18 de abril de 2013

O conflito brácaro-vimaranense segundo Rafael Bordalo Pinheiro (1)

Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro publicado na revista Pontos nos ii, nº 38, de 21 de Janeiro de 1886, pp. 300-301
[tocar na imagem para ampliar]

A propósito do conflito entre Guimarães e Braga que tivera o seu início no dia 28 de Novembro de 1885, quando os procuradores de Guimarães à Junta Distrital foram objecto de uma acção concertada, que incluiu injúrias e de apedrejamentos, muita tinta correu nos tempos que se seguiram. O litígio entre as duas cidades, que havia de contribuir para o derrube do último governo fontista, também inspirou a pena de Rafael Bordalo Pinheiro, que o satirizou na revista Pontos nos ii.
A caricatura que vai acima foi a primeira peça que Bordalo dedicou à querela brácaro-vimaranense, cujos protagonistas vestem a pele de personagens do poema trágico Fausto, de Goethe: Guimarães é Valentim, Braga é a sua irmã Margarida, o Marquês de Valada, governador-civil de Braga, é o Mefistófeles. O rei António é (António Maria) Fontes Pereira de Melo. Aparece também o Porto, na figura da estátua que o representa, a estender a mão a Valentim-Guimarães (neste conflito, Guimarães exigia sair do distrito de Braga para se unir ao Porto, tendo mesmo o deputado João Franco apresentado no parlamento uma proposta com essa intenção).
O texto que vai abaixo aparecia na página seguinte daquele número dos Pontos nos ii, e é o final de uma crónica que ocupa várias páginas. Vale a pena ler.
[O Bailio a que se refere é o Marquês de Valada, representante de Fontes Pereira de Melo no distrito, na sua qualidade de governador-civil.]

Crónica
[...]
Ontem, dizia-se num grupo à porta da Havaneza:
- …Guimarães!...
É verdade!... Pobre Braga !... Apesar de todos os seus protestos, aposto em como Guimarães lhe passa o pé... e vai para o Porto...
Não podia haver dúvida: tratava-se dos nossos comuns amigos João Guimarães, Duarte Braga e Cunha Porto, sobejamente conhecidos no mundo do Chiado...
E nós pensámos:
Uma leviandade de dilettanti do João Guimarães... Está farto de ouvir cantar ao Braga aquela eterna serenata:
“Oh! Gatos!
Oh! Minhatos!
Oh Filipe, Filipe sim!
Oh Filipe, Filipe não!”
e quer agora variar um pouco, escutando as canções brasileiras de Cunha Porto :
“Mulátinha di caroço
No piscoço
Aqui tens o teu gambão!
Mete, mete a águilhoada,
Minha ámáda Neste dengue coração…”

Os jornais deviam falar no caso. Tomámos um ao adito, como diria Mendonça e Costa, deparando-se-nos logo um telegrama com os nomes de Braga e Guimarães.
Lendo-o sofregamente, só então compreendemos que se não tratava dos nossos amigos mas sim da Braga fiel e da Guimarães que infiel lhe quer fugir, para se lançar nos braços do Porto conquistador e nunca conquistado!
Por aquele despacho vê-se que Braga está no momento actual arrotando as postas de pescada duns enfartes guerreiros, muito para admirar em estômago alimentado ao eterno guspacho de cónegos e de beatas...
Tal estado de exaltação surpreende-nos tanto mais quanto é certo que Braga, de natureza religiosa e conseguiutemente pacífica, humilde, sofredora, aceita tudo com resignação, desde os cilícios determinados pela Santa Madre Igreja até ao governador civil decretado pelo sr. Fontes; mal se compreendendo, por isso, como agora se revolte e se enfurece, só porque a ingrato Guimarães lhe quer fazer o mesmo que muita senhora casada tem feito ao respectivo consorte: passar-lhe o pé…
Parecia-nos que Braga, depois de consentir que lhe metessem o sr. Bailio de porta adentro, murmurando resignada: “seja tudo pelo amor de Deus”, não tinha o direito de andar agora, porque lhe tiram Guimarães, a cantar pelas ruas o hino da Maria da Fonte — cuja propriedade exclusiva pertence hoje, de mais a mais, ao sr. Oliveira Martins da vida nova…
Esta incoerência flagrante, de Braga permitir que lhe metam o sr. Bailio, escandalizando-se porque lhe tiram Guimarães, só se explica pelo egoismo incontinente de quem permite que tudo lhe metam, contanto que nada lhe tirem...
Mas reparo que isso não pode ser…
*
*       *
O despacho telegráfico a que acima nos referimos, descrevendo minuciosamente a partida da comissão portadora da representação dirigida por Braga ao parlamento, diz que essa comissão foi acompanhada à gare por um sem número de corporações, “e pelas bandas de música, tocando o hino da Maria da Fonte e cerca de quinze mil pessoas”.
Aa tais bandas de música são de sete fôlegos, como os gatos!
Depois de tocarem a Maria da Fonte, ainda lhes resta força para tocarem quinze mil pessoas!
Irra! que aquilo não são filarmónicos de banda; são burriqueiros da Outra Banda!...
*
*       *
O telegrama conclui por participar que “a onda cresce” e que se espera “um levantamento geral no concelho”!...
A onda a que o telegrama se refere está de ver que é um pseudónimo… Assim para o público não podia o correspondente aplicar a verdadeira tecnologia...
Mas o levantamento que espera põe tudo em pratos limpos
Vê-se que Braga está sofrendo uma crise aguda, perfeitamente caracterizada…

[Marquês de Valada]

Neste perigoso conflito,
Marche o Bailio de Lisboa,
A ver, dum modo expedito,
Se ao levantado distrito
Consegue abaixar a proa!...

Pan-Tarântula
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