14 de abril de 2013

Efeméride de hoje: Afonso Henriques de luto



14 de Abril de 1928
Sábado. Apareceu coberta de crepes a estátua de D. Afonso Henriques, tendo junto um dístico com a legenda “Inditosa pátria que tais filhos tens…” houve largos comentários. Isto foi porque, na reunião de ontem às 9 horas da noite, não apareceram os representantes da Câmara Municipal, da Sociedade Martins Sarmento e da Associação Comercial e Industrial de Guimarães que faziam parte da Grande Comissão do 8º Centenário da Batalha de S. Mamede; os presentes membros resolveram, por unanimidade, considerar dissolvida a grande comissão.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 35)

O dia 24 de Junho é o dia mais solene de Guimarães, aquele em que se assinala a primeira tarde portuguesa, acontecida em terras vimaranenses no dia de S. João do ano de 1128. Todavia, a comemoração da batalha de S. Mamede é muito mais recente do que aquilo que muitos pensam. A primeira vez aconteceu quando Guimarães resolveu assinalar o oitavo centenário daquele recontro fundador. Até aí aceitava-se como inquestionável que Portugal nascera mais tarde, na sequência de outra batalha travada pelas hostes de Afonso Henriques, a de Ourique. No entanto, a preparação dos festejos seria atribulada. Depois de, numa primeira reunião, realizada na Sociedade Martins Sarmento, no dia 12 de Abril de 1928, a que compareceram quase todas as entidades oficiais, foi designada uma comissão para organizar as celebrações, de que faziam parte a Câmara Municipal, o Comando Militar, a Sociedade Martins Sarmento, o Arcipreste, a Associação Comercial e Industrial de Guimarães, o Reitor do Liceu Nacional de Martins Sarmento, o Director da Estação dos CTT, a Escola Industrial de Francisco de Holanda, a Sociedade de Defesa e Propaganda de Guimarães, o presidente da Academia Vimaranense, o Sindicato Agrícola de Guimarães, o lnspector Primário, a Associação Artística Vimaranense, a Associação dos Empregados de Comércio, um representante dos Alunos da Escola Industrial de Francisco de Holanda, a Comissão do Núcleo de Scouts e, pela Imprensa, o padre Gaspar Roriz. Ficou marcada a primeira reunião desta Comissão para o dia seguinte, na ACIG.
Na reunião do dia 12, o ambiente era, segundo o jornal A Velha Guarda, “um tanto pesado”, com cochichares e confidências, verdadeiras ou mentirosas, trocadas a meia voz antes da abertura da sessão. Apesar do consenso alargado que a constituição da comissão então criada parecia evidenciar, a realidade era de dissensão, ficando no ar a dúvida sobre a participação nas celebrações das entidades oficiais. A dissensão tinha, manifestamente, natureza política.
A reunião do dia 13 confirmaria os receios que alguns avançavam. As três entidades mais relevantes do Concelho, a Câmara Municipal, a Sociedade Martins Sarmento e a Associação Comercial e Industrial da Guimarães estiveram ausentes. Posto isto, os que compareceram decidiram  dissolver a comissão. As celebrações do centenário pareciam inviabilizadas.
No dia seguinte, 14 de Abril, o monumento de D. Afonso Henriques apareceu coberto de luto, e, junto dele, um lamento numa inscrição adaptada de Camões (“Inditosa Pátria que tais filhos tens…”).
As divergências seriam ultrapassadas e a Batalha de S. Mamede teria, pela primeira vez, celebração condigna em Guimarães.
Porém, ainda não seria nesse ano que o 24 de Junho seria dia de festa em Guimarães. A batalha foi festejada de véspera, a 23, e as grandes manifestações públicas só aconteceriam nos dia 7 e 8 de Julho.

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