28 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (53): 1901



Em 1901, o jornal Independente, onde colaborava João de Meira, anunciou, em verso, o programa das festas a S. Nicolau. Sobre o número do pregão, rezava assim:

Dia cinco – alegre bando
Do amigo Arnaldo Pereira,
Lindas figuras rufando
Cada vez mais se animando
Com o fogo da bagaceira.

Depois, em corcéis vistosos
De uma coroa de aluguel
Vão quatro moços formosos,
Com trajes aparatosos
E cônscios do seu papel.

Enfim o carro puxado
A duas ou três parelha;
O João todo enluvado
Tendo sob as sobrancelhas
O olhar incendiado.

Depois do ciclo de Bráulio Caldas, que colocou o bando dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau numa nova dimensão, o primeiro pregão do século XX foi escrito por um outro poeta vimaranense, Arnaldo Pereira, tendo sido declamado pelo estudante João Joaquim da Costa Oliveira Bastos. Segundo a “crítica” dos jornais que então se publicavam em Guimarães, o bando foi “primorosamente escrito” e “distintamente recitado”. Prossegue com a tradição dos textos longos antecedido de uma espécie de preâmbulo, desta vez em verso.



Bando Escolástico
O S. Nicolau em Guimarães
Recitado em 5 de Dezembro de 1901
Pelo Académico Vimaranense
João Joaquim da Costa Oliveira Bastos


A RIR

O poema que vos mando, e que há tão pouco vive
É o riso duma lira encarquilhada e búzia.
Versos de sentimento, os últimos que tive
Nunca os pude vender… a trinta reis a dúzia...

Cingia-os o perfume ingénuo desses goivos
Queas virgens do Oriente, em tempos já passados
De noite iam depor nas campos dos seus noivos,
Como núpcias de pranto em dias de finados.

Mas o mundo não gosta e tem razão, decerto,
De versos a contar... histórias de revéses.
Que, se a alma do Poeta é um grande livro aberto,
Dos poetas o livro é um cancro, muitas vezes...

O meu livro era um cancro; e um cancro...democrata
Desses que andam sem luva e de chapéu na mão,
Escondendo no lenço a ausência da gravata
E vão já noite, ao luar, jantar por meio tostão...

Era um livro sem tom nem som; um esfarrapado,
Um humilde, um plebeu — um livro pé descalço.
E o mundo recusou-o ao vê-lo, enfastiado.
Como recusaria... algum pataco falso...

Nem sequer possuía aquele chiste infindo
Que acusa um livro dandy, afeito a grande roda.
Tinha alma, isso tinha; e isso é muito lindo.
Mas tem um grande mal: é estar fora de moda!...

Sim, isto de alma é já questão antiga e suja...
E então deixando ir as mágoas à gandaia,
Mandei para o diabo a sobredita cuja
E resolvi fazer poemas doutra laia.

Mas, como para o riso arfar com galhardia
É bom soltar a lira à luz do dia pleno.
Eu, que não tinha na alma, a luz do pleno dia
Iluminei a lira... a gás de acetileno...

O bando que aí vai foi construído assim.
E embora vós tenhais outras opiniões,
Estou quase a acreditar que o estro foi para mim
Amável como um trunfo em vésperas de eleições...

Se não for devolvido o enfático pregão
Não mais fabricarei poemas doutra raça.
Versos sentimentais, morram como quem são:
— Aos murros do caruncho e aos pontapés da traça.

Porque afinal a — DOR —, a velha condenada,
É coisa — dizem ser — das mais deliciosas;
Porém ninguém a quer... nem mesmo encadernada,
Em volumes de luxo, e capas estrondosas.

Por isso é, julgo eu, que o poeta, de ordinário,
Vivendo depenado e liso como um cego.
Morre como Jesus morreu sobre o Calvário;
— Sem ter uma de X nem ter que pôr no prego!...

Que eu não sei se haveria (isto é o... necrológio)
Duma cebola...) um prego em tempo tão... rotundo.
Mas pelo tempo a que pus no prego o meu relógio
Calculo que os houvese.. .antes de haver o mundo... .

Aí vae o bando... É vosso, ó meus irmãos de há anos!
Há aí muita amargura oculta em gargalhada.
Não saiu como eu queria, em versos sobre-humanos.
— Mas quem nada mais tem não pode dar mais nada…

Guimarães, 29-XI-901
                                                          Arnaldo Pereira



Silêncio! Nem um pio!... Um homem bem criado
Não vai meter nariz onde não é chamado.
Para não apanhar alguma das de racha,
Mete a viola ao saco e vai calando a caixa
— Sobre essa má questão que pela imprensa lavra
Tem a palavra o Nemo, — o Nemo da “Palavra”...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Guimarães! Guimarães! Como tu estás mudada!
Desde que tens polícia, a grande força armada,
E galgas a Avenida, arfando a tais abalos,
Nos carros a vapor do Cosme... a três cavalos.
Grandes coisas distingo, ó Guimarães! ó oblíquo
Berço do grande Afonso e mais do Trinta e Cinco
Abalam-te com ânsia os príncipes reais,
Cortejos, excursões, e tantas coisas mais,
Que eu pasmo, e cismo, e tremo ao ver-te assim mudada!
Guimarães! Do que vejo eu não percebo nada!
Quem te viu, como eu vi, despida de arrebiques,
Jogando à tarde o peão com D. Afonso Henriques,
Camisa suja, o pé descalço, os punhos rotos,
A correr à pedrada os velhos e os garotos
Quase não chega a crer nessa transformação:
— És um perfeito dandy... armado à Benoiton!...
Mas voa, Guimarães, nesse voar insano!
Vai de Relho à estação e da estação ao Cano;
Corre a Fafe em comboio, entoando no regresso
Hinos ao modernismo e hossanas ao Progresso!
Pinta o jardim a verde e as torres a vermelho;
Vai correr à pedrada os paços do concelho;
Deixa viver tranquila e em paz, risonha e fátua
A larva aos pés da erva, e a erva aos pés da estátua;
Transforma do jardim o lago em poça tétrica;
E acende o teu charuto à luz da luz eléctrica,
E ao passar, ao voar, como um tufão que corre,
De S. Dâmaso lança abaixo a cruz da torre,
Que eu tudo louvo e aprovo... achando tudo pouco…
Tem cautela, porém... Vai, corre como um louco,
Assim como um trovão do azul que se despenha,
À Penha pela Costa e à Costa... pela Penha;
Mas às Hortas não vás... Se tens amor à vida,
Se não queres pôr em risco as ventas na corrida,
Proíbe que se passe ali sem fogo ou isca!
O conselho é sensato; e se o seguires à risca,
Não terás de chorar um dia ó tristes sinas!
Sobre as ruínas cruéis do alinhamento em ruínas...


O consórcio famoso, o duplo casamento
Que encheu ali a foi caso de espavento
Ergueram-se os Camões dos Vascos da Parvónia,
Para verem de perto a estranha cerimónia:
— Quatro noivos a rir, vaidosa mete ufanos,
Não conhecidos inda há coisa de três anos...
E a Surpresa e o Espanto, alados como a brisa,
Saíram para a rua em fralda de camisa,
A cantar, a pular, saudando a patuscada!

Safou-se para o Carmo o chafariz antigo!
Querendo acautelar os seus pulmões em perigo,
Afectados do mal que à noite, às horas mortas,
Anda em carro de bois a badalar às portas,
Fez uma figa ao lar, já velho e sem encanto,
E foi propor um solo ao velho Campo Santo

Ficou-nos o pinheiro, a força dura e infesta,
Erguido pela CAPA em monumento à FESTA.
Se acaso algum futrica ousar meter bedelho
Nesta festa ou quiser vir dar algum conselho,
Seja amarrado... — vivo — ao nosso bom pinheiro,
Como se amarra a um tronco um velho cão rafeiro.
Para não mais voltar aqui a meter nariz,
Julgando morta a lei do antigo chafariz.

Batem-se em guerra aberta, a fogo vivo e fero,
As legiões do Papa e as hostes de Lutero.
A nobre espadeirada e os clássicos bananos
Andam de braço dado, a rir, como marçanos,
Dançando o balancé... clássico nos lombos,
Que apanham para tabaco e vão rolando aos tombos...
Heróis da mesma grei! deixem-se de questões;
Façam também acordo e vão às eleições!

Sacerdotes do altar olímpico do Estudo!
Não nos olheis assim, com gesto carrancudo.
Não fala a nossa festa ao vosso génio austero?
A festa é uma lição: marcai-nos mais um zero…
Mas deixai-nos gozar os dias do folguedo
Que para recuar, é tarde, e para acabar, é cedo,
O gozo é a luz; e a luz é o báculo da ciência.
No gozo arde o farol de brilho sobre-humano
A cujo sol desperta o sol da Consciência
E começa a pensar o pensamento humano...
Esta é a filosofia egrégia dos anais:
— Já assim filosofavam os pais dos nossos pais...
E se vós repontais e em voz sonora e alta
Jurais ainda assim marcar mais esta falta
Ficais segunda vez vencidos na contenda:
Folga que não se dá, vai-se buscar à venda...
Uma dor de barriga, um calo impertinente,
Um dente aqui a doer extraordinariamente,
Um pé numa desgraça, um golpe… um tifo, mesmo,
Vendem-se tão barato, em qualquer parte, a esmo,
Que, — francamente o digo e afirmo a quem está —
Não vale a pena a gente andar corada e sã!
Iremos pois comprar... quê?... Uma indigestão...
Como era dia grande comemos hoje... à ceia
Uma lampreia fresca, e o raio da lampreia
Veio-nos para aqui... fazer judiarias...
— É doença que nos dura, o menos, oito dias!
Um atestado faz o resto; e um atestado
É coisa que nos custa apenas um cruzado...

Se algum casquilho alvar, julgando ser um sábio,
Quiser tentar provar com lérias de alfarrábio
Que a festa a Nicolau devem cavar-lhe a tumba
Porque lhe mata o sono a golpes de zabumba,
Polícias da Central, de que o Petim é o chefe!
Derretei-lhe o costado à força de tabefe...
Que nunca mais nos ladre em tal ocasião.
Quem não quer apanhar não seja refilão;
Meta a fala no bucho em vez de dar ao rabo
E mude para a China ou vá para o diabo!

Caixeiros do Bom-tom! Arautos da Tabúa!
Julgais já morta a guerra? A guerra continua!
— Eu nisto não levanto um falso testemunho:
Caixeiros nesta festa, e de zabumba em punho,
A metralhar sorrindo a cauda dos trovões,
Vinham-nos povoar a capa de… borrões...
Não! Não triunfareis! Que vós correis à pista,
É coisa que conhece-se... à primeira vista...
Mas nesta guerra hostil, neste combate incúrio
O arcanjo é Nicolau e a víbora é Mercúrio!
As vossas legiões, virgens de guérreas cenas,
Não têm valor algum: — são frágeis e pequenas.
A um tiro de baqueta erguido nas fileiras
Mandam-vos para a fava e fogem das trincheiras!
Tricanas para a luta, esperam-nos formadas:
— Grandes como os heróis! loiras como as espadas!
Não teme nem se curva a farsas sobre-humanas
Quem tem pelo seu lado o bando das tricanas!
— Caixeirinhos do High-Life! Eu quebro o vosso ceptro
Pedi a paz! deponde o coco! alçai o metro!
Que o coco há-de cair aos pés do nosso gorro,
Humilde e penitente assim como um cachorro...
E, pois que nesta luta o vencedor só escapa,
Metro! curva o joelho e beija a mão à Capa!

Maravilhas de nome, em face das guerrilhas
Tomou a cruz e fez e disse maravilhas!
Tremeram de pavor comarcas e concelhos;
E Guimarães, curvada, e as turbas, de joelhos,
Foram ouvir de perto o estranho paladino.
Retumbou pelo vácuo em convulsões um hino;
E as brisas de S. Pedro, as brisas liberais,
Ajoelharam fiéis na nave dos rosais,
Fazendo ajoelhar as pedras das calçadas,
E as loiras multidões, as multidões curvadas!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
— E até a própria Avenida, a arena das peixeiras.
De tanto ajoelhar… ficou com joelheiras...

Venha de longe, em guerra, ali para os Pombais,
Cavalaria em barda... e alguns municipais,
Para salvar da unha hostil das populaças
O nosso Nicolau, que vai falar às massas...
Gargalhem pelo espaço os lábios do clarim,
Num chinfrim colossal, num trágico chinfrim,
Para julgarem lá fora, em outras regiões,
Que Guimarães já sabe… armar revoluções!...

Tricanas da Boémia! Heróicas borboletas
Que andais voando em torno às nossas capas pretas,
Tentando, desafiando o nosso olhar risonho,
Boémio do Luar cuja canção é um sonho!
Vinde poisar em nós, ciganas da gandaia!
— No gozo e no folguedo a capa é irmã da saia!...
Mandai para o diabo a agulha dos teares,
E vinde-nos tecer, de braço dado, aos pares,
Camisolas dum linho erótico e macio
Para o nosso coração, que anda a tremer com frio!...
Vinde em massa, aos milhões, cantando na amplidão:
Lá vem o sêr doutor... Ai riem?... Pois então
Julgo que desta vez acanho o meu quinau...
Se até vos ouço já dizer: — Sim, bacalhau!...
Vivandeiras da capa! é vir e rir sem medo,
Que a capa — bem sabeis... é firme, e de segredo…


Faltou-nos este ano o riso do Sampaio!
— A primavera azul murchou sem ter um Maio! —
Tendo perdido de alma a paz que a Alma invade
Vagueia a soluçar os hinos da Saudade
Pelas galés da Ânsia ardente e sepulcral.
— Filhos de Nicolau! Bombos em funeral!
Na Dor, como na Morte, o ruído sepultai-o.
O Sampaio não vem; choremos o Sampaio.
O seu riso vagueia, exangue e desgrenhado,
De grilheta no pé, assim como um forçado,
Pela noite, da Mágoa, a noite dolorida,
Condenado febril do Além por toda a vida!
Não o deixemos só; levê-mo-lo na ânsia,
Através da penumbra hostil da solidão,
Como Deus que atravessa os mundos da distância
Levando no Infinito um astro pela mão!

Saudemos aqui, num brado inconfundível,
Do Bráulio glorioso o nome imperecível.
A ele, que deu voos à nossa festa antiga,
Levando-a pela mão, dando-lhe a mão amiga,
E a lira triunfante, e a alma diamantina,
A ele a saudação da capa e da batina,
Soe um grito vibrante, elástico, profundo...
Uma capa é uma alma e uma batina dum mundo!
— Que esse mundo ajoelhe, e dessa alma na asa
Grave um hino inflamado, um hino azul em brasa.
Em honra do poeta heróico e triunfante
Cuja lira doirada a aclama o estudante!


A que os reis vêm render preitos de vassalagem.
A loira mocidade heróica e diamantina
Rasgou aos vossos pés a capa e a batina!...
— Vinde! o tapete é a capa, onde estremecem almas!
Passai! a esteira é o gorro a explodir de palmas!
Senhoras! coroai a luz do nosso Amor,
Mandando-nos os sons duma risada em flor
No cálice dos vossos olhos diamantinos.
— Deus fez o vosso olhar para se beber em hinos!
Dai-nos um sonho bom, ó filhas de Verdóths,
Porque afinal sabeis… sabeis quem somos nós?
Pajens loiros do azul fantástico da Infância,
Que andamos pelo Luar nos braços da Distância
Quando voam à noite, a par das andorinhas,
Em núpcias de mistério os pajens e as rainhas!
E quando do luar na alvura gloriosa
Palpitam castamente, em frémitos de rosa
As luzes dum olhar olímpico que vimos,
Pedimos esse olhar... e nada mais pedimos...
— Fidalgas da nobreza heróica das sultanas!
Saudai! coroai as capas lusitanas!
E as capas erguerão, cisnes da Madrugada,
Um canto que soará nos páramos sem fim
Como um brado a irromper do azul duma Alvorada,
Como um hino a estalar em chama num clarim.


Soldados de Minerva! A mim, pela Fanfarra
Morra o Silêncio hostil nos braços da Algazarra!
E nem um braço afrouxe em luta tão mofina:
— Guerra ao Sossego! morte à Paz! Silêncio à ruína!
Gargalhem mil trovões em cada maçaneta,
Escangalhando o mundo a golpes de baqueta...
Quebrem os bombos! Rasguem as peles! Partam os braços!
Mas ponham-me isto tudo em trinta mil pedaços!
Um vendaval de sons fantástico e profundo
Soe de polo a polo e vá de mundo em mundo,
Acordando ao passar, em chama, alucinado,
As brumas do futuro e os ecos do passado!
Para que o mundo julgue, ouvindo a guerra crua,
Que anda lá em cima o Meira a querer prender a Lua!!

                                                          Arnaldo Pereira 

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