26 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (51): 1899

Milagre de S. Nicolau


O pregão de 1899 foi escrito por Bráulio Caldas, que, num poema que antecede o seu texto impresso, anuncia que este será o último pregão de sua lavra (um dos jornais da terra escreveria que este pregão foi uma brilhante despedida do mavioso poeta Bráulio Caldas, que sendo o quinto que escreveu se julga já bacharel em bandos). O pregoeiro voltou a ser o mesmo do ano anterior, Álvaro Machado, agora na condição e “Académico aposentado”. O cortejo do pregão saiu do Teatro D. Afonso Henriques, pelas 13 horas, percorrendo o seu itinerário habitual.

O pregão é um excelente exercício de escrita satírica, que começa, como foi norma nos textos que escreveu Bráulio Caldas para as festas dos estudantes de Guimarães, com um magnífico naco de prosa humorística.

Mais uma vez, o pregão cumpre a sua função de crónica do ano em verso, não lhe faltando referências a questões locais (a morte de Martins Sarmento, por exemplo), nacionais (a epidemia de gripe asiática, etc) ou internacionais (como a guerra do Transval ou o caso Dreyfus).


DESPEDIDA
À
ACADEMIA VIMARANENSE
A minha formatura em bandos escolásticos
Termina com o quinto e sinto-me cansado.
Poeta melhor fará poemas mais fantásticos,
“A não ser que eu fique este ano reprovado.”

Mas... ainda que o seja, a vida já registra
Profunda, na minha alma, a triste dor lendária!
— O sol já tem para mim na luz a cor sinistra
De uma câmara ardente em casa mortuária.

Os crisântemos de oiro em belo altar bucólico
Já não têm para mim na exposição agrados
Contemplo-os a cismar num riso melancólico
Como adornos de campa, em dia de finados.

Por isso perdoai e não julgueis, sorrindo,
Que a mão que os escreveu tem manchas de maldade.
Fui lutador na vida, e num abraço infindo
Despeço-me de vós — adeus ó mocidade!

Pregão Escolástico
O S. Nicolau em Guimarães
Recitado em 5 de Dezembro de 1899
Pelo estudante vimaranense aposentado em filosofia Desta é que é a Verdade e hoje Doutor em capelo pela Universidade Bacteriológica da Rua de Couros
ÁLVARO FERREIRA MACHADO

Eu D. GRULHA CALMETE DE NICOLAU E PIPA — Juiz do tribunal das PENDÊNCIAS ESCOLÁSTICAS e do armamento E desarmamento das Maçanetas Bombásticas em pancada certa e rítmica nas respectivas peles de Caixas e Bombos.

Vistos os autos, &.
São os réus académicos das festas de S. Nicolau acusados pelo ministério público da Sensaboria e Reacção e pelas autoras e autores particulares D. Comodidade, D. Mística e D. Repontona, Dr. Sossego e Sr. Esquisito de cometerem a contravenção da chiadeira dos carros na entrada do Pinheiro dentro de barreiras desta cidade e dos crimes de assuada, tocando furiosamente bombos, em número muito superior a três, à porta de cidadãos pacíficos, e rapto de tabuletas. Atendendo a que o rapto de tabuletas e outros objectos que dormem “naquele engano de alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito” é prejudicial e transtorna, por horas, o funcionamento das transacções comerciais e industriais e que o desvio das mesas e bancos da praça do mercado, onde se vendem os géneros alimentícios, para perto do Pinheiro, transtornam a vida económica das famílias, porque dão lugar a que as sopeiras se demorem junto do Pinheiro sem fazerem as respectivas compras.
Atendendo a que se prova a circunstância agravante que resulta da discussão da causa, de que os réus causam prejuízo aos pais, nesta ocasião, gastando dinheiro e cabulando, e, além disso, que nestas noites de entusiasmo, passando por certas ruas sujas, podem inocular o bacilo da peste bubónica...
Atendendo a que se não prova a circunstância atenuante do bom comportamento anterior; pois que os réus desde o dia 29 de Novembro até ao dia 6 de Dezembro dos anos anteriores têm sido levadinhos da breca na brincadeira
Mas
Considerando que é expressa a letra dos Estatutos de 1838, regulando e consentindo estas festas anuais
Considerando que a chiadeira dos carros não constitui contravenção, mas antes faz um conjunto harmónico com o hino académico e o som dos bombos e caixas
Considerando que as testemunhas inquiridas, venerandos anciãos que de visu assistiram aos grandes e ruidosos festejos de outras eras e que afirmam sob juramento, na caveira de Nicolau, que são antigas de posse imemorial verdadeiras, inofensivas e periódicas todas as garantias, praxes e privilégios e regalias dos estudantes de latim, filosofia e lógica desta cidade
Considerando que assim o entendem os ilustres comentadores da jurisprudência Nicolauina, o conselheiro Acácio Machado no seu tratado de escalas cromáticas e acrobáticas de maçaneta de bombo
Álvaro Machado na sua dissertação filosófica — esta é que é a verdade — Pádua nos seus reportórios de Taina e Sopeirame — Januário na sua arte de rufos e ouvido o parecer do clássico D. Jerónimo Sampaio na sua apreciada colecção de exibições e piadas, e lendo uma inscrição epigráfica encontrada nas escavações do monte Redondo pelo afamado arqueólogo Albanus Belinus, na qual se representa Nicolau tocando bombo e tomando água de unto de camaradagem com Mumadona nas novenas da Conceição — e um fóssil encontrado nas escavações da Citânia, que bem se conhece ser Casca do Antigo Pinheiro das festas de Nicolau do tempo dos trogloditas, e mesmo, e finalmente, sem haver arrojo de jurisprudência, Nicolauina pode aceitar-se a autenticidade de um pergaminho encontrado no castro de Sabroso, onde se demonstra claramente que o paraíso terreal fora aqui onde hoje está situado o berço da monarquia e que fora Adão o primeiro estudante do mundo que deu a maçã à sua querida Eva e não esta àquele, como erradamente até hoje se tem dito; pois a própria lança de que Adão se serviu para a espetar também foi encontrada em Sabroso, oxidada e roída pela acção do tempo, mas conhecendo-se ainda bem a forma de serpente
Por tudo isto e o mais que dos autos consta, julgo improcedente e não procedo a acusação por falta de intenção criminosa, e absolvo os réus académicos e os mando em paz e às moscas com plena liberdade de festejarem o S. Nicolau, como entenderem, e condeno as partes queixosas a recolherem-se à sua insignificância e nas custas e selos do processo.

Um lustre já lá vai depois que ressurgir
A festa a Nicolau que toda a gente admira!
Saúdo-vos então — um parabém profundo,
Por não ser d’esta vez ainda o fim do mundo.
— Foi mau não derruir a carunchosa bola
Com o Biela audaz, jogando a carambola,
Voltando à nebulose à voz de Laplace!
Talvez fosse melhor... talvez que se formasse
Nas lavas do Espaço, um belo Paraíso
Onde a Ventura fosse a esposa do Sorriso!
Mas, como não findou, eu conto os factos lógicos
Que Minerva mandou dos mundos mitológicos.

Guimarães, Guimarães não tens o pranto enxuto,
Este ano, a soluçar, cobriste-te de luto!
Uns crepes de viúva esmagam-te a alegria.
— É pequeno o espaço, a campa da Atouguia
Para entesourar o vulto enorme de Sarmento
Na ciência, na Arte e mais no sentimento.
Uma estátua há-de ser a perenal memória
— Aos pés chorando a Pátria! é o pedestal da Gloria!

Marques sem ser marquês terrível como Nero
Fez acordo e gritou eu mando e posso e quero.
Mas um vento contrário e sem ser brincadeira
Soprara rijo e forte aos lados de Nespereira
Venha agora a bonança após as águas mil
Hissope e água benta ó P.e Guilhomil.

Se algum pedante audaz com fumos de autocrata
Julgar que tem direito a entrar e nos maltrata,
Ou vier censurar, com lógica anacrónica
Ou quiser proibir, julgando a festa crónica,
— Jornal de boa lei, não faças cerimónia,
Enterra-lhe a carapuça, atesta-lhe PARVÓNIA!
Tal como o Transval, terrível na contenda
Esfarrapando a pança ao John Bull da lenda.

Soldados cá da terra, ó guardas lusitanas
Não isoleis o bando amigo das tricanas,
Que sempre nos quer bem, saudando a patuscada,
Entusiasmando sempre a nossa vida airada.
Pois ensinar-lhes quero, amável com carinho
Vai ser moda trazer ao colo um leitozinho,
Não as prendas Sampaio, agora a mim compete
Apalpar-lhes o pulso, eu sou Dr. Calmete!

O Porto ressurgiu nos mapas do Universo
Ecoou em todo o mundo em aflições imerso!
A nobre democrata, a genial Invicta
Foi presa, cruelmente, e dos irmãos proscrita!

Que horrores que causou a célebre asiática!
Essa rival do Tifo a Peste enigmática
Que faz mais mortandade e mais o mundo aterra
Do que os gatos e cães na antiga e crua guerra!
O Mar parou de susto, a terra então lavou-se,
As estrelas fugindo, o sol desinfectou-se!
E olhando lá de cima, o próprio Padre Eterno
Teve horror ao bacilo e condenou-o ao inferno!

Porcos e percevejos, ratos e ratazanas,
Que mudem para a lua ou vão para Pantanas
Bichanos desta grei com eles no Vesúvio!
E, não morrendo ali, se houver outro Dilúvio
Afogados serão, dançando o balancé...
— Não tornarão a entrar na Arca de Noé.

E o caso estupendo e raro e nunca visto
Suspeito de bubões! num moço aqui benquisto!
— Ia custando caro aos tais caiadores
Com sentinela à vista e outros matadores,
A rezar a novena à peste, em Monteverde
Nas Goelas de Pau da nossa Vila Verde!
Foi um caso de susto horrores e cheliques!
Ia cheirando a texto ao próprio Afonso Henriques
De tanto vitimar caindo de cansaço
Metamorfoseou-se em larva do Andaço.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ó sábio Esculápio! ó deus da Medicina
Que o Centauro Chirão te impingiu de rotina!
Ó Galeno, Rolando, Hipócrates de outrora,
Que Atenas arrancaste à peste assoladora!
Surgi da sepultura, altivos! esqueléticos!
As maxilas batendo, em brados apopléticos.
Aguçai, estendei as vossas falangetas
Mirradas, a tremer do pó da terra, pretas,
Numa tíbia agarrai do pestífero Taurell,
Seja o crânio o tinteiro, a tinta o próprio fel
E lavrai de uma vez numa receita irónica
— A sentença de morte à PESTE BABILÓNICA,

Foi mártir Dreyfus! Também fazendo alarde
Sentenciara Cristo um vil juiz covarde,
Temendo a populaça, os Césares das galés
Calcando aos pés as leis dos livros de Moisés!
— Se ele era um inocente e o tribunal foi cá
Que importa que abraçasse a crença em Jeová?!
Há muitos Merciers por este mundo fora
Que escarram no Azul puríssimo da Aurora
A calúnia, a mentira, a vilania atrozes,
Transformando a justiça em meretriz de Algozes.

Ó donzelas, Elite excelsa da cidade!
Vereis, vindo em triunfo, a esbelta mocidade
Com seu Magriço à frente, os doze de Inglaterra
A defender o amor que a vossa alma encerra.
— Venham de todo o mundo os generais primores
Soldados como nós são mais conquistadores
Do que Alexandre o Grande e que Napoleão
A bandeira, a conquista, é o vosso coração.

Não há nação no mundo ou terra mais feliz
Como é Guimarães, possuindo-vos, gentis!
— Torna-se meigo o Mar, beijando-vos o pé
Fazeis-nos ajoelhar no altar da vossa fé!
Curva-se o firmamento ao ver o vosso rosto
Que transforma em aurora a luz do sol já posto.
O cavaleiro nobre enaltece a armadura
Quebra a lança em respeito à vossa formosura!
À cruzada do bem, à paz universal
É súplica do céu, arcanjos, contra o mal.
Só vós podeis, volvendo um meigo e doce olhar.
Realizar, sorrindo, o sonho de Czar.

Às armas bacharéis imberbes do futuro
Cada peito um arnês e cada braço um muro!
— Um tiroteio enorme, ao terminar do bando —
Troe de polo a polo a festa anunciando!
Aos boers faça inveja a nossa artilharia!
— Fogo... nesses canhões temível bombaria
—Das guerras seja a guerra — o juízo final
Terrível Hecatombe! Orquestra colossal!

Bráulio Caldas

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