16 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (41): 1870.2


S. Nicolau

Ao pregão de 1870, dos estudantes “modernos”, já aqui publicado, responderam, os “veteranos” com um outro, cujo autor não se dá a conhecer. Foi recitado por Joaquim Inácio [Peixoto] de Abreu Vieira. Não se conhece versão imprensa, apenas existindo uma cópia manuscrita na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.
Ao longo do texto são patentes as divergências entre os estudantes, com referências às acusações de traição, de que os ”veteranos” seriam acusados, traidores e sucessivas alfinetadas aos que “no lixo do Parnaso” sujaram Minerva.

Bando escolástico – 1870

De estranho modo o coração palpita
Se o ódio entre irmãos cruel se ateia;
E se alguém o quer soprar a dor irrita
O seio maternal de mágoa e leia,
Da cadeira sideral baixa aflita
A Mãe de todos nós que nos pranteia...
Quem o pode duvidar? olhai para ela,
Ó Virgem coronal, ó virgem bela
Mensageiros da paz, eis-nos na terra
As palmas da concórdia outorgando
Mas se alguma vil paixão o peito encerra
Dos que o foro escolar vão conspurcando,
A Deusa quer de tudo tomar conta,
Sem mesmo dar afronta por afronta!
Por entre o sol da graça, que namora
O riso popular em tom festivo
Numa falsa Minerva se afervora
O seio a mostrar feroz, esquivo;
E lembrando passagem que lá vão
Dispara o nome vil de vil traição!
“Traidores nunca foram (diz Minerva)
“Os filhos que uma afronta me lavaram
“Contra os que, e como coisa de conserva
“No lixo do Parnaso me sujaram!!
“Traidores!... isto ou é calor no siso!!
“Ou traça para fazer cair com riso!!
Vede como ela vem toda carícias
De mais que o sabe ser, que sabe amar
Não tem como se dos brutais sevícias
Nem quer os filhos seus ver a lutar,
Nem vem deles sofrer ardis, enganos,
Estando como está entre os veteranos:
E se alguém a pintou mal, é tudo peta
Como o são os caretas sem careta
Dizer que lá em cima se merenda
Espinhas e mais coisas do fumeiro,
Foi para gracejar, e não se entenda
Que a casa de Minerva é no roupeiro.
Ou que a Deusa talvez de enfastiada
Devora misturados em salada,
Lustrosos e verdiais agros pepinos...
O que por lá se come é só meninos,
Como fizera Saturno, o mal fadado...
Que comeu, oh! furor! o seu morgado!
É então que a Deusa leva a mal
Numa luta em seu dia festival,
Se os que vêm à discórdia armar os laços
São hoje Fariseus, foram madraços,
Minerva também sabe e bem se vê
Que entre os filhos seus que choram
Há velhos que não sabem o a, bê, cê,
E gaguejam a custo o b... a... ba!
Para estes entre nós não há lugar
Nem se podem cá na terra transformar.
E é simples a razão não tem mistura
(Minerva eu vou dizê-lo em prosa chã)
É porque burro velho não toma andadura;
Nem nunca de ruim moiro bom cristão...
E vós ninfas gentis, que a beleza,
Podeis entre uns e outros colocar,
Para que, com magnética presteza
Se possam uns e outros abraçar,
Dizei não é um acto de nobreza,
Pela honra duma dama pelejar,
E a um aceno seu, obedecer... e
Batalhar, batalhar até morrer?...
É a lei que vai cumprir o estudante
Levando a casta Deusa triunfante!
E tu velha, voraz e cobiçosa,
Dirás quais são os filhos verdadeiros
Quais querem a função mais majestosa
Dos tempos que lá vão, leais herdeiros?
Ah! se no íntimo de alma tu o levas
Não há que duvidar, ou foi ou peras!
Então…? ficamos a boiar na pasmaceira
Não há quem se abalance a uma asneira?...
Não sofre muito a gente generosa...
Andar-lhe os cães os dentes amostrando...
É por isso que a festa vai pomposa
À cidade e ao mundo apregoando;
Que a quem este aranzel criar fastio
Pode-se ir aquecer, fuja do frio,
Que a Virgem coronal, a Virgem bela,
Há-de sempre viver, morrer donzela.
FIM

Recitado por Joaquim Inácio de Abreu Vieira.

Nota: este bando foi recitado no dia de S. Nicolau em 1870, por ocasião da desarmonia entre os Estudantes, sendo este bando recitado por Joaquim Peixoto de Abreu, por parte dos estudantes veteranos.

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