12 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (37): 1868


S. Nicolau

O autor do pregão de 1868 foi o primeiro escrito por Joaquim Pinto de Sousa Macário (o segundo, seria o de 1911, escrito em Lamego, onde vivia na condição de general reformado). Foi recitado por Carlos de Castro de Araújo Abreu.

No jornal Religião e Pátria de 9 de Dezembro de 1868, dá-se notícia das folias dos estudantes de Guimarães no dia 5 de Dezembro daquele ano:

No dia 5 de manhã aparecem já na rua alguns máscaras, notando-se um que cavalgava em mazelento burro, mas que recitava um chistoso aranzel tendente a dispor os ânimos para receber o bando que de tarde devia sair anunciando a festa do dia seguinte. Saiu este com efeito, recitado por um académico, e acompanhado por mais alguns, que se mostravam em carros, cabendo as honras do barulho em tambores aos estudantes de menos idade.


Bando Escolástico
RECITADO NO DIA 5 DE DEZEMBRO DE 1808
POR
CARLOS DE CASTRO ARAÚJO ABREU

                                 I
Damas de Guimarães vinde às janelas;
Casadas inda moças – e donzelas
Ouvir qual nunca ouvistes o programa
Da festa que amanhã aqui nos chama.
– Vinde ouvir o garboso pregoeiro,
Que é dentre os estudantes o primeiro
Primeiro, em vos prestar culto gracioso
Em estilo jucundo e mui chistoso!
Culto também de amor qual Deus Cupido
Se em vós puder achar peito rendido.
– Amanhã, amanhã ressurge o dia
Para nós há muitos anos de folia;
É festa em Guimarães de antiga usança,
E grata a muita gente à magra pança,
Amanhã – como nunca – há-de ser bela;
De ditos, de chalaças e de trela;
De trelas – alto lá... digo de tretas,
De danças, de gaifonas e de petas.
– Não menos o será de petisqueiras
Que os janotas trarão nas algibeiras,
Não faltarão maçãs, nozes e passas,
Castanhas, e também com estas chalaças,
De amores uma carta misturada;
Já vedes minhas dandis que isto agrada;
– Pois bem, mal que amanheça preparai-vos
Nas janelas depois apresentai-vos
Cada qual mais coquett; mais risonha,
Alguma que tiver má carantonha,
Ou sendo então já velhas mui ronceiras.
Essas só se admitem nas trapeiras;
Porque de Nicolau no fausto dia,
Os rapazes só querem ter folia
E chalaça gastar com as elegantes
Que apreço saibam dar aos estudantes.
Das feias, das velhotas essas – tricas,
Que se guardem para a festa dos futricas,
Que entra nós e os futricas há diferença
Mas uma distinção pasmosa! imensa.
Mas não é isto o que hoje aqui me chama
Escutem!... Oiçam lá meu programa!

                                 II
Cavalgando em jumentos orelhudos,
Vós vereis, homens magros e pançudos,
Fazendo mil gaifonas como entrudos!
Uns a falarem muito e outros mudos
Com largos papelões fingindo escudos!
Uns, de nariz comprido e carrancudos!
Já alguns de calva à mira, outros lanzudos!
Entrarem pelo lado do Toural,
Seguidos de uma banda marcial!
Tocando o hino alegre e festival
Que aos filhos de Minerva é natural!
E ali, junto ao pinheiro – pedestal,
Onde se apoia a Deusa sem igual
Todos culto te prestam perenal!
Como nunca se viu em Portugal!
Um culto tão pomposo e triunfal!
– Depois da cerimónia tão pomposa,
Esta caterva alegre e majestosa
Às ruas seguirá!!... oh!... festa honrosa!...
A s damas – qual mais bela e mais formosa,
Em vez de em sátira má, vos darem tosa,
Dar-vos-ão alecrim, jasmim e rosa;
– Também não faltarão pomos corados
Das lanças pelas pontas espetados!
Que vos serão por mimos ofertados!
Também recebereis papéis dobrados
Onde juras tereis dos namorados!
Porém, se algum dos pais desconfiados
Disser – (vendo o papel) “O que será?!...
Dizei-lhe logo assim “nada papá.
É branco este papel, é só tem cá,
Um A., um M., um O., R.! Que dirá?!...
O pai que tal batata engolirá,
Logo mais descansado ficará,
E diz: – “Nada, filhinha – guarda-o lá.
– Assim a mocidade ira folgando
Amorosas conquistas enlaçando!
E os pais desconfiados cudilhando!
– Também se faz saber hoje aos futricas,
Que escusam de vir lá com as suas nicas;
Que não se atreva algum cheirando a breu
Vir cá fazer figura de judeu;
Porque se em tal se metem por seu mal,
Irão nadar ao tanque do Toural;
Isto, só é para a os filhos da ciência,
Meus amiguinhos, tenham paciência.
– Enfim, minhas senhoras, este ano,
Se no cálculo que faço não me engano
Há-de tudo correr com pompa e fama,
Salvo se eu vos mentir no meu programa.

Joaquim P. de S. Macário

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