15 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (40): 1870.1

Sagração de S. Nicolau como bispo


As festas a S. Nicolau do ano de 1870 foram marcadas por desavenças entre os “estudantes modernos e veteranos”. No jornal Vimaranense, escrevia-se a 18 de Novembro:
“Os filhos de Minerva, deusa da ciência e da guerra, parece que preferem a última.”
Nesse ano houve duas comissões de festas e as dissensões entre os estudantes levaram a que se temesse pela ordem pública, levando o administrador do concelho e o comandante do Regimento de Infantaria 6 se viram obrigados a intervir como mediadores.
Vai daí, de 1870 conhecemos três pregões.
Neste ano, a festa, por força de tanta animação, foi classificada na imprensa como “excepcionalmente brilhante”.
Um dos pregões foi escrito por alguém que se assina como R. D.  e foi declamado por António Joaquim de Sousa Agra.

BANDO ESCOLÁSTICO
Recitado no dia 5 de Dezembro de 1870
POR
ANTÓNIO JOAQUIM DE SOUSA AGRA.

De Lícia filhos, amados portugueses.
Madrilenos, prussianos e franceses,
Habitantes da Zona e Equador,
Escutai o soar desse tambor,
Que vai de Guimarães até Lisboa,
A Londres, a Pequim e mais a Goa
Anunciar um dia sem igual,
De Nicolau o dia festival,
Em que vereis função maior que dantes,
À custa dos pequenos estudantes,
Mas tão grande que os velhos vão dizer
“Festa assim nunca mais vimos fazer”.
Nosso programa é grande, é imponente.
Nem se pode dizer a toda a gente.

- Em cavalgata linda e estrondosa
Andará a mocidade estudiosa
Percorrendo as ruas e as praças,
Entretendo a todos com chalaças.
Há-de ser um bom dia de venturas
Sem haver da tristeza as amarguras.
Mas e a dama as tiver por um momento,
O estudante dar-lhe-á medicamento.
Parcas lindas, e belas, e formosas,
Ou sejam sanguíneas ou nervosas,
Moléstia de há muito em moda usada.
Mas ainda até hoje não curada,
Só o estudante neste dia goza
Um remédio, mezinha milagrosa,
Que a todas as sara das bexigas,
Força de sangue, flatos e lombrigas.
No pomo que lhes dá pela manhã,
E que o papá julga ser linda maçã,
Vai lá o coração e vai o amor,
Tudo mais que para as damas for melhor.
E depois pelas praças da cidade,
Dançará a flor da mocidade,
Danças novas, prussianas e francesas,
Russianas e turcas e inglesas,
Tudo isto com brio e gosto novo,
Que espante a fidalguia e mais o povo.
Agora uma coisa ainda resta,
É notar o privilégio desta festa.
Que não haja atrevido ou tratante,
Que venha cá sem foros de estudante.
Nós temos um carvalho ou um sobreiro,
Para todo o atrevido ou brejeiro.
Que tentar vir meter os seus focinhos,
Na festa de estudantes pequeninhos.
Apesar de pequenos, são estudantes,
Têm forças e braços de gigantes
Para dar cachafundos ao nariz
Do palerma!.. do Toural no chafariz.
É esta a pena que a história atesta
Privilégio adido a esta festa:
Excepto se a santa liberdade
Quiser roubar tal gozos à mocidade.

Agora, eia, filhos do estudo.
Com bombos e tambor atroai tudo,
Que ninguém duvidar ainda possa
O quanto vale e pode a gente nossa.
Estudantes, olhai para as janelas,
E fazei a despedida às damas belas.
Eu ao povo e a suas Senhorias
Desejo boas tardes ou bons dias.
R. D.
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