2 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (26): 1857



O pregão de 1857 foi o primeiro escrito por J. F. Mendes de Abreu. Foi recitado por Jacinto de Sousa Dias. No jornal A Tesoura de Guimarães, descreve-se como decorreu o acto em que se anunciava a festa dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, que teria lugar no dia seguinte, 6 de Dezembro:

O pregão anunciador do festejo ia vistoso e magnífico. A figura de Camões seguida daquelas que representavam as faculdades da Universidade de Coimbra, mostravam o apreço que as ciências e a literatura dão ao nosso primeiro poeta. – Se haviam de alterar o programa, deviam também mudar a hora da saída, porque em muitas partes deixou ele de ser ouvido, e quando mesmo o Pregoeiro tivesse peito de bronze, e não se achasse tão incomodado, com se achou, só altas horas da noite poderia terminar, satisfazendo aos desejos de todos.
A Tesoura de Guimarães, n.º 129, Guimarães, 11 de Dezembro de 1857


BANDO ESCOLÁSTICO RECITADO 5 DE DEXEMBRO DE 1857.
POR
Jacinto de Sousa Dias.

Pátria de Afonso, surge, flor mimosa,
Vem, de galas vestida, vem donosa,
Que breve despontar a encantadora
Do sexto de Dezembro vai aurora,
Que já na alma venturas mil inspira
À tenra juventude que a suspira:
Que espera mimos ter entre folgares,
E dum ano esquecer duros penares.

Que festivo assomando ao teu desperto,
Tornará de prazer embriagado,
O coração de saudade torturado,
Do jovem terno, ao ver que prazenteira
A dama esperando-o está rindo fagueira,
Que prestes antevê doce momento...
No peito lhe esvoaça o sentimento!...
Anelando soltar meigo sorriso,
Quando o pomo recebe lindo e liso;
Que já parece o coração prender-lhe,
Aquele que homenagem vem render-lhe,
Neste dia sem par, dia de amores,
Que sempre traz alívio às nossas dores…
Sim, formosas, de longe já sabeis,
Que vós sinceras amanhã podeis,
Sem temer coibida a liberdade,
Do jovem compensar alta amizade;
Dele tomando o nacarado pomo,
Rival em mimo à flor do cinamomo.
Mas não penses, futrica arrebicado,
Amanhã pôr-te do estudante ao lado;
Misturar-ta, qual gralha, entre pavões,
E roubar-lhe devidos galardões:
Não penses!... E ai de ti!... se ousado intentas
Por brincadeira, só, cobrir as ventas!...
De ser valente vai perdendo a fé,
Que levas muito soco e pontapé,
Té que no tanque do Toural, molhado
Vás ser, qual duro bacalhau, salgado;
Isso reserva lá para outras eras,
Quando então fugurar possas deveras,
Em progresso a falar... forte mania!...
Da época é um delírio; que hoje em dia,
O progresso real e verdadeiro,
Consiste em títulos, honras; é dinheiro.

Também, se diz ser do progresso a moda
Saia, balão, trajar de imensa roda,
Que faz, por não espanar luzida bola,
À parede arrimar qualquer Janota.
Formosas, o balão, estupendo gosto!
Mostrai ser à modéstia vício oposto;
Que sendo vós no mundo sem rivais,
Orgulhosas não sois, mas liberais.

À criada de sala permiti,
Livre, senhora, e confiada em si,
Debruçar-se a janela, e, sem receio,
Ter possa de maçãs um saco cheio.
Talvez haja ratão, que por chalaça,
Lhe queira, só, fazer tamanha graça.
E dai à cozinheira permissão,
Depois de bem lavada e com sabão,
Que o rosto mostre lindo e mui luzido,
Natural ou de tintas colorido,
Que não julgada moça de cozinha,
Vá chuchando a maçã mais coradinha.
Sede com elas, sede, generosas!
E em compensar serviços primorosas,
Indo amanhã humildes implorar
Soneto, que o mama só pode dar:
Bem vedes que por causa dos amores
Às vezes lhes deveis altos favores!...

Vós, filhos de Minerva, cuja glória
À posteridade passará na história,
Os ecos do tambor altissonante
Fazei reproduzir com mão possante,
Que retumbem no espaço em tom profundo,
E vão festivos indicar ao mundo =
= Que a festa, d’amanhã, dos estudantes
Pomposa ela vai ser mais que era d’antes.
J. F. M. de Abreu

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