16 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (71): 1917

Milagre de S. Nicolau


Os jornais são omissos quanto às Festas Nicolinas de 1917. Apenas o Ecos de Guimarães de 25 de Novembro notícia que a comissão eleita trabalha com grande actividade para que as festas revistam grande brilho. Por aqueles dias, os estudantes de Guimarães estavam em greve, em solidariedade com os seus colegas de todo o país que contestavam a reforma do ensino liceal que estava na ordem do dia.
O pregão foi, mais uma vez,escrito por Leão Martins, tendo sido recitado por Fausto de Meneses Leite Pinto Mourão. E é o que sabemos, sobre as festas de 1917.
O pregão, onde não constam referências, ao contrário do que é habitual, a outros números das festas a S. Nicolau, está repleto de referências a acontecimentos ocorridos naquele ano: a morte de José Martins (Aldão), a proposta apresentada pelo Cónego José Maria Gomes locais, na Câmara dos Deputados, onde tinha assento, para a elevação do Liceu de Guimarães à categoria de Liceu Central, à carestia e à fome, à guerra, às últimas eleições.

BANDO ESCOLÁSTICO
RECITADO EM 5 DE DEZEMBRO DE 1917, PELO ESTUDANTE DO QUINTO ANO
Fausto de Meneses Leite Pinto Mourão

Recordar é viver — reza assim um ditado,
Se lembrámos um feito, um acto já passado.
Pomos grandes também e cobertos de glória,
Em tempos que lá vão, segundo diz a História.
Passado aventureiro, heróico e grandioso,
Senhores da Terra e Mar, país maravilhoso!
Se outrora Nicolau vos dava que falar
Não há motivo algum para se não festejar
O Santo, o nosso guia, o nosso protector,
O pai da mocidade, exímio salvador.
Se a Festa não tem brilho usado em tempos idos
Que não julguem em nós os ânimos perdidos.
Sem aquele esplendor, sem galas e aparato,
Para a gente o festival não passa a caricato.
Existe a tradição e ela há-de reviver,
Enquanto no Liceu um estudante houver.

Oh mestres do Liceu, insignes professores,
E que nos resistis à cabulice arteira!
Queremos vos pedir uns naturais favore
Para bem do estudante e da sua carreira:
Que a Festa a Nicolina a mal não a leveis,
A Festa iniciada em epocas remotas;
Auxílio para nós — futuros bacharéis,
Que passemos no fim com lindíssimas notas.

Já que falando estou do bom professorado
É justo agradecer, com toda a simpatia,
O bem com que dotou nosso liceu amado
Ao ilustre senhor Cónego Zé Maria.
Se inda não funciona o Central em questão,
A culpa de quem foi? Se nisto não me engano,
Devemos estender sinceramente a mão
Ao novel bacharel — augusto Mariano.

A vida actualmente às almas causa dor.
Dois campos desiguais — qual deles o melhor?
Por um lado a guerra úteis braços consome,
Por outro lado então vai imperando a fome.
Acaso vós sabeis o que seja morrer
À míngua dum só pão, para o corpo entreter?
Mesmo à falta dum caldo, umas ervas até;
O sustento dum pobre, a mísera ralé?
O azeite encareceu, o milho e o feijão
Subiram a um preço tal que fere o coração,
E o cortejo da fome — o povo da desgraça,
Engrossa dia a dia, e pelas ruas passa,
Cabisbaixo, impaciente, aflito, esfarrapado,
Olhos rubros de fogo, o rosto espezinhado;
Crianças de tenra idade estropiando às portas,
Às horas do jantar, de noite a horas mortas.
Vai aumentando sempre e sempre o aluvião
Que nos confrange a alma, a vida, o coração.
E morre um esfaimado a um canto —c ão rafeiro,
Para o açambarcador encher-se de dinheiro.
—Açambarcador vil: escroque já sem nome,
Que levas a qualquer parte a miséria, a forne:
Tu hás-de ter um fim, ao mal que tens causado,
Mais triste que um cào às vozes de danado!

Por sua vez a guerra indómita, infernal,
A pouco e pouco vai levando Portugal
À grave derrocada, ao abismo profundo.
Sem forças, tão velhinho, a pelejar no mundo,
A gastar o melhor, a ruinar o que tem,
Para levar no final o pontapé de alguém.
Triste futuro o nosso, incerto, vão destino…
Ou não fossemos nós país tão pequenino.

O brilho auroreal de todo o estudante
Enérgico defende a sua aspiração,
Indo de encontro às leis dum Ministro pedante,
Fraco legislador na pasta da Instrução.

Quando dirijo a vista ao cimo da montanha,
Onde situada fica a encantadora Penha,
A querer chegar ao Céu e ao vasto Infinito…
Eu ponho-me a pensar a sério, já se vê,
Como pode nascer um moderno chalet,
Na base dum rochedo ou fendas de granito?...

E quando eu cerro a vista e me ponho a pensar
Nas findas eleições que deram que falar,
Com bomba e tiroteio e chapelada bela;
Pergunto: valerá, nos tempos actuais,
Sentar-se feito réu, nos sérios tribunais,
Um pacato senhor por causa da gamela?
Das eleições aqui o povo o que nos diz?
Porventura haverá um cidadão que as louve?
Foi mais uma vergonha, um escarro no país,
Que nos faz perguntar, em voz alta: — O qué couve?

Há pouco tempo ainda a morte nos levou
Um homem santo e bom, um nobre de valia;
O nosso coração de crepes se enfeitou
E lágrimas de dor verteu a academia.
Amigo da pobreza e mais de toda a gente,
De carácter sincero, alma de estimação;
Homem já tão velhinho, a sorrir meigamente,
Fugindo para Deus — José Martins (Aldão)

Jerónimo Sampaio, o conceituado agente
Da Sagres companhia, em pleno povoado,
Previne Guimarães, em peso, altivamente,
Do seguinte a saber: todo o homem honrado
Que um seguro deseje ou haja de o fazer
Gentileza fará (o caso nunca esquece)
De sempre o procurar, se assim lhes aprouver,
Pelo que desde já muitíssimo agradece.

Ao norte do país, na província do Minho,
De há séculos que existe um fresco quarteirão
De terra bem pequeno, airoso, tratadinho
Com o devido cuidado, amor e perfeição;
Ao norte do país, deste país risonho
Onde paira um castelo a verdes guarnecido,
Demonstrando ao porvir seu passado grandioso,
De quantos é amado e de quantos foi querido;
Ao norte do país, à beira mar plantado
De paisagem soberbo —a specto divinal!
Existe um canteirito alegre e perfumado,
Um mimoso jardim como não há igual,
Onde viceja o goivo, a trepadeira mansa,
A dália, o jasmim, o cravo, a saudade, o lírio,
A camélia, o bem-me-quer, um sonho, uma esperança...
Que nos faz desvairar ao ponto do delírio!
Um canteiro tão lindo, ameno e salutar,
Como não se verá assim em qualquer parte...
—Que fada desceria à terra a imaginar
Canteiro tão grácil, com tanto mimo e arte?
As flores do jardim, tão lindas, perfumadas,
Sois vós, damas gentis, oh deusas delicacias!
E o canteiro florido — a quem nós tanto queremos,
A velha Guimarães — torrão onde nascemos!

Após este silêncio um barulho infernal.
Embora uns rufem bem e os outros toquem mal,
Rapazes que empunhais um bombo ou um tambor:
Batei com toda a força e rufai a primor!
Mostrai que tendes pulso e mãos desempenadas!
Que estremeçam casais, os muros e as estradas!
Estrondo prolongado e forte e que soe bem
Que saber de vós quero o que mais força tem!!
Leão Martins 
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