobreviventes do naufrágio, com o Conde de Vila Pouco como primeiro subscritor, onde manifestam a sua gratidão ao homem que os socorreu. Diz assim:

Atestação
Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado Teixeira, moço fidalgo com exercício, comendador na Ordem de Cristo, Barão de Vila Pouca, e os mais naufragantes abaixo assinados.
Atestamos que o Senhor Justino José da Silva, da Vila de Ericeira, logo que teve notícia (no sítio da Assenta, onde se achava salvando os efeitos da Fragata Cornelina, da Nação Francesa) que no sítio de Cambelas tinha feito naufrágio o paquete de vapor, que viajava da cidade do Porto para a de Lisboa, imediatamente compareceu naquele sítio com três búzios (ou mergulhadores) do seu comando, ao trabalho e eficácia dos quais se deve a nossa salvação, e de muitas pessoas que escaparam, providenciando tudo quanto era possível neste perigoso e arriscado naufrágio, e diminuindo as desgraças que todos sofreram, com a maior caridade, e humanidade, chegando a levar a todos nós para sua casa, onde fomos tratados e curados de nossas feridas, e onde se fica curando de uma quebradela de perna o padre João Bernardo Nogueira, e por verdade lhe passamos a presente, que sendo necessário juramos. Ericeira, 12 de Julho de 1823. (seguem-se 15 assinaturas)

Gazeta de Lisboa n.º 167, 17 de Julho de 1823, p. 1242

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