26 de abril de 2013

As poesias de António Lobo de Carvalho (5)


Ao Il.mo e Preclaríssimo Senhor Fernando de Larre Garcês Palha de Almeida comunica uma estafada Musa o estado em que se acha neste Carnaval.




Que me importa a mim ver dependurada
Em torto gancho na Ribeira velha
A fressura de um porco, ou a cernelha,
Sem pena uma perdiz, outra emplumada?

Que me importa a chouriça tão delgada,
Que ao junco de um meirinho se assemelha,
Nem outra, que a pregão anda na celha,
Que é com sangue de burro argamassada?

Que importa isto, se um homem sem dinheiro
Com a alma torta, o gesto carrancudo,
A rogar pragas passa o ano inteiro?

Nada, senhor; mas quero dizer tudo:
Só tenho os pés dum covo no fumeiro, (*)
Só as botas que trago são do entrudo.

(*) É o boticário vizinho do senhor Conde da Calheta, que está sempre com os pés ao lume.


Outro soneto que António Lobo de Carvalho dirigiu a Fernando de Larre, quando apertado pela necessidade de dinheiro e de umas botas novas.
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