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Pregões a S. Nicolau (95): 1943


O pregão de 1943 voltou a ser escrito por Delfim de Guimarães. É o oitavo (nono, se contarmos o “Pregão da Saudade” de 1942) que saiu da sua pena satírica. Foi lido por José Augusto Vaz da Costa Marques.
Depois de terminadas as festas, escreveria o O Comércio de Guimarães:
No domingo exibiu-se o «Pregão», da autoria do nosso bom amigo o snr. Delfim de Guimarães, um vimaranense que vive e sente a vida da sua Terra, estando sempre pronto a dar lhe o seu esforço e dedicação.
Muito mimoso e fazendo chistoso apanhado dos acontecimentos mais palpitantes locais, agradou e mereceu fartos aplausos.
Aqueles eram tempos difíceis, com a guerra a assolar a Europa e os seus efeitos a fazerem-se sentir sobre Portugal, que se mantinha neutral. Faltavam os géneros, as bichas eram um tormento, havia fome, prosperavam os açambarcadores. Mas não faltava o vinho, o tal que dava de comer a “um milhão ou mais de portugueses”. Tudo isto passa pelo pregão nicolino, onde não falta a referência à publicação, por aquela altura, do estudo que A. L. de Carvalho dedicou às festas de S. Nicolau em Guimarães.


O Pregão de S. Nicolau
RECITADO
EM 5 DE DEZEMBRO DE 1943
PELO ALUNO DO 6.º ANO
José Augusto Vaz da Costa Marques.

Rapazes: o Sampaio ainda é vivo e forte!
Ele anseia viver e repelir a morte
Enquanto for com vida a vida que mais preza:
A Festa a Nicolau de espírito e beleza!
Romântico de antanho, um louco, um sonhador,
Ele deu a esta Festa a alma, o grande amor,
E ali, no coração, fá-la pulsar, vibrar!
Ninguém, ninguém como ele a sabe tanto amar!
Ele é o Avô da fesla! A estima e gratidão
Não as poupeis ao nobre e rígido ancião!
*
*      *
Vai ao ar, outra vez, o meu Pregão vibrante:
Clarim e porta-voz da Festa do Estudante!
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Tolerem-me, Lá em Cima, o Bráulio e o Arnaldo,
O Meira e o Roriz, o púcaro do caldo
Sem um fio de azeite e quente poesia.,.
Azeite… isso não há... e estro é água fria...
Perdão também te peço, ó Santo, o Nicolau:
Tu vês esta magreza!... Eu sou um bacalhau,
Um badejo esquelético, assim… camuflado...
Outros tempos, meu Deus !... Eu era sempre assado,
Era à Gomes de Sá, cozido com batatas,
Fiel, sempre em jantares, fiel sempre em ceatas...
O que sou eu agora?!... Um zero vil sem cabo...
Nem barbatanas tenho e já não tenho rabo...
Meteram-me num poço escuro como um prego
Que foi comércio outrora, hoje é comércio nepro
Ai! tempos que lá vão, dos pastelões loirinhos,
Das iscas nas sertãs, das bolas de bolinhos,
E quão feliz eu era, o cheiro que eu espalhava!...
Cheirava a bacalhau! deveras que cheirava!...

O que nos vale, ó Santo, é o vinho, que é a rodos!...
O povo agora pode entrar nos tascos todos,
Beber até cair, que o vinho é tantas vezes
A vida de um milhão ou mais de portugueses...
Que se produza… sim... mas que se beba, olé!...
O mata-ratos, não; abaixo a água-pé,
E viva enquanto o vento a casa não destroça
O verde carrascão da tasca da Pescoça...
Melhor do que Falerno ou que o Casal Garcia,
O que nos dá a verve, a graça, a alegria,
Eh! paz... aquilo sim... é um beijo, um vivo amor,
Nas caves da Império, o branco tentador!...
Não tem racionamento, imprecações ou rixas...
Pode-se entrar… entrar… Entrar que não há bichas
*
*      *
Calquemos o asfalto escuro da cidade
E o moderno empedrado ao longo destas ruas…
Digamos a seguif verdades nuaí, cruas,
Doam a quem doer, de crítica mordaz,
Mas com aprumo sempre e inteligência audaz...
Principiemos, pois:
Esplêndido trabalho
Aquele que nos deu A. L. de Carvalho
No seu São Nicolau eenosso Santo Amado!-..
Ao seu trabalho honesto, e probo, e aturado,
Rendemos parabéns: Que a edição se esgote
E quebre os dentes vis aos zoilos de Serrote ...
O Vitória, outra vez, é o Campeão à nuca
Do Distrito de Braga e honra de Araduca.
Saudamos o seu Onze — um acto altivo e justo —
No grande treinador e rijo Alberto Augusto.
A Ordem fez rateio, e fê-lo sem malícia,
Tocando a Guimarães metade dum polícia...
Das casas telha-vã às casas solarengas
A Grandeza surgiu no Séquito de Oferendas
Em prol dos Hospitais, da Dor, da Caridade !
Irmãos foram nobreza e povo na Bondade!
Urgezes, Creixomil, agora, o próprio seio,
Às duas já o pisa a chanca do correio...
Preciso é dar saída a agravos, a arrelias,
No limite, em questão, das nossas freguesias...
Os Bombeiros vão ter a Casa inaugurada
Com festa de espavento e que há-de ser falada...
A Penha, a nossa Penha!... Eu olho-a e triste fico...
O nosso Pina é pobre... Ah! se ele fosse rico!!...
Mais luz à Avenida esbelta dos Pombais,
Que a escuridão só serve a actos imorais...
Deitaram um remendo ao campo do Vitória...
Histórinha... histórinha... e acabou-se a história...
A crítica, afinal, foi doce e não mordaz...
Às vezes calha assim... e faz-se marcha-atrás
*
*      *
Esta Festa é só nossa e não de sapateiros...
Não tem aqui entrada o bico de caixeiros,
Seja metro ou sovela... Assim o brado arguto
O nosso secular e rígido Estatuto...
*
*      *
Velhos que estais: em nós a saudade
Por vós é sempre viva! Até à cova há-de
Lembrar e relembrar as nossa patuscadas,
Tertúlias, bom humor, as francas gargalhadas
Nas salas do Cabreiro e nos cotés da Linha,
Rojões no Zé da Costa e papas no Terrenha,
Nas grades do Toural, em torno do Jardim,
O nosso cantochão e que dizia assim:
Ó Prechas, anda cá abaixo....
Anda-nos dizer: rapaz
Deita palha ao macho...”
E tudo se acabou... Ao longe, na Atouguia,
Dormem na paz da terra a graça, a alegria...
*
*      *
Não se esquece o Pregão de vós, ó raparigas,
Tricanas que cantais e rendilhais cantigas
Ao tiquetaque e som das leves lançadeiras.-.
E em nossos olhos sois, ó lindas costureiras
De olhos azuis do céu da nossa terra amada...
Muita atenção à agulha... Às vezes, enfiada,
A um pequeno deslize a linha sai do posto...
Desenfiada então... mau gosto é... mau gosto...
*
*      *
Há uma lenda assim dos tempos que lá vão:
— Um Príncipe Encantado em densa escuridão
Só poderia o Sol, o Sol um dia ver,
Quando junto de si sorrisse uma mulher...
Uma Princesa então, mais linda que os amores,
Filha de heróicos reis, neta de imperadores,
Sentiu pelo Princezinho uma paixão tão forte
Que foi na escuridão, sem medo à própria morte,
Um sorriso levar, de Sol iluminado,
Ao Príncipe da lenda, ao Príncipe Encantado...

Nós não queremos mais, Senhoras, que um sorriso...
Uma boca a sorrir é o Sol, é o Paraíso...
*
*      *
Sentido!... Um passo em frente!... A maçaneta erguida!...
Que esta luta se fira intrépida e renhida
Como outrora a de Afonso além, em S. Mamede!...
O mundo diz que tem de sangue muita sede!...
Pois bem: dê-se-lhe sangue ao beberrão imundo
E estoire em congestão a estupidez do mundo!...

Dezembro de 1943

DELFIM DE GUIMARÃES

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