15 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (9): 1838




Não conhecemos os pregões dos anos de 1832 e 1833, embora haja notícia de terem sido declamados. Não há notícias de festas a S. Nicolau entre 1834 e 1836. Em 1837 houve festa, mas não conhecemos o pregão que foi lido. O pregão de 1838 volta a ser obra do Padre Francisco da Bornaria. Foi lido por António Joaquim de Almeida Gouveia.
O Padre Francisco José Vieira de Faria é natural de Azurém (nasceu na casa do Bom Retiro a 5 de Maio de 1805. Foi apresentado como vigário de Azurém no dia 12 de Dezembro de 1831, lugar em que se manteria, segundo João Lopes de Faria, “até 20 de Dezembro de 1887, em que faleceu, com excepção de alguns anos após a última implantação do sistema constitucional, devido à sua opinião miguelista, a qual manifestou sempre, até na colecta da missa, quer rezada, quer cantada, em que pronunciava com mais ou menos clareza o nome de Miguel como pessoa reinante”.

Bando escolástico – 1838

Exultai de prazer, ò habitantes,
Função de Nicolau, fausta qual dantes,
Retorna festival, não retrógrada.
À nobre juventude às letras dada
O crastino dia é seu exclusivo,
De afanosas fadigas incentivo.
Na ciência da razão, arte jucunda,
Medita, raciocina e se aprofunda
O estudante analítico subindo,
A sua primeira causa descobrindo.
Pitoresca, grandíloqua, sonora,
Excedeste as estranhas até agora.
Quanto é dado atingir aos humanos,
O teólogo decifra altos arcanos
Da moral e dogmática fé pura,
Intérprete da Igreja e da Escritura.
Mais rude ainda outro se amofina
Nos hipérbatos da língua latina.
Sem da celeste luz as influências
Penetrar, quem podia altas ciências?
Quanto nas letras se tem florescido
Ao sacro Nicolau tudo é devido.
A ele se dedica o jucundo dia
E sem ele, ò habitantes, que seria?
Mas, para dolo evitar, ide escutando
Inviolável acórdão venerando:
Seu mérito não há jus a glória;
Meio ano pague foro à palmatória,
Quem com dolo vier matricular-se;
E lei que nunca tem de dispensar-se.
Ò belas, escutai dum estudante
Cordiais expressões dum terno amante
Qual no tempo brumal brilham estrelas,
Em cardume aparecei, ò ninfas belas.
Amanhã é só de amor conquista,
Seja embora exaltada setembrista.
E como os gostos sejam relativos,
As feias também têm seus atractivos.
Talvez descobrireis só simpatia
Neste de amores privativo dia.
Que gosto para um pai, que foi amante,
Ver finezas, que rende o estudante
À filha para quem é dia de gala
O dia de amanhã?! Eis se regala
A mãe, que em escolásticos primores
Recordação vê dos seus amores,
Que no laço ligaram mais sagrado
Seu amante, consorte idolatrado.
Dançarinos, casacas à francesa,
Que negra fome sofreis à inglesa,
Desportuguesa corja, estrangeirada,
Toda a nossa função vos é vedada.
Vós, insignificantes caixeiritos,
Por trazerdes enroscados carrapitos
Pendentes dos tonsíssimos toutiços
Pensareis na função ser metediços?
Este dia de Minerva é só para os filhos!
Respeito amanhã, olá casquilhos;
Mudos espectadores e mais nada,
Aliás toda a chorina é agarrada;
Malhais logo no tanque de mergulho
Em pena de altivez, de tanto orgulho.
Sem contemplação; lei, só lei valha,
Para punir o furor de tal canalha.
Outra vez, torno a vós, Evas formosas,
Amanhã colhereis maçãs mimosas.
Os olhos volvereis mais cintilantes
Em procura de incógnitos amantes.
Máscara, exibição, gostosa farsa,
Demanda só prazer, ternura e graça.
É dia festival, de asseio e brilho,
Postiça cor, toucados, espartilho.
Mas já noutro hemisfério renascendo,
Do nosso vai o sol desaparecendo.
Sentido: alto lá! digo em suma:
A função de amanhã é suprassuma.
Respeito em todos!... Ninfas, aparato!
Que este dia será a todos grato;
Despedir-nos de vós é dado apenas,
Ficai em leda paz, adeus pequenas.
Mimosas mãos já, já, ide rufando,
O dia festival anunciando.

FIM
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