8 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (63): 1909

Milagre de S. Nicolau


O pregão de 1909 foi novamente escrito por Delfim Guimarães. Recitou-o António José Gonçalves Dias. Da sua leitura, resulta a sensação de que se anuncia o fim de um tempo. O pregão cumpre o seu papel de anunciador da festa, mas é, acima de tudo, uma espécie de pasquim com forte carga de crítica aos dias que corriam.

No jornal Independente, de 27 de Novembro daquele ano, lia-se:

O Bando, segundo dizem, é este ano recitado por um académico não vimaranense, por se provar que os nossos briosos conterrâneos falhos daqueles indispensáveis requisitos que imortalizaram os velhos se viram na dura necessidade de dar a alternativa a outros com peito forte, voz sonante e figura agradável.

A chuva tirou brilho, mais uma vez, a este número das Festas Nicolinas.


BANDO ESCOLÁSTICO
Recitado pelo académico
António José Gonçalves Dias
em
5 de Dezembro de 1909

O último!! Quem sabe?
                                           A mocidade agora
É tão velha de dor que, ao romper a aurora
Da Luz e do Amor, da vida e da ilusão,
Já tem desfeito em pranto o triste coração!
Como um senil velhinho a trepidar com sono,
Ela reza um rosário místico de Dores,
Espalhando a tristeza, assim como o Outono
Espalha pelo chão as pétalas das flores!
Cobrem-a, com piedade, as santas capas pretas
Bordadas de martírios, goivos e violetas,
E em noites de Saudade e noites de Luar,
Sobre os balcões das Donas de formoso olhar
As estende para melhor, à luz da fantasia,
Chorar suas canções cm funda nostalgia!
A mocidade é triste! É triste como o vento
Que, atravessando a noite, passa em um lamento!
Já não tem em sua alma as asas da Esperança
Para voar, voar como uma pomba mansa
Ao éter azulino longínquo r subtil,
Aonde o gozo expõe as suas graças mil!
A mocidade é triste! E até Nicolau chora
Ao ver que se transforma a deslumbrante aurora
De seus filhos amados num sol-pôr de mágoa!!
Minerva, ai! essa tem os olhos rasos de água
E murmura dos céus, em sua voz suave:
— Um ano ainda mais? O último! Quem sabe?

Oh loira mocidade, oh mocidade em flor:
A vida é a alegria, ai deixa esse torpor,
E vamos espalhar por prados e campinas
Os beijos do Amor, os risos das boninas,
Colhendo frescas rosas,
Caçando mariposas,
Inundando de flores as capas e as batinas!

Escravos do balcão, simpáticoa caixeiros,
A roda da discórdia enfim que desandou
Para sermos doravante amigos verdadeiros
E esquecer o passado que nos separou
De que nos serve a luta infrene e inextinguível,
Querermos diluir com ódio o impossível
Se esta vida é um riso lívido da morte?
De que nos serve o orgulho extremamente forte
Se a vida é uma ilusão que a um sopro se desfaz?
Não será mais real a branquidão da paz?
A nossos braços, pois, escrava mocidade,
E que este abraço seja o pacto da amizade.

Um bravo à denodada e nobre Comissão
Das Festas Gualterianas cheias de esplendor!!
“Por Guimarães”avante, é o nosso coração
Ao nobre iniciador da “batalha de flores”!

Tricaninhas garotas que passais avante
De rosto levantado e olhar provocante
Trocando o nosso amor por doido desamor;
Oh demónios gentis que não meteis horror
Ao santo mais santinho posto num altar;
Ora vamos lá ver se o nosso verbo amar
Vos esqueceu ainda e ainda o declinais...
— Eu amo, amas, ama, amamos, vós amais...
Basta garotas, basta… Um B pela lição!...
Ai! desde já contai com uma distinção
Se os examinadores, oh filhas, formos nós!?...
Vós tendes tanta graça, acreditai, só vós;
Com esse olhar ardente e puro e feiticeiro...
— Olhar que brota a luz serena desta vida —
Nos fazeis ir até lá acima ao Castanheiro
                      E à velha Avenida.

Costureirinhas lindas vinde a nossos braços
E trazei uma agulha que possa cerzir
Os nossos corações que os temos em pedaços
Desfeitos pelo vosso angélico sorrir.
Que a vossa boca seja a agulha desejada
E o retrós que seja os seus beijos de mel
É o que mais vos pedimos de alma ajoelhada.
Oh loiros Serafins da Lucas o Raquel…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..
Ai Rosinha, Rosinha! isto só pelo demónio!...
Nós trazemos cá dentro o testemunho erróneo,
E mais que erróneo, falso em toda a sua essência,
A roer-nos sem dó a nossa consciência
De dizermos, Rosinha, no pregão transacto
Que tu olhaste a espada do alferes ingrato!
Por essa irreverente e treda falsidão.

Aquele estrondo enorme e monstro e colossal
Rebentou qual vulcão pouco além do Toural
E foi à Madre Deus, ribombando nos ares
E, voltando depois, chegou até Silvares!...
Tremeu a inteira grei, enquanto que a Origem
Empunhando áurea taça, e presa na vertigem
Dos arroubos de Mário e gestos de Vieira
Gritara à dita grei assim desta maneira;
— Numa remota era, um tempos que lá vão,
— Era em que nao bebia a água do Jordão —
Eu lia com ardor os livros da ciência,
Sendo esta para mim sublime omnipotência!!...
Mas de repente, um dia, um génio portentoso
Espalhou na cidade um foco luminoso
De eléctrica batida em negas deslumbrantes,
E eu quedei-me a olhar o génio por instantes
Para lhe bradar destarte: — O teu poder profundo
Vale mais que a ciência toda deste mundo!!!...

E a este estrondo enorme a antiga Vimaranes,
Acordando do Egas e do Afonso os manes,
Tremeu nos alicerces roídos pelos anos,
Cantando seu assombro aos priscos lusitanos!...
Baixinho lhes mostrou calcada de terrores
O desleixo que têm os sábios professores
Com as Escolas Centrais criadas para a infância
Onde um lente procede à justa sindicância!...
Contou-lhes que da rua D, João l,
Daquele grande tanque, o tanque sobranceiro
Que lavara ao Zé Povo as pálidas misérias,
Sugaram toda a água, toda sem canseiras,
Para alimentar talvez as túrgidas artérias
Dalgum ditoso campo sito nas traseiras!...
Contou-lhes com cuidado e com toda a paciência
Para onde é que ia o dinheiro da Beneficência!...
A seguir lhes mostrou a deprimente insânia
Que corre no asilo de Santa Estefânia,
Desrespeitando a lei com suas leis daninhas,
Repelindo de si às tenras criancinhas!...
Mostrou-lhes o Maria, o bronco jornaleiro,
Que tendo carta branca em um pasquim qualquer,
Sandices vomitou, em prosa de barbeiro,
Contra esse educador que se chamou Ferrer!...
Contou-lhes a sorrir, com trinta mil enfeites,
A azeitada questão chamada dos azeites,
Sustentada entre um russo e um ramalho hostil
Que mesmo assim dá landre ali em Creixomil!...
E a velha Guimarães, tendo inda que mostrar,
Mas tendo precisão do corpo descansar,
Pediu muita desculpa aos priscos lusitanos
E foi-se a descansar nos seus senis arcanos
Enquanto que o octógono sem luz e passeios
Tinha um aspecto negro — aspecto dos mais feios—!...

Desferindo a alma aos nossos bandolins
Marchetados de pérolas, ouros e marfins,
Senhoras escutai as límpidas canções
Que passam a cantar os nossos corações;
— Senhoras que por teima desses vossos olhos
Andam ou olhos nossos neste mar de escolhos
Perdidos a verter o pranto da amargura;
Senhoras que excedeis em graça e formosura
A deslumbrante Cypris — Mãe de deus Cupido —
A deusa por quem Marte andou de amores perdido;
Senhoras que excedeis as Driadas vestais
Cobertas de soberbas pedras orientais:
Deitai por piedade a esmola dum olhar
Aos nossos tristes olhos pobres em amar!
 Senhoras desta terra, antiga de nobreza,
Ai tende piedade, ai tende piedade,
Dos nossos tristes olhos, filhos da pobreza,
Com lágrimas de dor e prantos de saudade
Que bem ditas sereis, oh líricas Senhoras,
Por nossas almas simples, ternas, sonhadoras!...
Senhoras esmolai o nosso triste olhar
Com o branco luar
Dos vossos, lindos olhos
Que nos fazem andar
Num grande mar de escolhos!
Em ala, Batalhões, de porte altivo e cru!...
Oh! almas de Alexandre e espectros de Kossut:
Formar, formar quadrado que ao fogo atroador
Há-de tremer no Tejo o velho Adasmastor
E despertar talvez da sua letal inércia!...
Para a frente não tremer, oh Batalhões de Lisa,
Que lá baixo em Camões o nosso rei da Grécia
A glória da batalha, enfim nos profetiza?
Avante, Lutadores, e à luta horripilante
Que trema Rodamonte, o célebre gigante
Que Ariosto cantou em versos geniais!
Oh Fúrias do terror, oh Génios infernais,
Transformai com as balas dessa artilharia
O mundo do silêncio em forte berraria!
Dezembro de 1909
Delfim Guimarães

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