Pregões a S. Nicolau (36): 1867

S. Nicolau




Mascarada. – É amanhã o primeiro dia dos festejos escolásticos. Na madrugada há-de fazer-se o magusto costumado na praça do Toural e colherem-se todas as posses. De tarde, sairá um bando a anunciar a festa, o qual será recitado pelo nosso amigo o snr. Nicolau Máximo Felgueiras.
Religião e Pátria, n.º 14, 7.ª série, Guimarães, 4 de Dezembro de 1867.
O pregão deste ano ficou entre irmãos: foi feito por José Felgueiras e recitado pelo seu irmão Nicolau Máximo Felgueiras. 1867 é o ano em que encontrámos no pregão, pela primeira vez, referência à tradição de, em dia de S. Nicolau, os estudantes irem às freiras [de Santa Clara]a pedir encartuchados /Os doces dessa antiga costumeira.

BANDO ESCOLÁSTICO
RECITADO NO DIA 5 DE DEZEMBRO DE 1867
POR NICOLAU FELGUEIRAS,

É lei, é mais que lei, verbo sagrado
Para o jovem às ciências dedicado,
Livrar da fria mão do esquecimento
O clássico dever do cumprimento:
Antes, pois, de mais nada eu vos saúdo:
– Vivam damas e nobres... viva tudo!

Agora, em torno a mim de boca aberta,
Venham todos – e ouvido bem alerta!
Que o programa; que a lei desta função
Não é balofo estilo de truão,
Nem promessa falaz de candidato
Que passe da mudez ao pareato...!
E o édito legal, fiel desenho
Do festim escolar, no qual o engenho,
O donaire com graça e gentileza
Bem prescindem de luxo e de riqueza,

Mas acaso pensais ver amanhã,
Ostentando no ar velha maçã.
Montadas em jericos seis crianças?
Empunhando na dextra, em vez de lanças,
Os cabos das vassouras enfeitados?
E às freiras a pedir encartuchados
Os doces dessa antiga costumeira?!
Arreda! – lá para longe a frioleira!

Sacudindo as algemas, de cativa,
A função de amanhã ergue-se altiva.

Vereis bailados mil bem entrançados,
Cavaleiros gentis e abroquelados,
Sofreando os corcéis na audaz carreira
De num salto galgar a rua inteira!
E do estudante ao brado festival
Minerva, por seu mimo maternal,
Baixar do Olimpo à terra em companhia
Dos génios – musical e da poesia!

Carme, ciência e lira! – Que mais falta?
Da vida a luz, que a existência esmalta?
O néctar divinal, doce ambrósia,
Que a glória nos inspire de tal dia?...

Oh sim! oh! que quereis vós, mimo dos céus,
Fragrância de flor do paraíso!
Ovantes nesse olhar... colheis troféus,
E aos vencidos... o céu dá-os ruim sorriso!

Bravo! o matiz do coral na face bela
Eu vejo assinalar minha esperança!
Nos olhos o fulgor de meiga estrela
Promete alegres dias de bonança...?

Sim! sereis amanhã enlevo de alma
Do excessivo labor do meditar
Alívio, galardão, penhor e palma
Para quem sabe ao amo recompensar

Fazei-vos, pois, de amor fiel guarida
Tornai prazer a dor, doçura e pranto
E... num suspiro levai a alma e vida!...
………………………………………….

Mas se aquém do teu sólio está o encanto
Que tanto as nossas almas delícia.
Para que criaste o céu, ó Potestade?...
Avé! Filha do amor e da alegria,
No mundo te encontrei, felicidade!

Agora o que me resta? – A lei penal
Ditar ao estudante desleal,
Como ao parvo, imbecil que, sendo gozo,
Nos quiser usurpar condão mimoso
De as damas requestar encaretado
Se o primeiro amanhã for encontrado
De bochinha ao ar... terá ligada,
Embora a não quiser por desposada,
Por eterna e imutável companheira
Uma velha sem dentes e gaiteira!...
O segundo, em albarda encasacado,
Será um picadeiro esporeado!

Enfim, ouvintes meus, vou terminar
Se à verdade o programa vos faltar
E a festa não vencera dos mais anos.
Paciência!... post tantos desenganos!

José Felgueiras

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