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Efeméride do dia: Tricentenário da morte de Luís de Camões

Primeira página do jornal Religião e Pátria  de 10 de Junho de 1910

10 de Junho de 1880
A comissão criada aqui para celebrar o tricentenário de Camões principiou as suas solenidades neste dia por uma missa rezada na Colegiada em que foi celebrante o padre António José Ferreira Caldas Junior, pelas 11 horas da manhã. A esta missa assistiram por convite as seguintes corporações, todas com os seus hábitos e grandes uniformes: Cabido, Câmara Municipal, corpo administrativo e judicial, autoridades militares à frente do destacamento aqui estacionado, ordens terceiras e misericórdia, direcções dos asilos, bancos, associações e Companhia de Vizela, Assembleia Vimaranense e corpos de bombeiros municipais e voluntários, imprensa, vice-consulado de Espanha, etc. Terminada a missa a comissão dos festejos, acompanhada por todas estas corporações, dirigiu-se à casa da Câmara e estando aí reunidos em sessão solene os vereadores, foi-lhes apresentada por parte da comissão e lida pelo Conde de Margaride uma mensagem na qual a mesma comissão oferecia ao município dois exemplares de uma tradução de alguns cantos dos Lusíadas, em francês, pelo Duque de Palmela e revistos pela madame Staël, edição que a mesma comissão mandara fazer para distribuir neste dia em honra do grande épico. Fez-se dela uma tiragem de 200 exemplares e 12 de mais luxo, sendo aqueles numerados e distribuídos pelos assinantes, e dos segundos oferecidos exemplares ao rei, a D. Fernando, ao Imperador do Brasil, à Câmara de Guimarães ao dr. Pereira Caldas, etc. Dos outros também se mandaram alguns às bibliotecas e do Brasil. Na mesma mensagem se pedia à Câmara, que um dos largos ou ruas de Guimarães fosse baptizada com o nome de Camões, o que se resolveu logo por unanimidade, sendo escolhida para isso a antiga Rua Nova das Oliveiras. Em seguida por proposta (obra do padre Caldas, que era cunhado do proponente) do vereador António Joaquim de Melo, também se resolveu que ao Largo do Pelourinho se pusesse o nome de Largo do Trovador, em comemoração do primeiro trovador português, Manuel Gonçalves, nascido no antigo burgo de Rua de Couros. Terminada a sessão à meia hora da tarde, saiu daí um bando real com as bandeiras nacional e da cidade, precedido de tambores e duma banda marcial, convidando os habitantes de Guimarães a iluminarem as suas casas e a darem todas as demonstrações de regozijo durante os festejos. À uma hora foi dado, pelo Conde de Margaride, mas em nome da comissão, um jantar aos presos. De manhã, ao meio dia e à noite houve repiques de sinos, salvas de foguetes, percorrendo as ruas da cidade uma banda marcial. Neste mesmo dia à noite não houve no jardim do Toural a iluminação projectada por causa da chuva. – Na noite do dia 11 e como continação dos festejos houve, no teatro, espectáculo de gala, representando-se pela vez primeira o drama original do nosso cónego dr. António Joaquim de Oliveira Cardoso, "Lágrimas e Risos", em três actos. Nos intervalos recitram-se algumas poesias, produções literárias de vimaranenses, entre os quais muito se distinguiu o dr. Pereira Caldas, que veio de propósito de Braga. No fim da poesia – bisada – foi-lhe oferecido por dois membros da comissão exemplar aludido. O teatro achava-se elegantemente adornado com ramagens e coroas de carvalho e louro e bandeiras. No camarote central, da segunda ordem, estava o busto de Camões, em gesso, entre cortinados azuis e forros brancos, lendo-se em escudetes, postos sobre as colunatas de cada camarote, as datas mais notáveis da vida e Camões e na primeira ordem, em idêntico lugar, os nomes de 14 poetas e literatos.

(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 252)

Em 1580 Portugal assinalou o terceiro centenário da morte de Luís de Camões. Guimarães não se alheou desta data. Foi criada uma comissão promotora das celebrações, que organizou o respectivo programa. As celebrações começaram com uma missa celebrada pelo padre António Caldas na Igreja da Oliveira, onde pontificaram as autoridades civis, religiosas e militares, com os respectivos trajos solenes. Finda a missa, atravessou-se a Praça da Oliveira, em direcção à Casa da Câmara, onde teve lugar um acto solene, que foi transcrito para um auto, que foi assinado por todos os presentes (o Professor Pereira Caldas, que não pôde estar presente, pediu para o assinar depois, o que veio a acontecer no dia seguinte). A comissão ofereceu à Câmara dois exemplares da edição da versão francesa de parte dos cantos de Os Lusíadas, vertidos para aquela língua pelo Duque de Palmela, com revisão de Madame de Staël, mandados imprimir pela comissão, numa edição de duzentos exemplares. A sessão na Câmara terminou ao meio dia e trinta minutos, saindo nessa altura um bando, que se fazia anunciar por tambores e por uma marcha marcial, solicitando aos vimaranenses que se associassem aos festejos e que, ao cair do dia, iluminassem as suas casas naquela noite. O jantar (diríamos nós, o almoço) distribuído nesse dia aos presos da cadeia foi abundante, tendo sido oferecido pela comissão.
À noite, com a cidade iluminada, houve espectáculo de gala no Teatro D. Afonso Henriques, tendo sido levada à sena a peça em três actos Lágrimas e Risos, do cónego António José de Oliveira Cardoso.
Finda a sessão no teatro, os festejos terminariam no Toural, iluminado festivamente, em cujo pavilhão acústico (o coreto que agora está na Alameda) uma banda de música executou o seu reportório. À meia-noite, a multidão assistiu ao fogo-de-artifício que assinalou o encerramento das festas.
A vereação decidiu perpetuar a memória deste dia na toponímia da cidade. Na sessão solene, o presidente Câmara apresentou a seguinte proposta:

Considerando que é um dever de todos os portugueses manifestar a sua veneração pela memória dum génio e dum patriota como Camões, dever que a câmara deseja ser sempre a primeira a cumprir;
Considerando que é este um dos meios pelos quais se manifesta à excelentíssima comissão o agradecimento pelo valiosíssimo presente que lhe acaba de fazer; e
Considerando que é assim, por lho não permitirem as suas forças, que a câmara pode honrar os beneméritos da pátria, isto é, tornando- lhes públicos os nomes e expondo-os a que os honrem consoante os seus merecimentos:
Proponho, que a rua Nova das Oliveiras se denomine – rua de Camões.

Esta proposta foi aprovada por unanimidade. Logo em seguida, o vereador António Joaquim de Melo, submeteu à apreciação dos seus pares uma outra proposta:

Nesta ocasião solene em que o país inteiro se levanta em vivido entusiasmo para glorificar o herói, que o imortalizou na lira mais afamada que ditosa, parece-me que nós, os vimaranenses, temos um duplo motivo para nos deixarmos levar por tal entusiasmo, cabendo-nos a glória de filhos de Guimarães, a antiga Araduca – cidade das letras – às quais devem estes cultos, que Portugal hoje dignamente lhes consagra, honrando a memória imortal do imortal Camões. Se hoje a capital do reino reúne as cinzas do primeiro épico com as do primeiro almirante seu companheiro em aventuras e glórias, D. Vasco da Gama; também nós sem alhearmos de Camões o exclusivo da glória, que hoje lhe pertence, deveríamos, como bons filhos de Guimarães, reunir ao nome do primeiro épico, o nome do primeiro trovador, Manuel Gonçalves, filho inolvidável do berço da monarquia, nascido no antigo burgo da rua de Couros.
Quer-me parecer, que se Luís de Camões presenciasse estas solenidades em sua honra, não deixaria de pedir-nos, que ao seu nome associássemos hoje o de seu irmão na poesia.
Por isso, proponho, que o actual largo do Pelourinho seja desde este dia baptizado com o título de – largo do Trovador – para que deste modo, e nesta ocasião de glorificação ao engenho e à arte, façamos honrosa comemoração do nosso imortal patrício.

Esta segunda proposta também recolheu aprovação unânime.
E foi a partir daquele dia que Guimarães passou a ter duas ruas como nomes de poetas: a Rua de Camões e o Largo do Trovador.

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